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O Conceito de Investimento

De tantos assuntos em economia, o que mais se confunde, em grande parte das vezes, são os conceitos. Sabermos o que são as coisas é, sem dúvida, o primeiro passo para entendermos qualquer assunto relacionado. Começando do básico, onde buscamos compreender os conceitos, somos capazes de interpretar situações específicas com mais clareza, uma vez que um conceito se refere a coisa em todas as situações possíveis em que ela se encaixar. Tratamos então, da essência de algo. Neste artigo, pretendo dar as considerações sobre o conceito de investimento, bem como diferenciar o que é um investimento de equívocos que, recorrentemente, acontecem em relação a isso.

É notório lembrar, nessa discussão, sobre confusões semânticas bastante repetitivas na economia. Como, por exemplo, da Lei de Say [1] onde o termo “demanda” soa como se fosse “desejo” ao invés de falar em respeito a uma ação. Estou exemplificando o caso por conta de tamanhas confusões e que você mesmo, caro leitor, possa ter se esbarrado vez ou outra em seus estudos [2]. Assim como em qualquer área do conhecimento, a filosofia nos oferece a reflexão e nos convida a perguntar o que algo é. E como uma das áreas de maior relevância é o mercado financeiro, muito se fala sobre os investimentos.

Um dos livros mais indicados, e comum de serem vistos em livrarias, é o livro “Investimentos Inteligentes” de Gustavo Cerbasi. Neste trabalho, o autor oferece estratégias para multiplicar patrimônio com segurança e eficiência, como a própria capa informa. Este livro tem me dado diversas dicas financeiras, como, por exemplo, nunca ter apenas uma única fonte de renda – como que é bastante difícil de se conseguir em tempos de crise financeira do país. Por essa razão, além de eu escrever artigos, estou sempre pensando em novas formas de empreender – mesmo que ainda não seja a hora de abrir o investimento – pois antes de investir é preciso pensar.

Nesse sentido, o autor entra nos critérios de se diferenciar investimentos de outras coisas, como o consumo. É notado que algumas pessoas compram imóveis e, em tempos de valorização dos imóveis, que estas mesmas pessoas o vendam. Com o lucro da diferença entre a compra e a venda aquilo é pensado ser um investimento, pensa-se que há proporção de liquidez. “Liquidez é a capacidade que um ativo tem de se transformar em dinheiro. Quanto mais fácil vendê-lo ou resgatá-lo, mais liquidez ele tem” (CERBASI, 2019). Mas não é o caso que a moradia seja um investimento.

“A moradia não é um investimento, mas um consumo. O dinheiro consumido em uma moradia não se propõe a ser multiplicado; pelo contrário, mesmo que a moradia venha a perder valor com o tempo, isso pouco nos preocupará, se nela estivermos morando com conforto, segurança e felicidade. Além disso, você não poderá dispor do dinheiro que vale sua casa diante de outra oportunidade de negócio – em outras palavras, a casa própria não lhe proporciona liquidez”

(CERBASI, 2019, p. 21)

Fica claro, dessa forma, que há distinção entre o investimento e o consumo. Pois mesmo que a mercadoria ou o serviço o qual você está consumindo se valorize, ele não está sendo usado enquanto objeto de investimento, mas foi comprada com o intuito de ser usada para destruir utilidade. Levando em conta as teorias da utilidade marginal de Carl Menger [3], a utilidade varia entre cada indivíduo, varia em relação ao que ele está buscando. Portanto, se a utilidade buscada for se satisfazer com a moradia, ou ainda que a moradia seja comprada para outra pessoa, se a finalidade for usá-la como um fim, e não como um meio de aumentar seus rendimentos, não é investimento. E é aqui que chegamos no conceito de investimento: investir é multiplicar a sua renda.

Outro tipo de equívoco comum é se pensar que “se minhas propriedades não são investimentos para mim, serão para meus filhos quando eu morrer” (CERBASI, 2019). O autor nos deu esse exemplo de discurso com o intuito de separar o planejamento de enriquecimento da herança. Por não se planejarem direito, os pais muita das vezes compram, no final da vida, muitas propriedades e as entregam para as próximas gerações. Com isso, os filhos não aprendem a construir seu próprio planejamento. Podem passar a trabalhar mais do que desfrutar a riqueza. Porque, afinal, a riqueza é quando acumulamos nosso patrimônio e somos capazes de aproveitá-lo. O mal aproveitamente pode gerar dívidas e isso recair sobre os netos, a terceira geração.

É fato que isso não é presente em todos os casos possíveis, mas a exceção não é a regra. Salvo engano, o leitor pode estar se perguntando agora se não estamos apenas diferenciadas investimentos inteligentes daqueles que não o são. Mas, embora estejamos indo nessa direção, consumo e herança realmente não são investimentos ruins, eles simplesmente não são investimentos.

Mais uma confusão feita é o investimento no mercado financeiro de moedas. Um exemplo disso é a prática de especular sobre criptomoedas, tais quais são moedas digitais. Assim como o dólar, que pode valorizar ou não em relação ao real, o criptografado possui seu preço e este é especulado. Segundo o economista Murray N. Rothbard [4], o dinheiro é uma mercadoria que serve de meio para trocas. Sendo assim, é objeto de valor, gerando especuladores. Tal especulação feita em torno da alta e da baixa dos preços das moedas leva alguns indivíduos a ganharem ou perderem dinheiro nesse mercado. Por conta dessas trocas é pensado o caso como algo a se investir. Segundo Cerbasi, o que ocorre é, na verdade, um hedge, i.e., um meio financeiro para operações que visam proteger de determinados riscos o investidor.

Outro equívoco cometido é o de que o consórcio, i.e, o consumo planejado, é um investimento. No entanto, como já foi mostrado, o consumo não é investimento. Isso sem contar que, o financiamento, que alegam ser mais caro, acaba por não ter tanta diferença de prestação, conforme mostra a tabela abaixo:

Portanto, os investimentos se tratam das formas de multiplicar nosso patrimônio, nossa riqueza. Há muitos outros exemplos dados no livro que você pode conferir se precisar. Eu espero que o leitor tenha sanado suas dúvidas ou suas curiosidades com este artigo informativo. A discussão semântica é um estágio iniciante para apresentarmos nosso conhecimento em qualquer área da ciência, inclusive a ciência econômica. E agora você tem ferramenta necessária para aprender outras coisas sobre investimentos, se for de seu interesse.

NOTAS

[1] A lei da oferta e da demanda é um teorema econômico proposto pelo economista clássico Jean Baptiste Say e se trata da seguinte máxima: toda oferta precede sua demanda. Sendo a oferta a disponibilidade dos bens econômicos e a demanda a procura efetiva por esses mesmos bens (não devemos entender a demanda referida aqui como um mero desejo).

[2] Para entender melhor sobre o debate em torno da semântica da lei da oferta e da demanda, leia o artigo de Ludwig Von Mises “Lord Keynes e a Lei de Say”.

[3] Carl Menger (1840-1921) é um economista austríaco e fundador da Escola Austríaca de economia. Foi um dos três marginalistas, termo originado do conceito fornecido por economistas como Léon Walrás e William Stanley Jevons. Junto com Menger, os três trouxeram à economia a “lei da utilidade marginal decrescente”.

[4] Murray Newton Rothbard (1926-1995) é um filósofo e economista americano da Escola Austríaca de economia e, a partir de Ludwig Von Mises, professor de Rothbard, uma escola também de filosofia.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

CERBASI, Gustavo. Investimentos Inteligentes. Editora Sextante. Edição de Anderson Cavalcanti. Rio de Janeiro, 2019.

ROTHBARD, Murray. O que o governo fez com nosso dinheiro? Tradução de: Leandro Augusto Gomes Roque. 1º Edição. Ed. Ludwig Von Mises, 2013.

VON MISES, L. Lord Keynes e a Lei de Say. Ludwig Von Mises Brasil. Disponível em: https://www.mises.org.br/Article.aspx?id=159.

Teoria da utilidade marginal: quanto é útil e quanto é escassa? Artigo Publicado pela BitcoinTrade. Disponível em: https://blog.bitcointrade.com.br/teoria-da-utilidade-marginal-quanto-e-util-e-quanto-e-escassa/.

OREIRO, José Luis. A Revolução Marginalista. Departamento de Economia – UnB. Disponível em: http://joseluisoreiro.com.br/site/link/d2efd682c3db88201744d36b309886041730fc9a.pdf.

“Carl Menger”. Pesquisa feita em 3 de dezembro de 2020. Acesso em: https://pt.wikipedia.org/wiki/Carl_Menger.

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