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A Natureza Gnóstica do Marxismo

Tempo de Leitura: 3 minutos

O gnosticismo é uma corrente de sincretismo religioso, na qual se combinam elementos cristãos e pagãos. Para os gnósticos eles são capazes de atingir a verdade e o conhecimento, aparecem nos mitos como uma espécie de raça perfeita, infalível, incorruptível, reforçando a diferença entre eles e os outros, a quem não é dado a ver o conhecimento, um saber secreto que não é revelado de forma natural, mas um saber que “modifica quem o conhece”. Tal raça perfeita ou iluminada supostamente se faria responsável pela salvação imanente do mundo, pela ideia de perfeição e pela mitigação do sentimento de estranhamento como mundo. Deste modo, Eric Voegelin, traça um paralelo entre os gnósticos e os regimes totalitários – os quais Voegelin chama de gnosticismo moderno.

Segundo Voegelin, no gnosticismo moderno, estão guardados tanto elementos do gnosticismo antigo (e, por isso, há uma linha contínua entre ambos), quanto elementos de ruptura entre eles. Enquanto no primeiro deles há um intenso movimento de vontade de fuga do mundo em função da sensação de estranhamento com o mundo, no segundo, tal estranhamento permanece, mas os gnósticos buscam saná-lo por meio de ações inerentes ao mundo, como revoluções, movimentos políticos de massa.

A partir disso entramos em um ponto chave, que é o da imanentização da escatologia: a tentativa de fazer um paraíso na terra. A imanência da escatologia é objeto presente em todas as linhas gnósticas; e é justamente essa ideia que se faz presente no gnosticismo moderno. A salvação está no mundo, o que gerou uma necessidade sem igual de ação no mundo.

Marx formulou o comunismo científico, que tem como fim uma sociedade plana, sem estado, sem explorações. Um fim, no mínimo utópico; mas deste mundo. E dentre as ideias marxianas, talvez a que tenha mais mudado o mundo seja a da praxi: Práxis é um conceito básico da filosofia marxista, que remete para a transformação material da realidade. Para Marx a teoria deve estar incluída na práxis. De acordo com a visão de Karl Marx, práxis remete para os instrumentos em ação que determinam a transformação das estruturas sociais. Sendo assim, a teoria marxista é intrinsecamente de natureza imanente, de natureza, portanto, gnóstica.Consequentemente, por Marx pregar suas ideias, assim como as religiões com transcendente pregam suas ideias, o marxismo não é mais/somente um movimento estritamente político, tampouco cultural, mas é um movimento seitário. Seus seguidores não se importam mais com essa realidade, mas apenas com a realidade deles. O marxismo é profano e viciante; mas como todo vício, corrói lentamente a conexão do viciado com a realidade. E acerca disso Voegelin diz:

parte da religiosidade intramundana o homem aceita este lugar, toma-se a si mesmo como ferramenta, como uma engrenagem hegeliana de um grande todo.

VOEGELIN apud OPTIZ, 2009, p. 16

E há ainda este trecho de Merchior que diz:

O messianismo religioso vive na expectativa da vinda de Deus, e, portanto, é inseparável da preservação do senso da falibilidade humana; já o messianismo profano de Marx o impele a considerar o paraíso como algo perfeitamente realizável pelo homem, “hic et nunc”. […] Face ao otimismo das teorias iluministas do progresso, a doutrina de Marx é um “otimismo catastrófico” (R. Aron); face à escatologia transcendentalista, ela é um messianismo secularizado. Sinteticamente, o marxismo, definido por esse traço central que é a sua concepção do fim da História, é um progressismo catastrófico-messiânico.

MERQUIOR, 1969, p.242

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

MERQUIOR, José Guilherme. Arte e Sociedade em Marcuse, Adorno e Benjamin. Rio de Janeiro: Tempo Brasileiro, 1969.

VOEGELIN, Eric. A nova ciência da política. 2. ed. Trad.: José Viegas Filho. Brasília: Editora UNB, 1982.

______, Eric. El asesinato de Dios y otros escritos políticos. Buenos Aires: Hydra, 2009.

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