A Origem do Dinheiro

Taiane Copello
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Carioca, 22 anos, estudante de filosofia na UFRJ, escritora de artigos da Universidade Libertária, ex-coordenadora do projeto LibertaRio e do Grupo de Estudos Walter Block. Palestrou na Frente Libertária; publicou um artigo na Revista Pontes sobre filosofia austríaca; escreve monografia sobre Praxeologia; tem mais de dois mil e duzentos seguidores no twitter onde posta com frequência conteúdo libertário e demais temas que envolvam filosofia e economia.

A troca é a força vital não só da economia, mas da própria civilização” (ROTHBARD, 2013).

Um dos assuntos mais cruciais em economia é o dinheiro. Essa cédula que usamos hoje já passou pela mão de quase todo mundo e até mesmo na infância já sabemos o que é o dinheiro. Mas será que sabemos realmente explicar seu conceito? Neste artigo pretendo não somente dar a conhecer a natureza da moeda, mas responder a uma dúvida bastante comum nas discussões de economia: qual é a origem do dinheiro? Por meio deste texto, o leitor entenderá algumas das questões envolvendo o que veio antes da moeda existir, o que o dinheiro é e porque ele surgiu, bem como estará capacitado a desmantelar os equívocos do assunto.

Antes de tudo, é fundamental responder como as trocas eram feitas antes do dinheiro surgir. Em “O que o governo fez com nosso dinheiro?”, Murray Rothbard [1] explica que eram feitas trocas diretas de mercadorias ou de mercadorias em troca do serviço. O nome dado a esse tipo de troca é troca direta, enquanto que o nome dado para se referir às trocas com a moeda é troca indireta, pois é usado um item específico para a troca por outro item ou por um serviço. As trocas antes da moeda aparecer eram feitas de forma direta, o que chamamos de escambo. O escambo, então, é definido como uma troca econômica direta das mercadorias ou serviços prestados pelos indivíduos de uma sociedade.

Em segundo lugar, gostaria de destacar a importância da troca na economia. Nas palavras de Rothbard:

Se ninguém pudesse transacionar, se cada indivíduo fosse forçado a ser totalmente autossuficiente, a maioria de nós obviamente morreria de fome, e o restante mal conseguiria se manter vivo” (Op. cit., p. 14).

Nessa direção, entendemos que cada região desenvolve seus recursos particulares, pois as pessoas querem alcançar satisfação com bens ou serviços que não lhe são possíveis de obter sozinhos, seja por falta de capacitação ou de tempo, no caso da época das trocas diretas, ou de dinheiro, como hoje em dia é o comum, dado o uso atual de trocas indiretas.

Em terceiro lugar, entenderemos o porquê da substituição de um modelo de troca por outro. Dificilmente o escambo seria capaz de manter a economia acima de seu nível primitivo. Um dos motivos é de que é o nível de produção fica comprometido a se manter baixo, pois se um indivíduo contratar, por exemplo, trabalhadores que sirvam na construção de um prédio, com o que ele poderia pagar a eles que chegue a um nível de satisfação para este custo? Os próprios materiais que usaria para a construção, caso isso seja tudo que ela tenha?

Quanto a essa questão, existem dois problemas básicos: indivisibilidade e a ausência da coincidência de desejos. Talvez você não encontre ninguém que esteja disposto a aceitar a sua oferta de bens. Assim, a troca fica comprometida a encontrar pessoas de desejos bastante específicos. No entanto, isso é bem diferente quando se trata do dinheiro, mas ele é divisível, i.e., conseguimos dividir a quantidade ele. Embora também possa ser argumentado que há divisibilidade dos bens como do tamanho de um terreno e do quilo de uma carne, não é o caso que haja repartição que garanta que os indivíduos terão concidência de valores. Já a moeda cumpre papel de universalizar as trocas, uma vez que ela tem liquidez [2] para trocar com qualquer mercadoria ou serviço, facilitando a busca por satisfação ecônomica.

Agora que ficou claro que é impossível haver qualquer tipo de eficiência econômica sob um arranjo formado excluivamente por trocas diretas, iremos entender o surgimento das trocas indiretas na humanidade. A troca indireta foi um aparato descoberto pela humanidade por conta do processo de tentativa e erro do mercado. Dessa maneira, os indivíduos são permitidos a atingir a satisfação sem que isso seja imediato, pois com o dinheiro em mãos você pode escolher toda a sorte de disponibilidade de bens oferecidos a você. Embora o leitor poderia se perguntar sobre a falta de dinheiro o suficiente para a compra mais cara, eu estou me referindo apenas ao fato de que, por meio da moeda, é possível trocarmos com qualquer um que aceite essa moeda.

Os bens são uns mais comerciáveis do que outros, como também podem ser menos comerciáveis do que outros. Mas se uma grande massa está confiante de que um determinado bem terá grande facilidade com as vendas, então ele poderá ser usado como meio de troca. Alguns bens são mais comerciáveis do que outros, sejam sendo ofertáveis ou demandáveis. Como sustentou Rothbard:

“Todas essas vantagens [liquidez, divisibilidade e crédito] amentam a comerciabilidade de um bem. Sendo assim, em cada sociedade, os bens mais comerciáveis serão, com o tempo, escolhidos para representar a função de meio de troca. À medida que sua utilização como meio de troca vai se tornando mais ampla, a demanda por eles aumenta, e, consequentemente, eles se tornam cada vez mais comerciáveis”.

(Op. cit., p. 15)

As moedas são meios de troca, mas por possuir liquidez, estando sujeita a oferta e demanda bem como preços, pois pode ser comparada a outras moedas, ela também é uma mercadoria. Isto porque o dinheiro não é uma unidade abstrata de conta, ele não se separa do mundo concreto e material, nem algo descartável que só presta para trocas, e tampouco somente um título sobre os bens econômicos. A verdade crucial sobre o dinheiro é esta: o dinheiro é uma mercadoria.

Toda e qualquer demanda por dinheiro existe porque as pessoas querem usá-lo para realizar cálculo econômico. E aqui chegamos a mais um ponto importante: o que é o cálculo econômico? Este argumento se trata do ponto crucial em economia levantado pelo economista austríaco Ludwig Von Mises. O argumento do cálculo econômico mostra que a eficiência da produção, bem como a busca da demanda por atingir satisfação, se dá por meio da unidade de cálculo proporcionada pelos preços. Os preços são o meio termo entre a oferta e a demanda. Um valor objeto entre a disponibilidade da oferta, gerada pela satisfação subjetiva do ofertante, e a procura efetiva pelo que é ofertado, gerada pela satisfação subjetiva do consumidor.

Mas por que o dinheiro é tão fundamental para haver cálculo econômico? O dinheiro-mercadoria é divisível em pequenas unidades, e é aceito generalizadamente por todos. Por conta do dinheiro é possível criar um sistema complexo de produção como bens de capital, mão-de-obra e terra. Sendo assim, com os fatores de produção combinados, podemos aprimorar cada estágio da cadeia de produção, pois todos estes são pagos em dinheiro. As comparações dos valores de mercado também são facilitadas, pois há unidade de cálculo numérico proporcionada pelo dinheiro, como, por exemplo, em relação as onças de ouro. Se um automóvel vale sessenta onças de ouro, certamente isso será mais fácil de ser trocado, então, do que este automóvel por vinte televisões.

Por essa razão os preços são as razões de troca ou taxas de câmbio, já que o dinheiro nos serve enquanto denominador comum. E já que Mises nos mostrou que os preços são o nivelamento da economia, permitindo uma informação que possibilite o aumento ou diminuição da escala de produção, a fim de alcançar lucro e evitar prejuízos, fica clara a importância do dinheiro.

Portanto, eu espero que o leitor tenha entendido o que é a moeda, bem como quando ela surgiu e o porquê. Não me comprometi neste texto com apresentações empíricas e registros históricos pois isto é assunto para outros artigos que já pretendem dar essa informação histórica. Aqui nós tratamos de economia, uma ciência da ação humana. Certamente, existem outras abordagens desta ciência, mas até mesmo as outras escolas possuem suas arugmentações teóricas em torno da moeda.

NOTAS

[1] Murray Newton Rothbard (1926-1995) é um filósofo e economista americano da Escola Austríaca de economia e, a partir de Ludwig Von Mises, professor de Rothbard, uma escola também de filosofia.

[2] Liquidez é a capacidade da troca de uma oferta em relação à sua demanda. Ou seja, algo tem muita ou pouca liquidez dependendo do nível das trocas.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

ROTHBARD, Murray. O que o governo fez com nosso dinheiro? Tradução de: Leandro Augusto Gomes Roque. 1º Edição. Ed. Ludwig Von Mises, 2013.

CERBASI, Gustavo. Investimentos Inteligentes. Editora Sextante. Edição de Anderson Cavalcanti. Rio de Janeiro, 2019.

VON MISES, Ludwig. O Cálculo Econômico Sob o Socialismo. Ed. Ludwig Von Mises Brasil. 1° Edição. Publicado em 1 de Janeiro de 2012.

“Murray Rothbard”. 25 de novembro de 2020. Acesso em: https://en.wikipedia.org/wiki/Murray_Rothbard


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