O Conhecimento Tácito nos Mercados

Leonardo Vidotto
leonardovidotto@sememail.com

Estudante autodidata, investidor.

Função empresarial e o conhecimento tácito

Ao agir¹, o ser humano adquire experiência. O ser humano nasce sem saber nada, e adquire a capacidade de agir um pouco mais tarde no curso de sua vida. A cada nova ação o agente adquire em sua mente novo conhecimento prático que surge a partir da experiência da ação. O novo conhecimento prático, adquirido pela experiência é fundido ao conhecimento prático que o agente tem e que foram adquiridos em ações no passado. E com esse novo conhecimento, possibilita ao ser humano refazer seus planos de ação no futuro, e cometer menos erros e mais acertos, o que resulta em uma possibilidade de sucesso maior nas ações que venha a fazer no futuro.

Com o novo conhecimento prático o ser humano usa para maximizar seus lucros. Todo ser humano pretende sair de um estado de satisfação menor e alcançar um estado de satisfação maior. Com uma diferença de custo numa ação menor comparado a condição mais satisfatória alcançado com o fim da ação, o lucro é maior. O agente considera mais satisfatório o fim que quer alcançar do que todos os outros fins que ele poderia alcançar com os meios disponíveis.

Assim toda ação humana há um fator inerente de busca de lucros, este fator é o que é chamado de função empresarial². A função empresarial é ficar alerta, ou perspicaz quanto às oportunidades de lucros, e agir de maneira a atingir esses lucros. É “olhar o futuro com os olhos de historiador”. Ficar perspicaz é a melhor definição para função empresarial, e significa, “qualidade daquele que é capaz de penetrar com sutileza, prontidão e inteligência no âmago das coisas e dos fatos, que é capaz de prever o desenrolar de uma situação”. É empresário todos os agentes, pois todo agente está visando fazer uma ação tentando obter um custo menor que o valor de fim que alcançará na ação, ou seja, está tentando obter por meio de suas ações fins mais lucrativos que conseguirem criativamente alcançar ou descobrir.

A descoberta de novo conhecimento por experiência da ação, acrescenta ao ser humano nova informação. E essa nova informação modifica a visão do agente para com as oportunidades de lucrar. A informação nova, se trata de um conhecimento não científico, mas subjetivo e adquirido pela prática. É informação prática pois é adquirido de forma gradual enquanto o ser humano age, adquirido pela experiência de cada nova ação.

Se trata de uma informação importante para qualquer momento da ação. Um conhecimento que refere-se aos próprios fins, e aos fins de outros que interagem com o agente. É um conhecimento referente aos meios que acredita estar ao seu dispor para atingir os seus fins.

O conhecimento prático é privado e está disperso³. Cada ser humano tem somente alguma quantidade pequena da informação total que percorre pela humanidade. Alguns “bits” ou “átomos”. “Alguns grãos de areia em relação a praia inteira”. Mas que somente ele possui, somente através de sua interpretação e conhecimento pode tê-la de forma consciente. Cada ser humano, age de forma pessoal de acordo com seu conhecimento de mundo. Um conhecimento que está disseminado na mente de cada ser humano. E por isso é um conhecimento único e privativo, e não transferíveis por mídia (por meio de vídeo, áudio, jornal, revista, computador…).

O conhecimento adquirido pela prática da ação também é em grande maioria um conhecimento tácito e não articulável. Possibilitado pelo poder tácito de nossa mente. Informação tácita, é tudo que o agente sabe e consegue fazer, mas não conhece de forma objetiva as partes do que está fazendo. É um conhecimento não crítico, diferente dos conhecimentos científicos em que há a possibilidade de serem criticados.

Se por exemplo um jogador de futebol, chuta a bola no gol, não sabe quais são os conhecimentos científicos, as leis que fazem a bola rolar até o gol, somente sabe e aprende que se chutar a bola com determinada força de uma determinada maneira, poderá fazer a bola rolar em direção ao gol. Não há como criticar o conhecimento de chutar bola, mas há como ser criticado as teorias referentes às leis físicas que envolvem chutar uma bola.

O conhecimento tácito não é articulável. Por meio de processos de compreensão, através de operações táticas de criação da mente, a pessoa adquire pela experiência da ação aos poucos hábitos práticos de conduta4. Até mesmo conhecimentos científicos muito profundos, só são possíveis por causa de uma intuição ou criação que são mais uma forma de manifestação da informação tácita.

Outros textos que apresentam um conhecimento formalizado pode oferecer ao agente pontos de vistas diferentes com um conhecimento maior, que poderá acrescentar ao agente mais possibilidades do exercício da intuição criativa. Mas todo processo mental para articular conhecimento e formalizá-lo, é em si mesmo um conhecimento tácito adquirido pela experiência da ação.

O conhecimento tácito é por natureza muito difícil de ser articulado. Se perguntarmos a uma jovem senhora explicar o motivo de escolher uma saia de x cor em vez de outra cor, ela não conseguiria explicar de forma profunda e formalizada, e somente algo do tipo: “por que ficou bom com x cor” ou “porque gostou dela”.

Na função empresarial, as informações tácitas referem-se a contabilidade financeira e de custos. É somente um conhecimento ou técnica prática, em que o empresário não tem e não necessita de conhecimento científico de contabilidade para tê-lo. E nem consegue explicar sua contribuição para todo o complexo processo de mercado.

Este conhecimento tácito orienta o empresário para melhor fazer sua ação. Para ter mais acertos do que erros. Como os custos são subjetivos, e somente pode ser conhecidas pela prática, no contexto de cada ação pelo agente, a função empresarial não pode ser articulada por regras objetivas e científicas. Assim, a capacidade da função empresarial de cada ser humano posta em prática é algo possibilitado por um conhecimento tácito, adquirido pela experiência da ação.

Função empresarial e troca

São poucas as ações, em que o ser humano possa agir individualmente, sem precisar interagir com outros seres humanos para ter a informação necessária para uma ação. E ser ou não executada depende exclusivamente de um cálculo econômico que o agente venha a fazer, onde são avaliados os custos, e comparado ao valor do fim que o agente acredita alcançar com a ação. A grande maioria das ações são mais complexas, e envolvem a descoordenação entre seres humanos.

Uma situação de descoordenação envolve, há busca por parte do agente de um fim totalmente diferente do fim que outro agente está buscando. São planos de ações excludentes entre dois ou mais agentes. Os meios e conhecimento necessário para cada plano de ação são diferentes.

Um agente possui meios ao seu redor, mas que poderia ser útil para outro agente que tem fins completamente diferentes do seu, mas que não tem tais meios ao seu dispor. Uma situação de descoordenação pode ser captada por meio de informações tácitas, que os agentes venham a adquirir, pela experiência da função empresarial.

Toda ação por essência é uma troca de um estado de satisfação menor, por um estado de satisfação maior. Podemos chamar a troca inerente a toda ação, de troca austística. Quando o ser humano faz uma ação voluntária em conjunto com outros agentes humanos, podemos chamar esta ação de troca interpessoal5. Para qualquer ação de troca interpessoal acontecer a princípio tem de haver uma situação de descoordenação entre os agentes. Em que os dois agentes estão com planos de ação excludentes, mas que por meio da função empresarial obtém a informação tácita de uma oportunidade de cumprir uma etapa do seu plano de ação se executarem uma ação de troca interpessoal, e adquirir os meios necessários para atingir o fim do plano de ação.

Assim, a troca interpessoal somente é uma etapa intermediária, de planos de ação maiores. Quando se usa moeda, a moeda adquirida na ação de troca interpessoal pelo vendedor é somente um meio para adquirir através de outra troca interpessoal outro meio que será apenas uma etapa intermediária para alcançar o fim pretendido pelo agente. A troca interpessoal só é possível por causa da função empresarial dos agentes que descobrem por informações tácitas e tentam agarrar esta oportunidade de lucro.

O agente A transfere para outro agente B, meios que considera menos útil. O agente B faz o mesmo, entrega um meio para o agente A, que considera menos útil. Para o agente A, o meio que está recebendo de B é mais útil para seu plano de ação do que o meio que está entregando para B. E o mesmo acontece com o agente B, o meio que recebe do agente A é mais útil para seu plano de ação do que o meio que entrega para o agente A.

Para qualquer ação de troca interpessoal ser realizada, os agentes têm que considerar o custo de entregar o meio para o outro agente, menor que o valor de fim que será alcançado com o meio que está recebendo do outro agente. Ou seja os agentes têm de acreditar que vão obter um lucro para realizar a ação de troca interpessoal. Caso o agente, considerar antes de executar a troca interpessoal, que a ação de troca interpessoal não trará lucro, a troca interpessoal não se realizará, e o agente preferirá fazer outra ação do que a ação de troca interpessoal.

A função empresarial por meio da troca interpessoal, resulta na coordenação dos agentes, que antes estavam numa situação de descoordenação sem os meios necessários para executar o plano de ação individual, e agora, depois da troca interpessoal estão com os meios que precisam para executar seu plano de ação, e atingir o fim mais satisfatório que almejam. Como um dos pressupostos para ser realizado a troca interpessoal é os dois agentes valorizarem mais esta ação do que outra que poderiam fazer, toda troca interpessoal pressupõe que os dois agentes escolhem fazer esta ação por livre espontânea vontade. Por consentimento das duas partes.

Toda informação tácita é adquirida conforme o agente atua em ações de troca interpessoal. Na troca interpessoal há presença de dois agentes atuando, e os dois estão nesta ação criando e transmitindo informação tácita, um para outro, como também para outros agentes fora desta ação de troca interpessoal. A transmissão para além da troca interpessoal dos agentes acontece através de trocas interpessoais com outros agentes. E também pode ser transmitido por meio do preço de maneira mais barato, caso foi utilizado na troca interpessoal a moeda.

As informações tácitas transmitidas pelo preço conseguem se espalhar mais do que informações tácitas que não foram geradas por preços. Pois os preços transmitem muita informação a um custo mais baixo. É transmitido pelo preço a informação de que x meio tem de ser economizado e guardado, já que há pessoas que querem utilizá-lo para seus planos de ação. Além disso transmite a informação de que se alguém tenha algum plano de ação que necessite de x meio, pode encontrar pessoas dispostas a fazer uma ação interpessoal no mercado, e adquirir o x meio que precisa para realizar seus planos de ação. Todas essas informações transmitidas ao mercado se tratam de informações sobre preferências subjetivas de agentes que atuaram no passado.

A função empresarial coordena as ações de milhares de agentes na sociedade, mas nunca poderá atingir a coordenação total, pois os agentes nunca atingem a condição de plena satisfação, a cada fim alcançado pelo agente, pensa em novos planos de ação, e surgem daí novas situações de descoordenação, que podem ser captadas por outro empresário, e então empreender uma ação de troca interpessoal, e por consequência atingir um lucro nesta ação, e coordenar os agentes. Assim cada vez mais a sociedade é mais complexa, gerando milhares de informações tácitas, novas situações de coordenação e descoordenação.

Para o melhor entendimento dos argumentos apresentados até aqui, explicarei por meio de um exemplo:

Imagine 2 pessoas A e B; A quer chegar ao fim X; para A atingir o fim X ele necessita de um meio R; o indivíduo B tem o meio R em abundância; A e B não se conhecem; A não sabe que existem pessoas que tem o meio R em abundância; B não sabe que existe pessoas procurando pelo meio R, que ele tem em abundância. Surgiu nisto uma descoordenação social; então aparece um terceiro indivíduo C; C percebe por informações tácitas, esta descoordenação social, percebe que A necessita do meio R e que o indivíduo B tem o meio R em abundância; através desta percepção de C, criou 2 informações novas (1- A precisa do meio R; 2- B tem o meio R em abundância); C com essas duas informações (e com várias outras informações além dessas, como por exemplo a informação de como transportar e manusear o meio R, informações de como se relacionar com outros indivíduos, de linguagem…), visando o lucro faz uma ação empresarial: C faz uma troca interpessoal com B, C troca dinheiro por uma certa quantidade do meio R, e depois C troca o meio R que acabou de adquirir, com A, por um preço maior do que comprou de B, em troca A dá dinheiro; 

Criou-se mais duas informações com estas ações de troca interpessoal, 1) a informação de que o indivíduo C comprou do indivíduo B o meio R por um preço, e 2) que o individuo C vendeu para A o meio R por um determinado preço; B agora que tem um comprador de seu meio R não vai mais desperdiçar este, economizar e vai preservar para vender há C, pois criou-se uma utilidade em cima do recurso na visão subjetiva de B, ou seja uma oportunidade de lucro sobre o meio R, fazendo com que preserve o recurso, ele agora preservar para ter lucros com ele também em longo prazo, ficará satisfeito por ter seu meio que antes não dava valor, ter um valor para outras pessoas e trocá-lo por outros meios para atingir outros fins que considera mais satisfatório;

A agora conseguirá atingir o seu fim X com este meio R, que antes não tinha, e não fazia ideia que outras pessoas o tinham; C consegue um lucro nesta ação empresarial, e com este lucro poderá trocar com outras pessoas através de outras ações empresariais e atingir os seus outros fins; todos os agentes ficaram em uma situação melhor do que estavam antes destas ações empresariais serem executadas.

Também é necessário ressaltar que não é preciso ter grande quantidade de recursos ou de dinheiro para exercer a função empresarial de troca interpessoal, o indivíduo C caso não tivesse as unidades monetárias suficientes para comprar o meio R do agente B, poderia pegar emprestado de outro agente.

O cálculo econômico6 só é possível através da função empresarial por meio do dinheiro7. A função empresarial na ação de troca interpessoal possibilita os agentes adquirirem a informação tácita necessária para realizarem o cálculo econômico. Em que é calculado o valor alternativo de cada ação, do que os agentes acreditam que sejam de maior valor para si mesmos.

O cálculo econômico efetuado em toda ação é simplesmente, a escolha dos meios que o agente considera como mais úteis para atingir o fim do seu plano de ação. O agente prefere A, a B, a C. Seleciona dentre seus meios no momento, os que considera mais útil para alcançar o fim que considera mais satisfatório. Sendo que não é possível fazer o cálculo econômico de forma objetiva, pois as informações necessárias para isso são subjetivas e tácitas, e estão dispersas na mente de cada ser humano da sociedade.

E somente a partir da função empresarial posta em prática é possível adquirir estas informações, e então ser efetuado o cálculo econômico racional para melhor alocar os meios de maneira a melhor alcançar o fim do plano de ação do agente. Além disso os meios e fins não estão dados, mas são descobertos pelo agente conforme exerce a função empresarial de maneira criativa.  

O ser humano aprende por meio da experiência, e cria por meio de informações tácitas e da sua imaginação, os novos fins e meios, de forma gradual. A função empresarial é criativa, e mesmo que pareça em algumas circunstâncias que está sendo repetida de forma automatizada, ainda assim esta ação só foi possível por que o agente descobriu por meio de informações tácitas que esta ação poderá atingir fins mais satisfatórios do que outras ações que poderia fazer.

Notas:

[1] Para saber mais: https://www.universidadelibertaria.com.br/2019/08/22/a-acao-humana-e-seu-axioma/

[2] SOTO, Jesús Huerta de. Socialismo, Cálculo Econômico e Função Empresarial. Capítulo 2. p. 35. Instituto Mises Brasil, 2013. Disponível em <https://bibliotecalibertaria.com/article/socialismo-calculo-economico-e-funcao-empresarial>.
KIRZNER, Israel M. Competição e Atividade Empresarial. Tradução de Ana Maria Sarda. São Paulo: Instituto Ludwig von Mises, 2012. Disponível em <https://bibliotecalibertaria.com/article/competicao-e-atividade-empresarial>. 

[3] HAYEK, Friedrich. O Uso do Conhecimento na Sociedade. Insitituto Mises Brasil, 2013. Disponível em <https://bibliotecalibertaria.com/article/o-uso-do-conhecimento-na-sociedade>.

[4] POLANYI, Michael. O Estudo do Homem. Eduardo Meira, 2010. Disponível em <http://www3.dsi.uminho.pt/ebeira/wps/WP90estudodohomem.pdf>

[5] MISES, Ludwig von. Ação Humana: Um Tratado de Economia. Parte 2. Capítulo 10, o intercâmbio na sociedade. 1, troca autística e interpessoal. Tradução por Donald Stewart Jr. São Paulo: Instituto Ludwig von Mises, 2010. Disponível em <https://bibliotecalibertaria.com/article/acao-humana-um-tratado-de-economia>.

[6] MISES, Ludwig von. Ação Humana: Um Tratado de Economia. Parte 3, cálculo econômico. Tradução por Donald Stewart Jr. São Paulo: Instituto Ludwig von Mises, 2010. Disponível em <https://bibliotecalibertaria.com/article/acao-humana-um-tratado-de-economia>.

[7] SOTO, Jesús Huerta de. Socialismo, Cálculo Econômico e Função Empresarial. Capítulo 2. 2.2 características da função empresarial; direito, dinheiro e cálculo econômico. Instituto Mises Brasil, 2013. Disponível em <https://bibliotecalibertaria.com/article/socialismo-calculo-economico-e-funcao-empresarial>.


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