Como a Democracia Aumenta a Preferência Temporal

No presente artigo pretendo explicar as considerações de Hans-Hermann Hoppe [1] no livro “Democracia o Deus que falhou” sobre o processo descivilizatório da democracia. Como também irei expor os argumentos do autor, baseados na lei da preferência temporal, descoberta por Eugen Von Böhm-Bawerk. Se você, caro leitor, não está familizarizado com praxeologia, eu sugiro que leia, antes de tudo, meu artigo intitulado como “deduzindo as leis econômicas da praxeologia” que estará presente nas referências bibliográficas no final do artigo.


Primeiro, é necessário explicarmos o conceito de preferência temporal. Aqui nos referimos a uma lei econômica com a seguinte máxima: os bens presentes são invariavelmente preferíveis aos bens futuros. Isto porque ao agir o homem coloca seus valores numa escala gradativa de preferência. Por exemplo, você não consegue fazer todas as coisas que gostaria ao mesmo tempo como comer, tomar banho, caminhar, dormir e fazer sua lição de casa. E então, para agir, você faz algumas escolhas, e são essas escolhas que você coloca em escala. Como explicou Mises:

“Ao fazer sua escolha, o homem escolhe não apenas entre diversos bens materiais e serviços. Todos os valores humanos são oferecidos para opção. Todos os fins e todos os meios, tanto os resultados materiais como os ideais, o sublime e o básico, o nobre e o ignóbil são ordenados numa sequência e submetidos a uma decisão que escolhe um e rejeita outro. Nada daquilo que os homens desejam obter ou querem evitar fica fora dessa ordenação numa escala única de gradação e de preferência.” (MISES, 2010, p. 23)

Quando você escolhe uma e rejeita a outra opção, na qual você agiria num dado momento, você está demonstrando aquilo que você prefere naquele momento. Supondo que você precise realizar um saque no banco, você pode sacar hoje e comprar os mantimentos da sua casa ou pode fazer isso amanhã. Se fizer hoje terá alimento para o resto do mês. Se fizer amanhã pode acabar os alimentos do estoque. A primeira opção te trás conforto momentâneo, mas se deixar pra depois pode ser que não tenha nada que você precise. Agora vamos imaginar que você tenha deixado seu conforto de lado para ir às compras: no momento futuro você já tem seus mantimentos e pode descansar e relaxar. Mas se você tiver escolhido o conforto presente talvez fique ainda mais desconfortável no futuro do que você estaria se de antemão tivesse levantado naquele momento para fazer o que deveria.
A lei da preferência temporal mostra que embora nós preferirmos o conforto para agora, como, por exemplo, você preferir ter um milhão de reais hoje ao invés de daqui a dez anos, é possível você abrir mão de um conforto presente para se ter um conforto futuro, como a atitude de realizar investimentos abrindo uma empresa, que para isso é necessário gastar dinheiro no presente para ganhar mais dinheiro no futuro. Essa distinção entre quem gasta hoje para obter conforto presente e quem poupa para obter maior conforto futuro é denominada como baixa e alta preferência temporal – sendo a primeira opção classificada como baixa preferência e a segunda como a alta preferência. Como sustentou Hoppe:

“Ao agir, o agente humano (o homem) sempre visa a substituir um estado de coisas menos satisfatório por um estado de coisas mais satisfa­tório; ele, portanto, demonstra uma preferência por mais bens – e não por menos bens. Além disso, ele sempre considera o momento futuro em que os seus objetivos serão alcançados (i.e., o tempo necessário para realizá­-los), bem como a capacidade de duração de um bem. Ele, assim, também demonstra uma preferência universal por bens presentes em vez de por bens futuros e por bens mais duráveis em vez de por bens menos duráveis. Este é o fenômeno da preferência temporal.” (HOPPE, 2014, p. 31)

O economista austríaco Böhm-Bawerk em seu magnum opus “Capital e Juro” escreveu sobre a preferência temporal para explicar que os bens presentes são invariavelmente preferíveis aos bens futuros. Se for para termos algo de bom amanhã ou agora preferimos sempre pra agora. Porém, é possível que os indivíduos estão abrindo mão de valores presentes em razão de ter esses valores concretizados em bens materiais futuros. A economia também segue esse fio, ela é um conjunto de valores de indivíduos que põem esses valores em funcionamento. O resultado? Ação humana.
Toda ação é a tentativa de sair de um menor conforto e encontrar um mais conforto. Se meus valores postos em funcionamento não me satisfizerem o suficiente para que mais tarde eu não tenha conforto, estou justificado a abrir mão do meu conforto presente.
“Ação humana é comportamento propositado. Também podemos dizer: ação é a vontade posta em funcionamento, transformada em força motriz; é procurar alcançar fins e objetivos; é a significativa resposta do ego aos estímulos e às condições do seu meio ambiente; é o ajustamento consciente ao estado do universo que lhe determina a vida.” (MISES, 2010, p. 35)

Mas o que isso tem haver com a democracia? A democracia é um sistema político onde a maior parte do público elege seus governantes. Estes, por sua vez, vão tomar as decisões a respeito das leis e do orçamento público que vem do bolso dos governados. E tendo em vista que os governantes só ficam no poder de uma democracia por quatro anos no máximo, a visão deles é voltada para o presente (alta preferência temporal), ao invés do futuro (baixa preferência temporal). Hoppe explica, ainda em “Democracia, o Deus que falhou”, que:

“Impelido pela preferência temporal, o homem só trocará um bem pre­sente por um bem futuro se esperar um aumento da sua quantidade de bens futuros. A taxa de preferência temporal, a qual é (e pode ser) dife­rente de uma pessoa para outra e de um momento para o outro – mas que, para todos, somente pode ser positiva –, determina ao mesmo tempo o tamanho do prêmio que apresentam os bens presentes em relação aos bens futuros e o montante de poupança e de investimento.” (HOPPE, 2014, p. 32)

A taxa de juros, explica Hoppe, é um fenômeno de preferência temporal. É a soma acumulada de todas as preferências temporais dos indivíduos de uma sociedade. É o equilíbrio entre a poupança social (oferta de bens presentes em troca de bens futuros) e o investimento social (demanda por bens presentes que é pensado como algo que trará o retorno dos bens futuros). O autor também explica que quanto maior for a poupança maior será o investimento e a possibilidade do retorno dos bens futuros.
No entanto, na democracia, nosso investimento é colocado nas mãos dos políticos, os representantes investidores do “dinheiro público”. Porém, o que um político tem disponível para gastar numa democracia é esse curto tempo de quatro anos eleito, pois não há certeza futura de reeleição.
É por isso, portanto, que existem desincentivos econômicos de eficiência numa democracia pois os gastos desenfreados de alta preferência temporal podem criar déficits fiscais e aumentar a dívida pública. Embora outros sistemas de governo tenham dívidas imensas, é um fato que a democracia só aumentou mais ainda a preferência temporal já que os tomadores desse investimento possuem um curto prazo enquanto investidores, e então possuem também uma visão de curto prazo para o retorno de seus investimentos.

[1] Filósofo e economista da Escola Austríaca que escreveu “Democracia, o Deus que falhou”, “Uma Breve História do Homem” e muitos outros trabalhos.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

HOPPE, Hans-Hermann. Democracia: O Deus Que falhou. Tradução de Marcelo Werlang de Assis. São Paulo, Instituto Ludwig von Mises Brasil, 2014.

HOPPE, H. H. Uma Breve História do Homem: Progresso e Declínio. Traduzido por Paulo Polzonoff – São Paulo: Instituto Ludwig Von Mises Brasil.

VON MISES, L. Ação Humana: Um Tratado de Economia. Traduzido por Donald Stewart Jr. 3.1ª Edição. São Paulo: Ed. Instituto Ludwig Von Mises Brasil, 2010.

BÖHM-BAWERK, Eugen. A Teoria da Exploração do Socialismo-comunismo. Traduzido por Lya Luft. 1º Edição. Ed: Ludwig Von Mises Brasil, 2014.

Deduzindo as leis econômicas da praxeologia. Por Taiane Copello. Artigo publicado em: Universidade Libertária, 2020.

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