O Impacto do Progressismo nos Reality Shows Brasileiros

Taiane Copello
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Carioca, 22 anos, estudante de filosofia na UFRJ, escritora de artigos da Universidade Libertária, ex-coordenadora do projeto LibertaRio e do Grupo de Estudos Walter Block. Palestrou na Frente Libertária; publicou um artigo na Revista Pontes sobre filosofia austríaca; escreve monografia sobre Praxeologia; tem mais de dois mil e duzentos seguidores no twitter onde posta com frequência conteúdo libertário e demais temas que envolvam filosofia e economia.

Dentre os diversos programas da televisão brasileira, o tipo que mais me chama a atenção são os reality shows, que traduzido significa “show da realidade”. Esse tipo de programa pode ser descrito como aquele que contrata um certo número de pessoas que irão conviver umas com as outras dentro de um confinamento. Ou seja, em outras palavras, é um experimento social. Neste artigo pretendo mostrar que essa programação seleciona certos tipos de personagens para que vivam situações específicas seguindo certa tendência política. Além disso, pretendo citar alguns casos empíricos de reality shows aqui no Brasil que provam que sua passagem na televisão é de natureza política progressista e servida ao público de uma categoria em específico que confirma suas expectativas sociais observando aquela esfera.


Em primeiro lugar, gostaria de ressaltar que eu sou bastante fã de reality shows. Observa-se o comportamento humano como ele é e não como numa novela roteirizada onde assistimos situações inventadas. Sem entrar no critério do programa ser ou não uma grande armação fraudulenta com fins lucrativos, é notório que os relacionamentos assistidos lá dentro, em especial dos realities de pay per view [1], são de natureza cotidiana.
Podemos perceber em nosso dia-a-dia alguns casos de brigas dos reality shows, como, por exemplo, do Big Brother Brasil 2020, da emissora Globo, de homens com uma personalidade bastante opressiva, intitulados popularmente como “machos escrotos”, e mulheres que se identificam como feministas, aquelas que lutam por direitos femininos. Esse tipo de embate entre homens e mulheres é comum hoje em pautas progressistas, onde alguns homens são machistas e se acham superiores a mulheres e uma camada de mulheres que, em resposta, os expõem como tal – mesmo que muita das vezes esses não tenham refletido sobre isso, ou que eles não sejam explicitamente machistas, mas tenham feito ou não algo de desagradável, ou não, a elas para serem chamados assim.


Secundariamente, eu gostaria de explicar mais a fundo a situação ocorrida no Big Brother de 2020. Havia um grupo de homens que se juntaram para eliminar mulheres comprometidas, que eram elas mesmas amigas deles, com a estratégia de seduzí-las e queimá-las para o público como alguém que havia traído seus parceiros – mesmo que eles também fossem comprometidos. Segundo o próprio site da Globo o que ocorreu foi a seguinte conversa entre dois dos homens da casa:

“Lucas e Petrix conversam durante a Festa do Líder e o atleta aponta: “Nós estamos dominando, tá?”. O catarinense diz saber disso e Petrix segue: “É isso que importa, que elas nos perdoem no final”. Lucas constata que as sisters estão “se incomodando”. O atual Líder continua: “Que as nossas se virem no final e escutem nosso recado agora”. Lucas diz que tem uma estratégia definida para chegar até à final. “É o único jeito de a gente ganhar isso aqui, queimando elas”, conclui o fisioterapeuta. Petrix diz que tem a vantagem de gostar de dançar e que isso pode ser útil com as sisters. “Queimar pra chegar”, finaliza Lucas.” (GShow, publicada em 31 de janeiro de 2020)

Esse caso fez com que o Big Brother de 2020 fosse uma das edições com maior influência de famosos no programa. Era o contexto perfeito para união feminina. Tudo acontecera conforme a narrativa progressista: os homens foram eliminados e as mulheres constituíram, posteriormente, maioria representativa. Foram consagradas três finalistas. A campeã foi uma mulher negra, desconhecida e que passou pelo confinamento sendo considerada uma “planta” [2] no jogo.


Em terceiro lugar, é importante ressaltar o que significa progressismo. Tal termo se refere a uma tendência política que acredita no progresso histórico de modo que a ruptura do tecido social é fundamental na busca por este avanço. O tecido social, por sua vez, se constitui da sociedade, da cultura, da política e da economia. Grandes progressistas brasileiros, como Paulo Freire [3], contribuíram para esse ponto de vista político. Segundo Paulo Freire, a sociedade se divide entre a classe de opressores e de oprimidos. A tão comentada hoje, no momento político que estamos vivendo, luta de classes se divide dessa forma, variando entre assunto de contexto social a que nos referimos.


Por exemplo, houve uma situação de transforbia no reality show da plataforma de streaming Netflix intitulada como The Circle Brasil. Nesse, os participantes ficam confinados em um apartamento e podem se comunicar apenas em redes sociais, avaliando uns aos outros em um ranking e eliminando conforme o desejo dos jogadores mais bem avalidos. O jogador Rob [4], homem hétero, e o mais experiente entre os participantes do reality, cometeu o equívoco de chamar outra jogadora, Luma, de “porr* de trans”. Não preciso falar nada pra vocês saberem o desfecho desta história. Ele foi eliminado por seus colegas de confinamento e é visto com maus olhos até hoje. A luta de classes por ali observada seria a de um homem hétero cis e uma mulher que sofreu preconceito, ainda que ela não fosse de fato transsexual, mas uma mulher cis que foi o fake criado pelos irmãos gêmeos Lucas e Marcel.

Além disso, não se pode deixar também de comentar que os realities contituem a maioria da sua audiência formada por mulheres. Segundo o jornalismo da Jovem Pan, a empresa Ipsos, de pesquisa e análise de mercado diz que:

“Segundo a pesquisa, 62{7529245626f123a0a11bf41889cb8ba690cb90c74fae02a36ee52efe2dc2d99a} do público deste tipo de programa é formado por mulheres, enquanto 38{7529245626f123a0a11bf41889cb8ba690cb90c74fae02a36ee52efe2dc2d99a} são homens. O estudo aponta que o público jovem, de 18 a 34 anos, representam 43{7529245626f123a0a11bf41889cb8ba690cb90c74fae02a36ee52efe2dc2d99a} dos fãs. O perfil traçado pela Ipsos ainda apresenta que a cidade de Brasília é a que fica mais ligada no chamado “show da vida”, com 33{7529245626f123a0a11bf41889cb8ba690cb90c74fae02a36ee52efe2dc2d99a}. A capital do Brasil é seguida por Salvador (25{7529245626f123a0a11bf41889cb8ba690cb90c74fae02a36ee52efe2dc2d99a}), São Paulo e Rio de Janeiro (24{7529245626f123a0a11bf41889cb8ba690cb90c74fae02a36ee52efe2dc2d99a}). Outro dado curioso mostrado por quem assiste os realities é que 54{7529245626f123a0a11bf41889cb8ba690cb90c74fae02a36ee52efe2dc2d99a} das pessoas gostam de comer enquanto estão concentradas no programa, outras 39{7529245626f123a0a11bf41889cb8ba690cb90c74fae02a36ee52efe2dc2d99a} conversam com alguém próximo e 28{7529245626f123a0a11bf41889cb8ba690cb90c74fae02a36ee52efe2dc2d99a} fazem alguma atividade doméstica.” (Jornal Jovem Pan, publicado em 15 de janeiro de 2014)

Uma maioria constituída de público feminino, de pessoas atuantes na política e de jovens é no mínimo de se despertar a curiosidade para aquilo que, neste texto, abordei, que é do fato de que o progressismo está cada vez mais em massa neste programa. As últimas vitórias dos realities também não deixam passar essa questão. A vitória no próprio BBB 20, que pertenceu a Thelma Regina, como comentei, enquanto os participantes mais polêmicos e que deram uma atenção menor às questões sociais foram eliminados um a um desde o início, mostram que quem cometeu menos erros na agenda progressista deve ser priorizado.


Dentre tantas polêmicas em realities, um que me chama bastante atenção é A Fazenda, da rede Record de televisão. O reality é bastante conhecido pelas brigas que tem lá dentro, mas mesmo que o programa, um dia, já tendo consagrado um campeão que agrediu sua mulher, hoje ele tem tido edições onde o público prioriza plantas ou vítimas de abusos do que estrategistas. E finalizo afirmando novamente: eu não estou entrando no critério de certo ou errado, estou defendendo que essa seja a explicação dada às mudanças sociais nos reality shows. Cabe ao leitor interpretar se isso tem sido bom ou ruim para a sociedade.

NOTAS

[1] Pay per view significa pagar para ver em inglês.

[2] “Planta” é como são chamados os participantes inativos e sem destaque de um reality show.

[3] Paulo Freire foi um pensador brasileiro formado em direito e escritor das obras “Pedagogia da autonomia” e “Pedagogia do oprimido”. Ele impactou bastante a educação e, embora seja reconhecido mundialmente, é considerado patrono da educação brasileira somente aqui no Brasil.

[4] Inclusive ele deu uma entrevista no youtube afirmando a polêmica de que o The Circle seria armado. “Eu falo quarenta vezes, quarenta possibilidades diferentes, e eles gravam tudo, então eles colocam o que eles querem. […] Eu não escrevo nada. A gente vai falando e o pessoal escreve. Não tá bom, apaga. Depois fica isso aí”.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

FREIRE, Paulo. Pedagogia da autonomia: saberes necessários à prática educativa. Ed. PAZ E TERRA S/A. Santa Efigência, São Paulo – SP, 1996.

Pesquisa: “Progressismo”. Em: Wikipédia, a enciclopédia livre. Lido em: 26 de outubro de 2020. Acesso em: https://pt.wikipedia.org/wiki/Progressismo.

Lucas diz a Petrix que só há uma maneira de ganhar o BBB: ‘Queimando elas’. Matéria de Gshow. Publicado em: 30 de janeiro de 2020. Lido em: 26 de outubro de 2020. Acesso em: https://gshow.globo.com/realities/bbb/bbb20/casa-bbb/noticia/petrix-afirma-usar-a-danca-ao-seu-favor-com-sisters-e-lucas-aponta-queimando-elas.ghtml.

Ex-participante do The Circle Brasil revela segredos de bastidores do reality. Matéria de Exitoína. Publicado em: 3 de junho de 2020. Lido em: 26 de outubro de 2020. Acesso em: https://exitoina.uol.com.br/noticias/tv-e-series/ex-participante-do-circle-brasil-revela-segredos-de-bastidores-do-reality.phtml.

Pesquisa diz que mulheres são maioria do público de reality shows. Matéria de Jornal Jovem Pan. Publicado em: 15 de janeiro de 2014. Lido em. 26 de outubro de 2020. Acesso em: https://jovempan.com.br/entretenimento/pesquisa-diz-que-mulheres-sao-maioria-do-publico-de-reality-shows.html.


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