O Estoicismo de Seneca

Taiane Copello
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Carioca, 22 anos, estudante de filosofia na UFRJ, escritora de artigos da Universidade Libertária, ex-coordenadora do projeto LibertaRio e do Grupo de Estudos Walter Block. Palestrou na Frente Libertária; publicou um artigo na Revista Pontes sobre filosofia austríaca; escreve monografia sobre Praxeologia; tem mais de dois mil e duzentos seguidores no twitter onde posta com frequência conteúdo libertário e demais temas que envolvam filosofia e economia.

Entre 4 a.C e 1 a.C a 65 anos d.C viveu e morreu o filósofo Seneca. O seu pensamento filosófico se encaixa na escola de pensamento denominada estoicismo. Tal é a filosofia de pensadores como Lucrécio e Cícero, os quais, por hora, não irei tratar neste artigo. O objetivo do meu artigo é explicar a contribuição de Seneca para a filosofia bem como responder uma questão tão intrigante levantado pelo mesmo: é possível manter a calma?

Em primeiro lugar, gostaria de falar sobre a origem do estoicismo. Essa escola filosófica surge quando o pré-socrático Zenão de Eleia em meados do século IV a III a.C. No ínicio, a escola seria chamada de “zenonianos”, todavia, acabaram sendo chamados de estoicos e, por conta disso, a corrente de pensamento se donominou, até hoje, estoicismo. A morte do fundador em atenas em 292 a.C, deixou seu legado para a principal filosofia da era helenística. Tal qual foi o período desde que o imperador Alexandre, o Grande [1] governou até a dominação romana. Período esse compreendido entre IV a.C a I d.C.

O estoicismo se tornou a grande referência, em filosofia, sobre autoajuda, uma vez que são dados conselhos para como viver uma vida melhor. É a filosofia enquanto prática de vida. Os estoicos agrupam, assim, pensamentos que buscam alcançar, por meio das atitudes humanas, a ataraxia [2]. De um modo geral, então, o estoicismo é:

“Escola esta que tinha como preceito fundamental entender a filosofia como uma forma de vida. Ou seja, desde os primórdios, os estoicos pregam que a filosofia é uma prática de vida. Filosofar só faria sentido se os preceitos filosóficos que eles defendiam fossem realmente postos em prática. Um dos seus objetivos é o alcance da ataraxia, como diriam os gregos antigos, ou da “tranqüilidade da alma”, como diria mais tarde Sêneca.”

(Marcus Vinícius Continentino Porto, 2018)

No mundo contemporâneo, o qual vivemos hoje, tudo se mantém bastante acelerado: o trabalho, os estudos e a vida como um todo. Pensamos que é quase impossível desacelerar e ter algum momento de paz. Somos aguçados pela nossa própria ansiedade, insonia e, algumas vezes, até depressão. Muitos colocam as dependências de sua saúde mental na dimensão química, recorrendo aos médicos. Segundo dos dados da OPAS (Organização Pan-Americana da Saúde) e da OMS (Organização Mundial da Saúde):

“Uma em cada seis pessoas tem entre 10 e 19 anos.
As condições de saúde mental são responsáveis por 16{7529245626f123a0a11bf41889cb8ba690cb90c74fae02a36ee52efe2dc2d99a} da carga global de doenças e lesões em pessoas com idade entre 10 e 19 anos.
Metade de todas as condições de saúde mental começam aos 14 anos de idade, mas a maioria dos casos não é detectada nem tratada.
Em todo o mundo, a depressão é uma das principais causas de doença e incapacidade entre adolescentes.
O suicídio é a terceira principal causa de morte entre adolescentes de 15 a 19 anos.”

(OPAS/OMS, 2020).

Sendo assim, fica a pergunta: é possível manter a calma no mundo contemporâneo? Em sua renomada obra “Tranquilidade da Alma”, em algumas versões “Sobre a ira”, da onde o ensaio “Como manter a calma: um guia clássico para lidar com a raiva”, Seneca nos dá alguns conselhos para lidar com nossas emoções mais detrutivas.

Dificilmente, pensamos na filosofia como uma prática médica. No entanto, podemos usar nosso reflexão para entendermos de onde vieram os gatilhos que nos provocam ira para encotrarmos nossas respostas para como manter a calma. Um dos sintomas que podemos perceber em relação à ira, é que nos sentimos injustiçados em relação a alguma coisa. Com isso, vem também a vontade de punição contra os adversários que provocaram em nós tal sentimento.

É necessário constatar também que Seneca compreende a raiva como um tipo de loucura. Uma vez que ela causa vontades no ser humano que são irracionais, no sentido de sermos levados a tomar atitudes negativas para a vida humana. O autor dá alguns exemplos de acontecimentos com pessoas bastante rabugentas como, por exemplo, o imperador Calígula. Seneca narra um acontecimento onde o imperador matou um filho com uma flechada na frente do pai. Logo Calígula pediu sua opinião e o homem respondeu: o tiro foi certeiro. E como foi apresentada indiferença em relação ao fato, Calígula parou de o importuná-lo.

Um dos mais valiosos conselhos de Seneca foi a ideia de que devemos ignorar as ofensas que sofremos. Pois quem ignora geralmente não continua recebendo. Devemos, dessa forma, evitar sermos curiosos. Sempre quando ficamos com certa curiosidade em relação ao que falam de nós, acabamos cavando conversas maldosas que nos geram inquietações. As interpretações também podem parecer que essas conversas sejam ofensivas, portanto, devemos ignorar, perdoar ou ridicularizar o conteúdo e, até mesmo, tais pessoas que o profere.

Seneca também explica que devemos procurar evitar receber as ofensas. Você provavelmente já viveu alguma situação na qual você se lembra de que, se não houvesse se aproximado de alguém mal-humorado ou negativo, ou se não tivesse entrado em certos assuntos, o mal-estar não teria se iniciado. Nessa direção, outra lição valiosa é evitar problemas observando o comportamento das pessoas. Isso vai fazer você viver uma vida tranquila e com menos estresses.

Outro ensimanento do filósofo é a de que o remédio para curar a ira é o adiamento. Ou seja, se você parar um pouco, pensar, e então esperar, pode ser que a raiva passe. Segundo o pensador:

“Se você julgar uma causa mesmo sobre uma pequena quantia, o caso não procederia sem uma testemunha, e uma testemunha que não prestasse juramento não seria considerada, e você daria direito de defesa a ambas as partes, você daria tempo, não as ouviria de uma vez só. Mais brilha a verdade quanto mais ela circula em nossas mãos. Então por que você condena um amigo imediatamente? Antes mesmo de ouvi-lo, antes mesmo de interrogá-lo, antes mesmo que ele tome conhecimento de seu acusador ou de seu crime, você se enfurecere conta ele? Você ao menos ouviu o que ambos os lados têm a dizer?”

(SENECA, 2020).

Ele continua o texto aconselhando investigarmos a natureza as ofensas e as intenções daqueles que ofendem. Por exemplo, se seu filho lhe dizer ou fizer alguma bobagem, considere sua idade, se for o caso dele ser imaturo. Outro caso pode ser numa determinada situação onde alguém lhe fez um mal por estar recebendo ordens. Dado esse fato, você pode refletir um pouco se a culpa foi dele ou se ele não estava apenas querendo não sofrer punições. Além disso, se for um animal bruto você pode parar pra pensar se você não se parece com ele. Mas estes foram apenas alguns dos diversos casos hipotéticos citados por Seneca em seu livro.

Portanto, torno evidente aqui o legado do pensador estoico para a filosofia. E termino aqui citando, com as palavras do mesmo, como a vida é:

“Assim como quem caminha apressado pelas regiões apinhadas da cidademacaba sempre esbarrando em muitas pessoas, escorregando ali, parando lá, ficando sujo de lama acolá, também nas tarefas de nossa vida, quando são muitas e nos levam a vários lugares, aparecem diversos obstáculos e razão para queixas: uma pessoa não atingiu nossas expectativas; outra se atrasou; outra não cumpriu o combinado; outra se atrasou, nossos planos não ocorrem conforme o esperado. A sorte não é tão dedicada a uma pessoa de forma que todos os caminhos sejam fáceis quando tentamos muitas ações.”

(SENECA, 2020).

NOTAS

[1] Também conhecido como Alexandre Magno, o macedônio.
[2] Ataraxia é o termo grego que significa “tranquilidade da alma”.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

SENECA. Como Manter A Calma: Um Guia Clássico Para Lidar Com A Raiva. Editora Nova Fronteira, 1º Ed. Tradução: Leni Ribeiro, 2020.

Saúde mental dos adolescentes. Pesquisa da OPAS (Organização Pan-Americana da Saúde) e da OMS (Organização Mundial da Saúde). Acesso em: <https://www.paho.org/pt/topicos/saude-mental-dos-adolescentes>.

O ESTOICISMO DE SÊNECA E SUAS CONSIDERAÇÕES SOBRE DEUS E MORTE. Dissertação de mestrado por Marcus Vinicius Continentino Porto. Publicado em 2018. Acesso em: <http://www.pgfi.uff.br/wp-content/uploads/2016/03/2018_Marcus_Vinicius_Porto.pdf>.


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