O Que é a Inteligência na Criança?

Taiane Copello
taiane.copello@gmail.com

Carioca, 22 anos, estudante de filosofia na UFRJ, escritora de artigos da Universidade Libertária, ex-coordenadora do projeto LibertaRio e do Grupo de Estudos Walter Block. Palestrou na Frente Libertária; publicou um artigo na Revista Pontes sobre filosofia austríaca; escreve monografia sobre Praxeologia; tem mais de dois mil e duzentos seguidores no twitter onde posta com frequência conteúdo libertário e demais temas que envolvam filosofia e economia.

  1. Introdução

No presente trabalho, pretendo explicar as contribuições de Jean Piaget para a psicologia da educação, de modo a levantar as questões centrais que permeiam a fase sensório-motora na vida da criança, especialmente quanto às invariantes funcionais da inteligência em sua organização biológica. Aqui me basearei, principalmente, no capítulo um do livro “O nascimento da inteligência na criança” do próprio Jean Piaget. Desde 1920, este livro tem sido considerado, pela academia, uma das mais importantes contribuições da psicologia, e sua contribuição ao estudo do desenvolvimento intelectual da criança tem sido extremamente valorizada.


Segundo Piaget, “o problema das relações entre a razão e a organização biológica surge, necessariamente, no início de um estudo sobre o nascimento da inteligência” (pp. 13, 1975). Com essa afirmação dele que se inicia sua pesquisa a respeito da primeira fase de desenvolvimento, dentre as quatro.
Sendo assim, Piaget elenca quatro fases de desenvolvimento infantil, sendo elas sensório motora, pré-operacional, operacional concreta e operações formais. Como dito, este texto irá elucidar as questões norteadoras que envolvem a primeira fase.

  1. Quem foi Jean Piaget

Jean Piaget foi um pesquisador suiço que nasceu em Neuchâtel, em 9 de agosto de 1896. Filho de um historiador e de uma mulher descrita como “inteligente e dinâmica”, desde cedo demonstrou interesse pela natureza. Assim, publicou seu primeiro artigo aos onze anos em uma revista de História Natural.
Além disso, Piaget também trabalhou no museu de História Natural em Neuchâtel. Publicou, também, diversos artigos entre seus quinze e dezoito anos sobre moluscos, os quais ele pesquisava por meio da observação. Foi convidado a um trabalho por conta de um artigo seu publicado aos quinze anos.

Ainda na adolescência, sob a influência de seu padrinho, Samuel Cornut, acadêmico suíça, ele começou a ler filosofia, fazendo-o se interessar, especialmente, com epistemologia e religião. É com isso que ele chegou a conclusão de que a filosofia não poderia fornecer toda a fonte de conhecimento humano, defendendo, dessa forma, que era a psicologia que teria essa função.

Começou a observar, após começar a estudar psicologia, por meio de testes clínicos, que as crianças mais novas são qualitativamente diferentes das crianças mais velhas, e não quantitativamente. Isso não é uma questão de maior ou menor número de itens respondidos, mas uma questão da diferença da maneira de pensar.

  1. O problema biológico da inteligência

É com o estudo sobre o nascimento da inteligência que Jean Piaget percebeu o problema das relações entre a razão e a organização biológica. A fase sensorial motora, também nomeada por ele como inteligência prática, fundamenta a inteligência verbal ou refletida. Ela se apoia nos hábitos e nas associações adquiridas para esta combinação. No entanto, estes pressupõem a existência de um sistema de reflexos, conectado à estrutura anatômica e com a morfologia do organismo humano. Por essa razão, se dá continuidade entre os processos biológicos e a adaptação do meio. Assim, certos fatores hereditários condicionam o desenvolvimento intelectual. Por isso, existem os fatores vinculados à estrutura do sistema nervoso e, assim, aos órgãos sensoriais. Um exemplo de percepção estrutural é a nossa intuição do espaço, pois nosso pensamento elabora espaços transitivos e dedutivos.

Nessa direção, essas características delimitam os fatores de um outro grupo de fatores que não são hereditários. A organização e intuição da razão, dessa maneira, é limitada e conduz o domínio do espaço a generalizações para além da intuição. De acordo com Piaget: “Por uma parte, uma questão de estrutura: a ‘hereditariedade especial’ da espécie humana e de suas ‘linhagens’ particulares comporta certos níveis de inteligência superiores aos dos símios” (pp. 14, 1975). Então o organismo não poderia se adaptar às variações ambientais que sem o vínculo entre a função de atividade da razão, e a inteligente não poderia apreender sem certas funções de coerência de relações comuns de organização intelectual – que são fundamentais para o desenvolvimento da inteligência. Assim, a razão elabora sua relação com o real resultando na organização de sucessivas estruturas sendo orientada por invariantes da organização biológica do intelecto.

Para Piaget, o “a priori” faz parte das nossas ideias inatas, ou seja, que nascem com o indivíduo. Mas a diferença das invariantes para a ordem funcional dessas estruturas não é a priori. Elas são apenas dados externos, limitados e limitativos pela experiência externa, e necessariamente vão para além do nosso intelecto.

  1. As invariantes da inteligência e a organização biológica

Jean Piaget começa esboçando que:

“A inteligência é uma adaptação. Para aprendermos as suas relações com a vida, em geral, é preciso, pois definir que as relações existem entre o organismo e o meio ambiente.” (pp. 15, 1975).

Ele comenta também que a vida é uma criação contínua de formas cada vez mais complexas e em que se estabelece um equilíbrio progressivo entre essas formas e o meio. A sua descrição do mecanismo funcional do pensamento se resume ao destaque das invariantes comuns a todas as estruturas que fazem parte da capacidade da vida. O que não diz respeito à adaptação são os objetivos particulares que a inteligência prática visa, enquanto que é o organismo que se adapta com as estruturas suscetíveis que se aplicam ao meio.

Em certo sentido, o início da evolução da mente, onde há adaptação intelectual, ela é mais restrita do que a adaptação biológica. Nesse desenvolvimento, há muitas variáveis, sem a exclusão das invariantes funcionais. Existe, ao longo do processo, também, a distinção entre as variáveis e invariantes. É justamente essa diferença entre estas que dá solução às dificuldades no processo de aprendizagem.

“Assim como as grandes funções do ser vivo são idênticas em todos os organismos, mas correspondem a órgãos muito diferentes de um grupo para outro, também entre criança e o adulto se assiste a uma construção contínua de estruturas variadas, se bem que as grandes funções do pensamento permaneçam constantes” (pp. 16, 1975).

Ele explica também que os funcionamentos invariáveis se apresentam no quadro das funções biológicas mais genéricas, ou seja, da organização e da adaptação. De acordo com Piaget, na verdade, tudo é adaptação, que, por sua vez, é o equilíbrio entre o organismo e o meio. Acrescenta também que há duas distinções de adaptação: a distinção-estado e a adaptação-processo. No primeiro, nada é claro e, na segunda, as coisas se organizam. Essa organização vem à tona quando o organismo se transforma em função do meio. Sendo assim, a conservação do organismo se dá por meio da variação entre os dois tipos, na qual, esta função do meio combina aquele meio ao organismo. Mas o que é o organismo?

O organismo é, simplesmente, um ciclo de processos físico-químicos e cibernéticos que está constantemente ligado ao meio e se engendrando ao mesmo. Este é o conceito de organismo em Piaget. E nesse ciclo há transformações físico-químicas, sendo x e y elementos de totalidade organizada e x, y, z, elementos que correspondam ao meio ambiente, seja este interno ou externo. Assim, conforme a adaptação deste meio interno e externo. E nesse ciclo de organização, de acordo com as devidas condições, as substâncias físicas ou químicas mudam de acordo com as condições do meio.

  1. Conclusão

Portanto, fica claro, que podemos denominar acomodação esse resultado das pressões exercidas pelo meio. É nada além do equilíbrio entre assimilação e acomodação. A inteligência, dessa maneira, é a assimilação no sentido de incorporar todo e qualquer dado empírico. A estruturação que incorpora a realidade exterior às formas que são devidas à atividade do sujeito constitui um elemento de assimilação. E isso ocorre tanto no que diz respeito ao pensamento, quanto no que diz respeito à inteligência sensório-motora. Um, por meio dos nossos juízos, nos faz ingressar o novo no conhecido e, por conta disso, o indivíduo reduz o universo às suas próprias noções.

Mas a inteligência sensório-motora, por sua vez, estrutura as coisas percebidas como sendo todas da mesma maneira. Com isso, independente das formas estruturais da vida orgânica, a inteligência prática e a inteligência reflexiva se adaptam assimilando os objetos ao sujeito. Esse período compreende a idade entre zero e dois anos.

REFERÊNCIAS

PIAGET, Jean. O Nascimento Da Inteligência Na Criança. O Problema Biológico Na Criança. Tradução de Álvaro Cabral. 2º Edição. Ed. Zahar Editores. Rio de Janeiro, 1975.

BIAGGIO M. BRASIL, Angela. Psicologia do Desenvolvimento. 14º Ed. Editora Vozes. Petrópolis, RJ, 1975.

Pesquisa “Sensório-motor”. Wikipédia. Acesso em 1 de março de 2021. Disponível em: https://siteantigo.portaleducacao.com.br/conteudo/artigos/cotidiano/etapas-do-desenvolvimento-da-crianca—periodo-sensorio-motor-(ate-2-anos)/63413.

Pesquisa “Sensório-motor”. Wikipédia. Acesso em 1 de março de 2021. Disponível em: https://pt.wikipedia.org/wiki/Sensorio-motor.


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