A Educação Libertária e como ela se diferencia das demais

Taiane Copello
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Carioca, 22 anos, estudante de filosofia na UFRJ, escritora de artigos da Universidade Libertária, ex-coordenadora do projeto LibertaRio e do Grupo de Estudos Walter Block. Palestrou na Frente Libertária; publicou um artigo na Revista Pontes sobre filosofia austríaca; escreve monografia sobre Praxeologia; tem mais de dois mil e duzentos seguidores no twitter onde posta com frequência conteúdo libertário e demais temas que envolvam filosofia e economia.

Um dos assuntos que mais divide opiniões hoje entre pensadores e estudantes de filosofia, pedagogia ou diversas outras áreas do conhecimento envolvendo a educação, é sobre seu projeto político. Nesse sentido, os espectros políticos da esquerda e da direita, como se intitulam, respectivamente, os grupos que defendem o socialismo e a redistribuição de riquezas e os grupos que defendem o capitalismo e o livre-mercado, disputam suas preferências em relação ao modelo educacional. Este artigo será focado em discutir as fundamentações da educação e apresentar o projeto de educação dos libertários, aqueles que defendem a não intervenção do Estado na vida dos indivíduos. Com isso, também exporei aqui como seria esse modelo e como este se diferencia dos outros.

Primordialmente, eu gostaria de comentar como é o modelo de educação da esquerda, em especial da esquerda brasileira. Um dos mais renomados nomes presentes no modelo educacional hoje é Paulo Freire [1]. Tal foi um pedagogista [2] brasileiro que foi levantado como patrono da educação brasileira no governo de Dilma Roussef. Freire é autor de duas obras bastantes renomadas e comentadas no mundo todo: Pedagogia da Autonomia e Pedagogia do Oprimido. Vale também ressaltar que argumentum ad populum [3] não tem valor epistêmico e trata-se de uma falácia, conforme Arthur Schopenhauer [4] mostrou em seu livro 38 estratégias para vencer qualquer debate. Isto porque não é o caso que Paulo Freire por ser tão popular esteja – ou sempre esteja – certo por ser reconhecido. Na verdade, nenhum argumento é válido por isso.

Sendo assim, irei expor algumas das principais opiniões do pensador para o projeto político da educação. Freire foi adepto da metodologia coletivista, uma compreensão do mundo a partir da luta de classes entre oprimidos e opressores. Influenciado por filósofos como Karl Marx [5] e Antonio Gramsci [6], ele defendeu que o fim da luta de classes era fundamental para se encaminhar ao fim da história, sendo esta um fenômeno de conflitos. Nessa direção, ao escrever suas duas célebres obras, sua solução é proposta por meio da educação, na qual defende que seja possível transformar o olhar do aluno dando a ele criticidade. Criticava, principalmente, a ideia de professores como transmissores do saber, pois, nas palavras do mesmo:

“Pensar, por exemplo, que o pensar certo a ser ensinado concomitantemente com o ensino dos conteúdos não é um pensar formalmente anterior ao e desgarrado do fazer certo. Neste sentido é que ensinar a pensar certo não é uma experiência em que ele – o pensar certo – é tomado em si mesmo e dele se fala ou uma prática que puramente se descreve, mas algo que se faz e que se vive enquanto dele se fala com a força do testemunho. Pensar certo implica a existência de sujeitos que pensam mediados por objeto ou objetos sobre que incide o próprio pensar dos sujeitos. Pensar certo não é que – fazer de quem se isola, de quem se “aconchega” a si mesmo, na solidão, mas um ato comunicante.” (FREIRE, p. 20, 1996).

O erro de Paulo Freire, entretanto, não está nesta última afirmação, mas em seu fundamento, que é o coletivismo. Dado que os coletivos não pensam, não agem e, portanto, não deliberam mudanças e sim os indivíduos, não existem opressores e oprimidos e sim somente os indivíduos, que convivem entre si. Embora possa, de fato, haver situações opressivas, disso não se segue que somos tão somente parte de um coletivo, que é o todo, mas que temos coisas em comum e diferentes com os demais. A identidade é uma coisa pessoal de cada um, e não são estas semelhanças e experiências que dão a liberdade para que os outros que fazem parte de um coletivo decidam pelo indivíduo.

Em segunda instância, gostaria de comentar sobre a perspectiva de direita da educação. O fato que mais me chama a atenção é que a direita não tem um símbolo educacional, um pensador ou político no qual seja uma grande referência. No entanto, o pedagogista mais comum entre o grupo é o suiço Jean Piaget [7], por ter adotado uma perspectiva individualista na sua teoria das fases do desenvolvimento da criança [8]. A maioria dos educadores hoje que são pró-capitalismo usam um pensador americano que, na verdade, não é liberal ou conservador, e sim anarcocapitalista, cujo nome é Murray N. Rothbard [9]. Tal qual eu começarei a falar mais adiante.

Minha crítica a este ramo político é que seu argumento mais popular é acusar a esquerda de doutrinação ideológica, no entanto, usando do planejamento central para impor, também, seu modelo conservador de educação. Isso pode ser verificado nos discursos de ministros da educação do governo atual, onde propõem acabar com o marxismo cultural, o qual não pretendo me estender muito falando sobre porque daria um outro artigo. Mas o que discordo, nesse sentido, não é que não aconteça, de fato, assédio ideológico, pois pode existir. Um caso comum que percebia acontecer na Escola Normal (de formação de professores) onde estudei, era o de professores chamarem seus alunos de idiotas quando não concordavam com suas críticas contra as políticas liberais.

Com tudo que foi dito, gostaria aqui também de ressaltar que a direita também pecou neste sentido ao tentar substituir o modelo atual por um modelo nos quais seriam inseridas pois como disse o ministro da educação Weintraub:

“Um pouco da contribuição que podemos dar é como vencer marxismo cultural nas universidades”, disse aquele que, exatos quatro meses depois, seria anunciado como substituto de Ricardo Vélez Rodríguez no MEC.” (Matéria do site jornalístico GZH Radical).

É nessa direção que grande parte da direita soma nos discursos narrativos da esquerda, que afirma uma perseguição e assédio por parte da concorrente. A direita narra que existe uma ameaça comunista, enquanto a esquerda afirma haver uma opressão burguesa. Mas ambos os lados, embora possuam suas verdades, acabam por desvalorizar os próprios nomes de seus pensadores, uma vez que a discussão da educação se torna uma grande barganha política.

Por outro lado, trago aqui, como disse antes, a perspectiva do filósofo e economista Murray N. Rothbard, de que a educação sob o planejamento central, como é nossa educação na qual possuímos um MEC (Ministério da Educação), é autoritária e coercitiva. Isso porque a educação é planejada centralmente e não permite escolhas aos indivíduos. Rothbard defende que é necessário que essa política de educação estatal termine para que tenhamos uma educação mais livre.

Com essas razões, Rothbard propõe sua educação libertária na qual o projeto político dependa tão somente de cada escola, desse modo, cada uma poderia propor seu próprio modelo de educação. Então não haveria uma disputa política entre freirianos ou piagetianos, muito menos entre partidos apoiados por Olavo de Carvalho ou Marilena Chauí. O que ocorreria é a concorrência entre modelos de educação que disputam a vaga dos alunos, ao invés de todos serem obrigados a seguir o mesmo modelo, ainda que discordem.

Finalizo aqui dizendo que pretendia aqui mostrar os pontos principais para construir a argumentação de Rothbard. Este artigo serviu para compreendermos que a educação se traduz de diversas formas, mas que o projeto libertário da mesma propõe a liberdade para escolher qual desses modos podem ser adotados.

NOTAS

[1] Paulo Freire (1921-1997) foi considerado um pensador e filósofo brasileiro da educação.


[2] Pedagogista é aquele que cria teorias pedagógicas, diferente do pedagogo, aquele que cria práticas pedagógicas.


[3] Argumentum ad populum é uma falácia, i.e., um erro lógico onde se pretende validar um argumento por meio da popularidade do mesmo. Schopenhauer expôs este erro ao pontuar que a validade do argumento se dá pela justificação lógica deste, e não por ser reconhecido por alguém, uma vez que toda uma maioria poderia estar errada acerca do argumento, e então seu alicerce deva ser outra coisa.

[4] Arthur Schopenhauer (1788-1860) foi um filósofo alemão do século XIX.


[5] Karl Marx (1818-1883) foi um filósofo e sociólogo alemão do século XIX.

[6] Antonio Gramsci (1891-1937) foi um filósofo marxista, jornalista, crítico literário, linguista, historiador e político italiano.

[7] Jean Piaget (1896-1980) foi um biólogo, psicólogo e epistemólogo suíço, considerado um dos mais importantes pensadores do século XX.

[8] Para entender melhor sobre o assunto leia o artigo por Portal Educação chamado “Fases do Desenvolvimento intelectual segundo Jean Piaget” presente na bibliografia deste trabalho.

[9] Murray N. Rothbard (1926-1995) foi um economista heterodoxo norte-americano da Escola Austríaca, historiador, e filósofo político que ajudou a definir o conceito moderno de libertarianismo.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

FREIRE, Paulo. Pedagogia da Autonomia: Saberes necessários à prática educativa. Ed. Paz e Terra. 25º Edição, São Paulo, 1996.

FREIRE, Paulo. Pedagogia do Oprimido. Ed. Paz e Terra. 17º Edição. Rio de Janeiro, 1987.

SCHOPENHAUER, Arthur. 38 estratégias para vencer qualquer debate: A arte de ter razão. Tradução: Camila Werner. Ed. Faro Editorial, 1º edição brasileira, 2014.

ROTHBARD, Murray N. Educação: livre e compulsória. Ed. Ludwig Von Mises. 1º Edição, 2013.

ROTHBARD, Murray N. Esquerda e Direita: Perspectivas para a liberdade. Ed. Ludwig Von Mises. 3º Edição, 2010.

ROTHBARD, Murray N. Anatomia do Estado. Tradução: Tiago Chabert. Edição: Livro de bolso; São Paulo, Ed. Ludwig Von Mises Brasil, 2018.

Paulo Freire, o mentor da educação para a consciência. Escrito por Márcio Ferrari. Publicado em 1 de outubro de 2008. Acesso em: https://novaescola.org.br/conteudo/460/mentor-educacao-consciencia#.

Fases do Desenvolvimento intelectual segundo Jean Piaget. Escrito: Portal Educação. Acesso em: https://siteantigo.portaleducacao.com.br/conteudo/artigos/educacao/fases-do-desenvolvimento-intelectual-segundo-jean-piaget/42689.

Novo ministro da Educação, Weintraub defende expurgo do ‘marxismo cultural. Publicado em 8 de abril de 2019. Acesso em: https://gauchazh.clicrbs.com.br/geral/noticia/2019/04/novo-ministro-da-educacao-weintraub-defende-expurgo-do-marxismo-cultural-cju8jskj903d301priu7gef6c.html.

Pesquisa: “Paulo Freire”, em 18 de dezembro de 2020. Acesso em: https://pt.wikipedia.org/wiki/Paulo_Freire

Pesquisa: “Arthur Schopenhauer”, em 18 de dezembro de 2020. Acesso em: https://pt.wikipedia.org/wiki/Arthur_Schopenhauer.

Pesquisa: “Karl Marx”, em 18 de dezembro de 2020. Acesso em: https://pt.wikipedia.org/wiki/Karl_Marx.

Pesquisa: “Antonio Gramsci”, em 18 de dezembro de 2020. Acesso em: https://pt.wikipedia.org/wiki/Antonio_Gramsci.

Pesquisa: “Murray Rothbard”, em 18 de dezembro de 2020. Acesso em: https://en.wikipedia.org/wiki/Murray_Rothbard.


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