O Estado Presente da Economia Austríaca

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Artigo retirado e traduzido do livro “Economic Controversies”, consta no livro com o título “The Present State of Austrian Economics”.

Texto traduzido por Alex Pereira de Souza.

O Estado Presente da Economia Austríaca1

Nas últimas duas décadas, houve um aparente crescimento da sofisticação metodológica no mundo da economia. Até o início dos anos 1970, um formalismo walrasiano cego tinha total domínio na microeconomia, enquanto um keynesianismo triunfante dominava a macro, todos mantidos juntos por uma epistemologia empirista impensada e arrogante do positivismo lógico. As sínteses micro e macro do paradigma neoclássico foram incorporadas e simbolizadas na obra de Paul Samuelson, enquanto a metodologia positivista foi consagrada no famoso artigo de Milton Friedman de 1953 e na obra posterior de Mark Blaug.2

Desde aquele ponto, entretanto, o paradigma positivista dominante foi efetivamente derrubado, para ser substituído por uma estimulante e quase caótica “situação de crise” kuhniana na metodologia da economia. Nas últimas duas décadas, uma dúzia, senão cem, escolas de pensamento econômico tiveram permissão para florescer. Infelizmente, porém, os paradigmas ortodoxos na macro e especialmente na microeconomia ainda são dominantes, embora menos agressivamente mantidos do que antes; a situação de crise na metodologia ainda não foi permitida de se espalhar totalmente para as áreas “pão com manteiga”3 onde os economistas, afinal, ganham seu sustento. Se a metodologia estiver em fermentação, no entanto, o resto da fortaleza substancial pode vir em breve.

A deterioração do paradigma neoclássico dominante a partir do início dos anos 1970 tem inúmeras causas. Eu diria que a principal causa foi o colapso abjeto do Sistema Keynesiano após o surgimento da primeira grande recessão inflacionária em 1973-74, uma situação anômala que tem marcado todas as recessões desde então. A recessão inflacionária do início da década de 19704 foi um choque por duas razões: (1) no modelo keynesiano, as recessões supostamente são devido aos gastos insuficientes e a inflação aos gastos excessivos; como então os dois poderiam ocorrer ao mesmo tempo? E o que a política fiscal (ou mesmo monetária) pode fazer a respeito? e (2) intervenção e planejamento estatista da política fiscal e da “economia de crescimento” na década de 1960 supostamente eliminaram os ciclos econômicos para sempre, para nos trazer, no jargão ingênuo do Establishment econômico da época: pleno emprego sem inflação. Os cursos de ciclos econômicos foram eliminados dos currículos de graduação; pois se os ciclos econômicos foram tornados obsoletos, tais cursos seriam apenas estudos antiquários da história econômica. A severa recessão inflacionária de 1973-1974, seguida por uma recessão semelhante e ainda mais severa de 1979-1982, encerrou o mito do desaparecimento dos ciclos econômicos.5 E se o planejamento para o crescimento fosse visto como defeituoso e até contraproducente, talvez o planejamento governamental em geral tivesse sérios problemas; não foi por acaso, então, que a década de 1970 viu o ressurgimento das economias de livre mercado e do pensamento de livre mercado entre os economistas.

Afirmo, também, que o ressurgimento da economia austríaca, começando mais ou menos na mesma época, foi parte integrante dessa desilusão geral tanto com a economia keynesiana quanto com a intervenção governamental, e parte do ressurgimento do pensamento de livre mercado. O Prêmio Nobel de Economia concedido a F.A. Hayek em 1974 foi geralmente creditado por ter lançado a centelha para o ressurgimento austríaco, e há muito a ser dito sobre essa tese, especialmente considerando o temor e veneração supersticiosos com que o Prêmio Nobel é considerado pela profissão de economia. Mas, a menos que realmente acreditemos que os economistas suecos que concedem o Nobel anualmente são guiados exclusivamente pela inspiração divina, devemos reconhecer que esses senhores também refletem as idéias correntes na profissão de economia na Suécia e na Europa como um todo. Após a Segunda Guerra Mundial, a profissão sueca, ainda mais do que seus colegas de outros países, foi notoriamente o lar do keynesianismo e da econometria; e os primeiros Nobéis, de 1969 a 1973, refletem esse viés. Não foi por acaso, então, que o prêmio Nobel de Hayek em 1974, compartilhado ironicamente com o rebelde esquerdista Gunnar Myrdal, foi o primeiro a ser concedido a um economista de livre mercado.6 Também é significativo que o primeiro Nobel de livre mercado foi para Hayek, não por suas vaporizações posteriores em “ordem espontânea”, “conhecimento”, “evolução” e assim por diante, pela qual ele infelizmente é reverenciado pela maioria dos austríacos atuais, mas em vez disso, por sua elaboração da teoria dos ciclos econômicos misesiana, que tinha sido proeminente na Grã-Bretanha na década de 1930, apenas para ser varrida, no final dos anos 1930, por seu grande inimigo, a Revolução Keynesiana. Conceder o primeiro Nobel de livre mercado ao antípoda da macroteoria keynesiana não pode ser considerado uma coincidência: isso simbolizava o fim do domínio inquestionável do paradigma estatista-keynesiano na economia.7

O ressurgimento austríaco que começou em 1974 já durou tempo suficiente e se consolidou com firmeza o suficiente para desfrutar do luxo de seu primeiro historiador publicado, que dá ênfase central à conferência austríaca de uma semana em South Royalton, Vermont, no verão de 1974. Professora Karen Vaughn era uma jovem participante, agora participante-observadora nesta conferência, mas infelizmente seu relato daquela conferência e do ressurgimento em geral é tendencioso e totalmente insatisfatório. Um dos objetivos menores deste artigo, no decorrer de uma crítica a esse ressurgimento e ao estado atual da economia austríaca, é analisar e corrigir o registro de Vaughn.8

Paradigmas e a Teoria Whig da História da Ciência

Um dos aspectos mais bem-vindos do fermento metodológico dos últimos vinte anos foi a derrubada da noção, outrora dominante, “Whig” da história de uma disciplina científica: que ela prossegue, para a frente e para cima de forma linear, testando hipóteses, acumulado conhecimento e descartando a escória, de modo que o conhecimento científico incorporado nos livros-texto e artigos de periódicos mais recentes no ponto t seja sempre e necessariamente maior do que no ponto t-1. Isso significa que, uma vez que a disciplina científica sempre sabe mais, digamos em 1983 do que em 1971 ou 1962, não há sentido em ler qualquer parte da disciplina, exceto os livros-texto e artigos de periódicos mais recentes. Oh, poderia haver um ponto antiquário, em 1992, para ler física ou química de 1956, para descobrir sobre a história do período anterior, ou para examinar como uma ciência cresceu, ou como os cientistas influenciaram uns aos outros, mas não há nada para aprender substancialmente sobre a disciplina da leitura da química ou da física mais antigas.

Mas esse tipo de visão ingenuamente otimista foi tornada obsoleta pela brilhante análise de “paradigma” de Thomas Kuhn, que mostra que esse conto fantasioso está longe da verdade, mesmo nas ciências físicas. Mesmo que sejamos menos relativistas do que Kuhn e acreditemos que os paradigmas posteriores são geralmente superiores a — mais próximos da verdade do que — os anteriores, ainda pode haver uma severa perda de conhecimento ao descartar os paradigmas anteriores. No mínimo, então, pode muito bem haver conhecimento substancial adquirido ao explorar paradigmas anteriores. Se isso é verdade mesmo nas ciências físicas, a fortiori é ainda mais verdadeiro nas disciplinas não experimentais, como filosofia e economia, onde por causa de erro grosseiro, acidente ou viés ideológico ou político, um paradigma posterior pode muito bem ser inferior aos anteriores. Não deve haver nem mesmo uma presunção, muito menos uma garantia, de que quanto mais tarde, melhor, na história do pensamento econômico.

E, no entanto, os observadores da corrente Escola Austríaca, bem como os participantes dela, têm involuntariamente e sem pensar retornado aos hábitos de pensamento Whig ao discutir ou avaliar as contribuições da Escola Austríaca. Eles irrefletidamente assumiram que quanto mais tarde melhor, isto é, simplesmente porque, por exemplo, as obras de Don Lavoie ou Ludwig M. Lachmann vieram mais tarde do que as de Ludwig von Mises, elas precisam ser melhores, ou colocando diferentemente, que essas contribuições posteriores precisam constituir “desenvolvimento” e “crescimento” no campo. E ainda, se mais tarde não é necessariamente melhor, então o novo pode não constituir “crescimento”; mais recente pode, de fato, constituir erro e degeneração de um paradigma originalmente correto. Mas se o mais recente não for necessariamente melhor, segue-se que pode ser ainda pior. E se uma nova contribuição for pior, e houver degeneração, então precisa haver algum critério ou padrão de verdade com o qual comparar essas contribuições temporalmente diferentes. Por outro lado, se tomarmos a visão niilista da moda e afirmarmos que não há verdade, que qualquer coisa, qualquer metodologia, vai, segue-se que a contribuição A nunca pode ser melhor ou pior do que a contribuição B, e então não pode haver julgamentos de mérito, independentemente da data da contribuição. De fato, todo o empreendimento acadêmico pode muito bem ser abandonado.

Para mostrar como essa inconsistência funciona: a Professora Vaughn está horrorizada porque um novo trabalho, em 1985, supostamente na economia austríaca, de O’Driscoll e Rizzo foi severamente criticado por outros austríacos. Ela escreve: “No momento de sua conclusão, o livro [de O’Driscoll e Rizzo] inovou no desenvolvimento de um paradigma austríaco coerente” e acrescenta: “e, consequentemente, foi criticado por muitos austríacos que ‘sabiam’ que não era fiel aos princípios austríacos”. Mas isso significa que a concepção de Vaughn do diálogo acadêmico é que todo livro novo, por ser novo, precisa estar acima da crítica e que qualquer crítica é de alguma forma ilegítima? É assim que ela concebe a busca pela verdade? E se o livro for realmente (a) falacioso até o âmago e (b) violar totalmente os princípios austríacos? Os críticos devem ficar em silêncio, porque os “princípios austríacos” devem desfrutar de uma definição tão elástica que qualquer um deveria ser autorizado a se chamar de “austríaco” sem estar sujeito a críticas ou desafios?9

É a contenção deste artigo, de fato, que vários paradigmas diferentes e conflitantes puderam se desenvolver e apodrecer, tudo em nome da “economia austríaca”; que uma grande quantidade de confusão e de incoerência foi resultada; e que essa coexistência de doutrina contraditória e proliferação de desordem deve ser encerrada. Em suma, os entulhos da economia austríaca precisam ser finalmente removidos, a vegetação rasteira túrgida cortada, a doutrina austríaca esclarecida novamente e a verdade consagrada, e a proliferação de erros e falácias varrida.

A Nova Metodologia e o Desabrochar de Falácias “Austríacas”

Parte do que aconteceu à economia austríaca desde 1974 foi inevitável. Junto com o crescimento e o florescimento, em número de economistas, estudantes e contribuições, é fadado haver uma proliferação de erros e de pistas falsas e atalhos. Isso, em certo sentido, é um desenvolvimento saudável na história de uma ciência, mas apenas se houver forças corretivas que limparão periodicamente a vegetação rasteira e varrerão os entulhos. Essa tarefa, infelizmente, ainda não foi realizada, embora parte desse processo necessário já tenha começado.10

A ideia de correção e demolição do erro não se coaduna com o paradigma agora reinante na epistemologia da economia. A Velha Metodologia, dominante até os anos 1970, era francamente prescritiva, estabelecendo critérios para teorias válidas e inválidas. O problema com a Velha Metodologia não era que ela presumia a verdade e validade metodológicas, nem que julgava vários métodos e teorias em economia, mas que seus critérios estavam sistematicamente errados: ela foi apanhada pelo que o Professor Mirowski chama de “inveja da física”, imitar a suposta metodologia da física nas disciplinas da ação humana. O problema com a Velha Metodologia (dominante até os anos 1970) não era que ela era prescritiva, mas que suas prescrições estavam totalmente erradas. Infelizmente, ao derrubar a tirania da Velha Metodologia, os rebeldes bem-sucedidos focaram não na invalidade da prescrição, mas no fato de que quaisquer prescrições foram estabelecidas. E assim o bebê prescritivo foi jogado fora com a água do banho positivista — para ser substituído pela Nova Metodologia de tudo vale, de permitir que todas as flores, incluindo ervas daninhas, floresçam. Os Novos Metodologistas habitualmente negam que para eles “tudo vale”, mas é exatamente isso que sua missão proclamada — entender e esclarecer todas as teorias, mas nunca julgá-las ou denunciá-las — significa. Claramente, a Nova Metodologia é muito congruente com nossa Nova Era.11

Existem duas contradições graves e despercebidas envolvidas nesse argumento por nossos Novos Metodologistas anti-prescritivos. Em primeiro lugar, como apontamos no caso da Professora Vaughn, há uma prescrição gritante, embora não reconhecida: a visão Whig de que mais novo é necessariamente melhor, uma visão que se encaixa peculiarmente em um sistema que não oferece critérios de validade e nenhuma sugestão de que existe algum processo ou mecanismo para aprender sobre ou adotar tais critérios, se eles existissem de verdade. Mas também há uma contradição mais profunda. Pois os Novos Metodologistas estão dizendo que é errado que a metodologia econômica seja prescritiva, que é apenas certo para metodologia descrever ou esclarecer dentro de cada paradigma. Mas, nesse caso, os Novos Metodologistas estão sendo muito prescritivos de fato: eles estão dizendo que é errado ou ruim dizer que qualquer metodologia é errada ou ruim; mas que argumento, então, eles oferecem para sua prescritividade? Várias escolas metodológicas antigas, sejam elas positivistas, austríacas ou institucionalistas, ofereceram vários argumentos concretos para suas prescrições particulares: para sua visão de que suas metodologias particulares são certas ou corretas, e as outras erradas. Mas os Novos Metodologistas não oferecem qualquer argumento a favor de sua própria prescritividade abrangente e oculta: que todas as prescrições (exceto a sua própria) são necessariamente ruins ou incorretas. Em suma, os Novos Metodologistas não oferecem qualquer argumento para sua prescrição de tudo vale — tudo que eles têm a oferecer é o clima do momento, da cultura contemporânea: o humor absurdo e autocontraditório de nossa cultura “terapêutica”, de tagarelice psicótica e anti-“crítica”. Afirmar esse fato é revelar o humor absurdo, contra-intuitivo, anti-racional e moderno dos Novos Metodologistas — um humor que não oferece e está sujeito a nenhum argumento e, portanto, simplesmente não deve ser levado a sério.

Minhas alegações são: que o paradigma austríaco correto é e só pode ser o misesiano, isto é, o paradigma da praxiologia misesiana; que os paradigmas austríacos concorrentes, em particular o paradigma fundamentalmente irracional de “regras evoluídas”, de “conhecimento”, de “planos” e da “ordem espontânea” de Hayek e o paradigma mais extremo “ultra-subjetivista” ou niilista de Lachmann, foram ambos falaciosos e perniciosos; que, como veremos abaixo ao discutir a história do ressurgimento austríaco moderno como um movimento, por várias razões o paradigma misesiano foi quase totalmente posto de lado e esquecido; mas que agora está ressurgindo e rapidamente se tornando dominante e até triunfante dentro da economia austríaca. E na hora certa. A forte implicação de Vaughn e de outros críticos anti-misesianos é que os misesianos simplesmente querem que a economia austríaca seja estática, que repita indefinidamente as palavras e ideias de Mises de cor. Não tanto; que isso não é verdade pode ser visto em inúmeros desenvolvimentos criativos e avanços na economia misesiana nos últimos trinta anos: em particular meu próprio trabalho anterior em teoria de monopólio, teoria do aluguel, economia de bem-estar, o governo e a economia e a teoria dos direitos de propriedade12 e, mais recentemente, pelo trabalho de Hans-Hermann Hoppe no método praxiológico, sistemas econômicos comparados, taxação e uma teoria praxiológica dos direitos; e pelo trabalho de Joseph T. Salerno em Mises vs. Hayek sobre razão, trocas livres e a calculação socialista; e de Salerno sobre o trabalho de Hutt e a coordenação de preços do mercado em oposição à “coordenação de planos” de Hayek. Tudo isso, assim como o trabalho recente de Barry Smith e David Gordon sobre o pano de fundo filosófico da economia austríaca, são avanços notáveis e criativos no desenvolvimento, elaboração e em tornar mais consistente e contundente o paradigma misesiano original.13 Além disso, existem os artigos apresentados nesta conferência, bem como literalmente dezenas de outras contribuições na Review of Austrian Economics e em outros lugares sobre vários aspectos da teoria, método, história e política.

O desideratum não é manter a economia austríaca estática; isso nunca pode ser verdade para uma ciência em crescimento e em desenvolvimento. O desideratum é o avanço criativo dentro do paradigma misesiano correto, bem como a proteção contra a degeneração da disciplina em falácia e erro.

Praxiologia Misesiana versus Paradigmas Concorrentes

Infelizmente, tornou-se habitual em resumir a economia austríaca, ou o paradigma austríaco, apresentá-la como uma coleção de princípios separados, uma longa lista de vários traços separados: em particular, “subjetivismo”; “processo de mercado” ou processos de desequilíbrio em oposição ao equilíbrio ou estados-finais; coordenação de planos do mercado; individualismo metodológico; ênfase nas “consequências não intencionadas” em vez das consequências intencionadas da ação humana; e escrever em estilo “literário” ou linguagem comum, em vez de matemática formal. Como veremos, essa ênfase na longa lista não conectada leva quase inevitavelmente a um erro grosseiro, pois leva a uma supervalorização unilateral e, portanto, à ênfase errada em características particulares como “subjetivismo”, “processo de mercado” ou consequências não intencionadas, assim, infelizmente, denegrindo outros elementos cruciais do austrianismo tais como a realidade objetiva e suas leis, o estado-final ou objetivos de equilíbrio implícitos em toda ação humana e o exercício da razão e, portanto, as consequências intencionadas de tal ação.

Se por nenhuma outra razão, essa longa lista díspar de características austríacas deveria ser varrida com um golpe poderoso da Navalha de Occam. Pois todos eles podem ser integrados, englobados e deduzidos de um conceito central: o conceito misesiano de praxiologia. A palavra praxiologia significa exatamente o que diz sua etimologia: a lógica da ação (humana). Toda a teoria econômica pode ser deduzida do axioma central de que os seres humanos agem — que buscam meios para chegar a fins.14 Uma das conquistas centrais de Mises foi perceber que essa era a metodologia da melhor teoria econômica antes dele, ser o primeiro a sistematizar essa metodologia e, então, ser o primeiro a construir todo o edifício da teoria econômica de acordo com essa prescrição praxiológica. A teoria correta é baseada no axioma verdadeiro e irrefutável de que os seres humanos agem e prossegue deduzindo as implicações lógicas — e, portanto, verdadeiras — desse fato formal.15

Armados com o núcleo central da praxiologia, da lógica implicada da existência da ação humana, examinemos cada um dos alegados traços austríacos apresentados por austríacos não-misesianos (hayekianos e outros).

Subjetivismo

O subjetivismo origina-se do ponto importante de que os indivíduos valoram apenas subjetivamente: que os bens e recursos são avaliados por mentes individuais, por exemplo, pelos consumidores, e que os preços dos bens e serviços são determinados apenas por valorações relativas desses bens por todos os indivíduos no mercado . É verdade, também, que Mises ajudou a purgar a economia de vestígios contínuos de teorias falhas de valor objetivo, do custo ricardiano e teorias de dor-trabalho preservadas por Marshall, às pretensões atuais de empregar e até mesmo medir tais conceitos inválidos como “custos sociais objetivos”, “custos e benefícios” objetivos e “custos de transação” objetivos e mensuráveis. Todos esses conceitos são ilegítimos.

Mas, com a negligência e a rejeição de Mises e da praxiologia (rejeitada, em vez de conscientemente debatida ou refutada), os paradigmas austríacos recentes permitiram que o “subjetivismo” corresse solto: estender-se da teoria de valor subjetivo legítimo a uma negação virtual da existência objetiva do mundo real, das leis objetivas de causa e efeito, e da validade objetiva da lógica dedutiva. Na teoria de valor, os não-misesianos, especialmente os lachmannianos, negligenciam ou negam o fato objetivo de que objetos físicos estão sendo produzidos, trocados e avaliados, embora sejam avaliados subjetivamente por indivíduos que agem.16 Lachmannianos e outros pseudo-austríacos precisam ser confrontados com o fato de que seres humanos individuais existem, que suas ações existem e que o mundo no qual eles fazem parte também existe.

Conhecimento e Incerteza

Intimamente ligado à questão do subjetivismo está o problema do conhecimento e da incerteza. A economia neoclássica trancou-se na visão absurda de que todos no mercado — consumidores, produtores e empresas — têm conhecimento perfeito: que demandas, ofertas, custos, preços, produtos, tecnologias e mercados são totalmente conhecidos por todos ou por todos indivíduos relevantes. Essa suposição absurda só pode começar a ser defendida no ponto de vista positivista, ou friedmaniana, de que está tudo bem incorporar o erro grosseiro em suas suposições, desde que “predições” corretas possam ser feitas. Na visão praxiológica, entretanto, as predições quantitativas nunca podem ser feitas; de fato, torna-se necessário evitar a inclusão de erros na cadeia de axiomas e proposições, que precisam ser verdadeiros em cada etapa do caminho. Nos últimos anos, os teóricos das expectativas racionais agravaram ainda mais esse absurdo, afirmando que “o mercado” — como alguma entidade reificada que conhece tudo — tem conhecimento absoluto não apenas de todas as condições presentes, mas também de todas as demandas, custos, produtos e tecnologias futuros: de modo que o mercado seja onisciente sobre o futuro assim como sobre o presente.17

A visão praxiológica misesiana, em contraste, é que nunca o conhecimento do presente, e muito menos do futuro, é perfeito, e que o mundo em geral, e o mercado em particular, são eternamente marcados pela incerteza. Por outro lado, o homem obtém conhecimento, que se espera que aumente com o tempo, das leis naturais e das leis de causa e efeito, que lhe permitem descobrir mais e melhores maneiras de dominar a natureza e de realizar seus objetivos de forma cada vez mais eficaz. Quanto à incerteza, é tarefa do empreendedor enfrentá-la assumindo riscos, em busca de lucro e evitando prejuízos.18

Consequentemente, para o praxiologista, o Homem Misesiano encara o mundo sabendo enfaticamente algumas coisas sobre seu mundo e não conhecendo outras. Ele sabe absolutamente que ele e o mundo, incluindo outras pessoas e recursos, existem; ele sabe que as leis naturais e as leis de causa e efeito existem; e que esse conhecimento se acumula com o tempo. Seu conhecimento tecnológico de quais bens irão satisfazer seus quereres e de como adquiri-los aumenta continuamente. E ainda assim ele vive em um mundo de incertezas, de demandas, recursos, produtos, preços e custos futuros incertos, todos problemas que os empreendedores enfrentam. Com o tempo, os empreendedores bem-sucedidos em assumir riscos e em prever seu futuro particular obterão lucros e expandirão suas operações, enquanto os pobres portadores de risco e previsores sofrerão prejuízos e necessariamente encolherão seu campo de atividade. Consequentemente, os empreendedores tenderão a se manter cautelosos e a ter sucesso na maioria de suas previsões.

O ponto importante em relação à teoria econômica é que o Homem Misesiano conhece o conjunto de leis econômicas que os misesianos elaboraram; essas leis, embora absolutas, são qualitativas e ceteris paribus em sua natureza e não podem prever o futuro. Tal previsão só pode ser uma arte empreendedora, previsões quantitativas que podem ser guiadas de forma útil, embora não sejam determinadas por leis praxeológicas qualitativas. Essas previsões também precisam ser guiadas pelo insight, pelo Verstehen, em condições presentes e futuras e nos valores, preferências e hábitos mutáveis de outros agentes humanos.

Suponha, por exemplo, que o Homem Misesiano, como previsor, esteja tentando estimar como os preços em geral se comportarão nos próximos anos. Ele está armado com uma lei absolutamente verdadeira (como diria Mises, apodíctica) e qualitativa da teoria econômica praxiológica: de que se a oferta de dinheiro aumentar e a demanda das pessoas por dinheiro continuar a mesma, os preços irão subir. Mas, para prever, ele precisa ir além de tais leis econômicas e tentar estimar: (a) quanto, se é que aumentará, o dinheiro aumentará no futuro próximo; (b) o que acontecerá com a demanda por dinheiro; e (c) o que, então, acontecerá com os preços gerais — considerando também o que provavelmente acontecerá com a oferta de bens. O Homem Misesiano sabe muito; mas ele não sabe tudo e precisa tentar estimar o futuro, dadas as várias estimativas quantitativas e qualitativas de mudança. Para mostrar o absurdo da pretensão neoclássica (subdivisão monetarista) de tentar estabelecer leis quantitativas “científicas” entre a oferta de dinheiro e os preços, ao estimar o curso da oferta de dinheiro no futuro próximo, uma pessoa precisa tentar descobrir a psicologia do Conselho do Federal Reserve, as idéias mantidas por ele e a influência política sobre ele.

Mas contraste com essa incerteza “moderada” do Homem Misesiano, o apuro do Homem Lachmanniano, sujeito à incerteza radical e ao niilismo de Lachmann. O mantra favorito do Professor Lachmann, que ele repetia em todas as oportunidades, e que considero ser a chave de seu pensamento, era o seguinte: “o passado é, em princípio, absolutamente cognoscível; o futuro é absolutamente incognoscível”. Já que o futuro, para Lachmann, é absolutamente incognoscível, o Homem Lachmanniano conhece nenhuma lei econômica, nenhuma lei de causa e efeito, qualitativa ou quantitativa. Na verdade, ele não pode ter qualquer Verstehen de padrões que provavelmente ocorrerão no futuro. A cada momento do tempo sucessivo, o Homem Lachmanniano entra em um vazio ínvio.19

Uma vez que não existem leis de causa e efeito na ação humana, o Homem Lachmanniano não seria capaz de dar o primeiro passo para descobrir o que está acontecendo, ou provavelmente acontecerá, com os preços. Dinheiro? Preços? Eles não podem ter relação com o futuro, qualitativa ou quantitativa, o que significa que não estão causalmente relacionados de forma alguma.

Mais uma vez, os lachmannianos não têm argumentos reais para escalar da incerteza moderada à absoluta; eles aparentemente pensam que a repetição basta para argumentar. Parece-me claro, ao contrário, que todo o paradigma Lachmanniano é nonsense. Pondo de lado o peso excessivo de Lachmann sobre a incognoscibilidade absoluta do passado (será que realmente sabemos com certeza por que César cruzou o Rubicão?), sei muitas coisas sobre o futuro com certeza absoluta: sei com certeza absoluta, por exemplo, que nunca vou ser eleito presidente dos Estados Unidos. Sei, com certeza ainda maior, se possível, que nunca serei nomeado rei da Inglaterra. Afirmo que estou muito mais certo sobre esses eventos futuros do que sobre a razão de Lênin, na Estação Finlândia, ter sido o único bolchevique a ver que pular vários estágios importantes poderia levar a uma revolução bem-sucedida na Rússia.20

Uma vez que Lachmann nega a possibilidade de conhecer o futuro, e, portanto, de qualquer lei econômica, tanto qualitativa quanto quantitativa, Lachmann e seus seguidores inevitavelmente se tornam meros institucionalistas, meros historiadores do registro das atividades econômicas passadas do homem. Mises teria chamado Lachmann e os Lachmannianos, como chamou todos os outros institucionalistas, de “anti-economistas”, essa frase significava não apenas como um epíteto, mas também como um resumo mortalmente preciso do que eles tratam. Uma vez que os Lachmannianos se opõem até mesmo à possibilidade da teoria econômica, eles não mais precisam ser considerados como economistas de forma alguma. Faute de mieux, suponho que eles poderiam ser chamados de “historiadores”, exceto (a) eles fazem muito pouco trabalho histórico real, e (b) como Mises deixou claro em seu fundamental, embora muito negligenciado, Theory and History21 para ser um bom historiador, você tem de ser capaz de usar teorias causais de várias disciplinas para ajudar a explicar eventos históricos únicos, e as ferramentas da lei econômica são partes indispensáveis do arsenal de qualquer historiador genuíno.22 Em certo sentido, os lachmannianos e outros institucionalistas funcionam como anti-economistas profissionais e “meta-historiadores”, despendendo suas energias denunciando a economia e incitando outros economistas a agirem como historiadores.23

Conhecimento e o Papel do Empreendedor

Se o Homem Lachmanniano sabe nada, seu irmão o Homem Hayekiano (o terceiro maior paradigma da economia austríaca moderna) está em melhor situação, mas não muito. Hayek é obcecado pela ignorância supostamente generalizada e sistêmica do Homem. Na verdade, o argumento virtualmente solitário de Hayek contra a intervenção do governo e contra o socialismo é que os planejadores do governo não podem saber de nada. Uma vez que a razão pode desempenhar pouco ou nenhum papel nos assuntos do homem, o governo, ou o homem por meio do governo, nem mesmo sabe o suficiente para estabelecer regras gerais legais ou constitucionais para a sociedade. Essas regras gerais só podem emergir das forças cegas e inconscientes da “evolução” — as regras evoluídas que o último e pós-misesiano Hayek, (no termo afortunado de Hutchison, um segundo Hayek em comparação com um primeiro Hayek misesiano) deseja que adoremos e sigamos cegamente para que não morramos.24 Para o Homem Hayekiano, entretanto, há uma saída: embora ele saiba praticamente nada, ele pode aprender dolorosamente através dos processos do livre mercado, assim como na lei ou nas constituições, ele pode aprender a aceitar as regras “evoluídas”. Em contraste, o Homem Misesiano não só pode saber e aprender, ele pode fazê-lo exercendo seu poder humano único da razão; e a razão — o corpo da teoria econômica praxiologicamente deduzida — pode e diz a ele que a economia de mercado funciona extremamente bem, enquanto o planejamento governamental e o socialismo não podem funcionar. O Homem Misesiano conhece as virtudes do livre mercado e as falhas devastadoras do socialismo usando sua razão. No caso das regras gerais, o Homem Misesiano pensaria que é absurdo aceitar todas as regras simplesmente porque elas existem, sem também corrigi-las pelo uso de sua razão.

As respectivas atitudes em relação ao conhecimento humano e à capacidade humana ajudam a explicar as enormes diferenças nos vários paradigmas sobre o papel crucial do empreendedor no mercado. Para o Homem Neoclássico, não há necessidade de um empreendedor, uma vez que todos os homens sabem tudo sobre o mercado, seu passado e seu futuro, perfeitamente; e todas as curvas são tangentes, e todas as coisas em repouso, na Terra do Nunca do equilíbrio geral de longo prazo. Os austríacos, em contraste, enfatizam muito o papel dinâmico do empresário, mas suas visões desse papel são muito diferentes.

O Homem Hayekiano, o empreendedor hayekiano, começa sem saber nada, mas ele aprende dolorosamente sobre o mundo e o mercado através dos “sinais” do sistema de preços. Hayek e, depois dele, o Professor Israel Kirzner, costumam falar do mercado, da competição no mercado, como um “processo de descoberta”. Em contraste com Lachmann, que pensa que não pode haver conhecimento do mundo lá fora para aprender, Hayek-Kirzner vê um mundo de conhecimento lá fora, com as forças inconscientes do mercado ofertando ao homem esse conhecimento, por meio do preço de mercado e dos sinais de lucro e prejuízo. O empreendedor de Hayek-Kirzner, de fato, é estranhamente passivo; ele quase não age como um empreendedor. Ele não arrisca nada e realmente não sabe nada, exceto o que os sinais do sistema de preços lhe ensinam, à medida que ele e a economia de mercado caminham em direção ao equilíbrio geral. Em sua elaboração do tema hayekiano, Kirzner vê como única função do empreendedor, e sua única qualidade necessária, exercer uma “perspicácia”25: captar os sinais do mercado antes do próximo cara. Na metáfora favorita de Kirzner, uma nota de $10 está no chão. Muitas pessoas não veem essa nota; mas o empreendedor está mais alerta do que seus colegas e, portanto, é o primeiro a ver e a agarrar essa nota. Perspicácia superior, perspicácia para a verdade lá fora, é responsável pelos lucros empreendedoriais.

Existem muitos problemas com o esquema kirzneriano. Se a perspicácia superior é responsável pelos lucros empreendedoriais, o que no mundo kirzneriano pode explicar os prejuízos empreendedoriais? A resposta é nada. E, no entanto, o aspecto crucial do empreendedorismo é aquele enfatizado por Mises: que o empreendedor assume riscos, que pode obter lucros arriscando recursos e por meio de previsões superiores do futuro, enquanto sofre prejuízos com previsões inferiores. No entanto, não há riscos nem incertezas quanto ao futuro no mundo kirzneriano. O Homem Kirzneriano não enfrenta o futuro, mas o presente; ele não possui recursos de capital e, portanto, não arrisca prejuízos; ele simplesmente vê a verdade presente antes dos outros e a possui perspicazmente.

No mundo misesiano, em contraste, o empreendedor não é passivo, mas extremamente ativo.26 Ele assume riscos e tenta prever o futuro; ele luta contra a incerteza. Os empreendedores misesianos mais importantes, o motor da economia, são os empreendedores-capitalistas, aqueles que possuem ou possuem parcialmente recursos de capital e os arriscam em projetos na esperança de retornos futuros. E, na área do conhecimento, como o professor Salerno observou com perspicácia, o Homem Misesiano conhece muito sobre sua parte no mercado — não apenas preços, mas todo o conhecimento qualitativo que também precisa ir para a produção e para empreendimentos arriscados: os tipos de clientes que ele terá, os tipos de produtos que desejarão, onde comprar matérias-primas e como transformá-las, e assim por diante — ou seja, todo o conhecimento particular de que Hayek falou em outros contextos. O sistema de preços livres é vital para o empreendedor, mas não é, como em Hayek-Kirzner, sua única fonte de conhecimento.27

O empreendedor misesiano, então, não é um receptor passivo, embora alerta, do “conhecimento” fornecido pelo sistema de preços. Ele é um homem conhecedor, ativo, que corre riscos, previdente, que usa o sistema de preços como um guia indispensável para que possa calcular seus custos e estimar suas receitas e lucros futuros.

Quanto ao Homem Lachmanniano, o empreendedor pode existir, mas perde todo o significado. Em contraste com o homem Hayek-Kirzneriano, ele não pode aprender com os sinais do mercado porque não pode saber qualquer coisa de forma que seja, mesmo através de sinais de preço. O Homem Lachmanniano está totalmente desprovido de conhecimento, e seu Homem na economia de mercado dificilmente está melhor ou sabe mais do que o planejador socialista Lachmanniano.28

Processo de Mercado e Equilíbrio

Enquanto o neoclássico acredita, ou finge acreditar, que a economia de mercado está sempre em um estado de equilíbrio geral de longo prazo, a economia austríaca, de Menger em diante, na verdade a partir de Cantillon, concentrou-se não no equilíbrio, mas no processo pelo qual o mercado se move em direção a ele. O mundo real, o mundo cotidiano dos mercados, é aquele em que o mercado está sempre se movendo em direção ao equilíbrio, mas nunca o alcançando, uma vez que os determinantes da atividade de mercado: valores, recursos, tecnologias, conhecimento, produtos, e assim por diante, estão sempre mudando. Os austríacos, portanto, concentram-se nos processos de mercado em vez de no estado de equilíbrio final.

Mas, em contraste com Mises, os Lachmannianos, em particular, eliminaram completamente o equilíbrio final. Eles consideram todo o conceito sem sentido. Em vez disso, eles praticamente usam a frase “processo de mercado” como um xibolete, assim, jogando fora não apenas o equilíbrio, mas o bebê da própria teoria econômica junto com a água de banho neoclássica. É impossível se envolver em teorização econômica sem empregar o que Mises chamou de “construções imaginárias” ou “experimentos mentais” (Gedankenexperimenten), que funcionam como o único substituto do praxiologista para os experimentos de laboratório das ciências físicas. No laboratório, o cientista mantém todas as outras variáveis constantes, enquanto examina o efeito da mudança de uma variável sobre a outra. Visto que os seres humanos não podem ser “mantidos constantes”, o praxiologista o faz em “experimentos mentais”, por meio da famosa cláusula ceteris paribus. É por meio desse raciocínio que o teórico econômico conclui, por exemplo, que um aumento na oferta de dinheiro, a demanda por dinheiro sendo mantida constante, estará fadado a diminuir o valor (poder de compra) da unidade monetária. Em suma, o teórico econômico postula um equilíbrio, depois muda mentalmente uma variável, digamos a oferta de dinheiro, mantém todas as outras variáveis relevantes constantes e examina o efeito sobre os preços em geral. Recusar-se a empregar conceitos de equilíbrio é necessariamente destrutivo para toda teoria econômica ou lei econômica.

As construções ceteris paribus podem e incorporam a realidade e a verdade econômica, mesmo que as construções específicas não sejam “realistas” no sentido de que não estão acontecendo naquele momento específico no tempo. Essas teorias e leis são realistas porque são deduzidas do axioma fundamental e absolutamente verdadeiro da ação humana, de que as pessoas agem continuamente empregando meios para tentar alcançar objetivos. As leis da teoria monetária, por exemplo, de que um aumento na oferta de dinheiro, dada a demanda por dinheiro, levará a uma queda no valor da unidade monetária, são eternamente e “apodicticamente” verdadeiras, independente de tempo e lugar, desde, é claro, que o dinheiro esteja sendo usado na economia. Mesmo se não houvesse dinheiro no mundo hoje, ou, mais especificamente, nenhuma inflação monetária, a lei ou construção em questão ainda seria verdadeira, só que presentemente não seria aplicável. É tarefa do historiador ou previsor econômico aplicar a teoria da inflação monetária a qualquer economia onde tal inflação possa existir.29

Mises coloca desta forma:

 

O método específico da economia é o método das construções imaginárias. […] Uma construção imaginária é uma imagem conceitual de uma sequência de eventos lógicamente evoluídos a partir dos elementos de ação empregados em sua formação. É um produto da dedução, derivado em última análise da categoria fundamental da ação, o ato de preferir e de deixar de lado. […] Sua função é servir ao homem em um escrutínio que não pode confiar em seus sentidos. […] A fórmula principal para projetar construções imaginárias é abstrair da operação de algumas condições presentes na ação real. Então, estamos em posição de compreender as consequências hipotéticas da ausência dessas condições e de conceber os efeitos de sua existência. Assim, concebemos a categoria da ação construindo a imagem de um estado em que não há ação [equilíbrio final], seja porque o indivíduo está plenamente satisfeito e não sente qualquer desconforto, seja porque não conhece qualquer procedimento a partir do qual a melhora em seu bem-estar [estado de satisfação] poderia ser esperada.30

 

Além disso, ao jogar fora os conceitos de equilíbrio por completo e ao se concentrar apenas nos “processos de mercado”, os lachmannianos e outros austríacos não-misesianos deixam de perceber que, com isso, abrem mão de qualquer chance de compreender esses próprios “processos”. Pois esses “processos” são na verdade ações humanas que, ao contrário dos meros movimentos de pedras ou átomos, são necessariamente propositadas e orientadas a um objetivo. Portanto, toda ação no mercado já precisa implicar o objetivo, ou estado final, dessa ação.31 A ação, ou “processo”, já implica o estado de equilíbrio, mesmo que esse estado nunca seja totalmente alcançado.

Mais uma vez, uma diferença crucial é o abandono, por não-misesianos, do conceito misesiano de ação — ação que é necessariamente direcionada a um objetivo ou ao estado final, e que é propositada, ativa e que assume riscos. Em vez de “equilíbrio”, esses Lachmannianos falam de “processos”, que conotam movimentos e mecanismos impessoais em vez de escolhas conscientes de pessoas engajando em atividades direcionadas a um objetivo.32, 33 Vimos, em contraste, que as construções de equilíbrio são indispensáveis para todo pensamento econômico ceteris paribus, para analisar ações e para demonstrar a direção para a qual a economia está necessariamente tendendo. Como Mises indicou na citação acima, o equilíbrio final também é necessário para analisar a emergência de lucros e prejuízos em um mundo incerto; pois tais retornos positivos ou negativos não existiriam em um mundo de certeza e equilíbrio final imutável. O construto de equilíbrio final também permite ao economista distinguir lucros e prejuízos empresariais de curto prazo dos retornos gerados pela preferência temporal, incorporados na taxa de interesse “natural”, retornos que ainda continuariam a existir em um mundo de certeza e equilíbrio.

Enquanto isso, em contraste com os lachmannianos, os hayekianos preservaram o conceito de equilíbrio e a visão de que os empreendedores estão sempre movendo a economia em uma direção de equilíbrio. Mas os hayekianos, que incluem Kirzner, estão travando a batalha em bases empiristas em vez de praxiológicas. Em outras palavras, os hayekianos afirmam que os empreendedores, no processo de aprender com os sinais de mercado, estão de fato movendo a economia em direção ao equilíbrio. Os lachmannianos, é claro, afirmam que os empreendedores não podem aprender nada e que, portanto, a economia está ou se afastando do equilíbrio ou então em nenhuma direção específica. A batalha entre os dois, portanto, é sobre estimativas empíricas sobre taxas de velocidade: os hayekianos afirmam que os empreendedores estão aprendendo em um ritmo mais rápido com os sinais de preço do que os dados estão mudando, assim, movendo a economia ao equilíbrio. Os lachmannianos, por outro lado, afirmam que os dados estão mudando mais rápido do que as pessoas podem aprender (presumindo que elas possam aprender) e que, portanto, a economia, de fato, está se afastando do equilíbrio. A disputa é meramente empírica sobre as taxas de velocidade de mudança: uma disputa que, pela natureza das coisas, nunca pode ser resolvida.

Para o misesiano, por outro lado, toda a disputa é mal interpretada. A lógica da situação demonstra que o homem sempre age usando a razão para melhorar sua condição; de forma que sua ação é sempre “racional”, isto é, suas ações são sempre benéficas, sempre estão, necessariamente, equilibrando-se ex ante. E o mecanismo de mercado também é tal que as previsões tendem, em geral, a se revelar verdadeiras, de modo que as decisões ex ante se tornam validadas ex post. Mas a escolha e a ação são sempre ex ante, e a ação ex ante no mercado está sempre equilibrando. E as considerações ex ante são o que conta na análise e explicação da ação humana.34

Coordenação: de Planos ou de Preços?

Envolto em sua concepção defeituosa de equilíbrio está o xibolete hayekiano sobre a alegada função do mercado de “coordenação de planos”. O conceito não deve ser descoberto em Mises, e por boas razões. Em primeiro lugar, no equilíbrio final, na economia de rotação uniforme para a qual a economia tende, mas nunca alcança por causa de dados em constante mudança, não há mudança na rodada interminável e, portanto, nenhuma mudança é esperada. Todos os “planos” dos sujeitos são, portanto, colocados em equilíbrio, ou coordenados, por definição, em equilíbrio final. Mas enquanto os hayekianos e os lachmannianos discutem se as pessoas aprendem ou não com a experiência e se o mercado está se equilibrando e coordenando, toda a controvérsia é mal concebida. Pois, enquanto em equilíbrio final não existente, os planos são coordenados por definição, por que deveríamos esperar que fora do equilíbrio os planos, que são necessariamente variáveis e subjetivos, algum dia serão “coordenados” ou colocados em igualdade? De fato, podemos dizer que, dados dados básicos — valores, recursos, tecnologia — há muito menos razão para pensar que os planos serão coordenados do que que o mercado tende ao equilíbrio.

Suponha, por exemplo, que possamos dizer que o valor do capital de uma determinada empresa, em equilíbrio final, será de $100 milhões, com base nos retornos futuros e na taxa de interesse, e que, portanto, dado 1 milhão de cotas das ações excepcionais da empresa, o preço de “equilíbrio” das ações é $100. Mas mesmo que os dados sejam fornecidos ou congelados, e possamos dizer que o preço das ações tende a $100, não há razão para assumir que, além do estado de equilíbrio final real, os planos de todos os participantes do mercado serão “coordenados” para entender que o preço de equilíbrio vai ser $100. Até o final, pode e haverá indivíduos com expectativas variadas, altas e baixas, e volatilidade do preço das cotas até que o estado final de repouso seja alcançado. Em suma, embora toda ação seja equilibrante por sua natureza, e o mercado tenda ao equilíbrio se os dados forem congelados, os planos subjetivos nunca serão “coordenados” até que o equilíbrio final chegue. E uma vez que esse estado final de repouso, dada a natureza do homem e do mundo, nunca pode acontecer, todo o conceito de “coordenação de planos” deve ser jogado fora como inútil, enganoso e falso.

Mas isso significa que o mercado nunca “coordena”, que nunca podemos falar de coordenação no mercado? Pelo contrário, como o Professor Salerno demonstrou recentemente, a coordenação ocorre de forma eficaz, e todos os dias, por meio de todo o sistema de preços. O Professor Salerno prestou o serviço notável de reviver a teoria de coordenação de preços de William H. Hutt e de demonstrar que este conceito huttiano é essencialmente a visão misesiana.35 Não na Terra do Nunca do equilíbrio final, mas todos os dias nos mercados, no equilíbrio do dia a dia, o sistema de preços coordena os preços, incluindo taxas de salários e os preços de outros fatores produtivos, para que nunca haja qualquer escassez ou excedente não vendido. No dia a dia, então, pode haver, por várias razões, má alocação de recursos, mas nunca escassez e excedentes, desde que os preços sejam livres para se movimentar.

Suponha, por exemplo, que uma típica má alocação de recursos agrícolas ocorra durante uma guerra. Um país entra em guerra, suprimentos de agricultura de outras áreas são cortados e há um grande aumento na demanda pela agricultura do país. Os preços dos alimentos e agrícolas aumentam e a produção agrícola se expande. Então, quando a guerra acaba, a expansão agrícola é vista como excessiva para tempos de paz, e os preços dos alimentos e agrícolas e os salários caem. Embora agora haja “muitos” alimentos e muitos recursos na agricultura para serem sustentados em tempos de paz, se os preços puderem cair, não haverá excedente não vendido, seja na produção, seja no emprego de trabalho. Embora a demanda do tempo de guerra tenha feito com que muitos recursos fossem transferidos para a agricultura, o sistema de preços livres continua a se coordenar — para garantir que não haja escassez ou excedente no setor agrícola. No longo prazo, é claro, as perdas na agricultura e as taxas salariais especialmente baixas lá induzirão os recursos a sair da agricultura para outras áreas, de modo que os preços e os salários se moverão em direção ao equilíbrio em todas as áreas. Mas, em cada estágio do processo, o sistema de preços se coordena com sucesso.36

Conhecimento e Cálculo Socialista

Agora é universalmente reconhecido que Ludwig von Mises, supostamente o perdedor no famoso debate do cálculo socialista que ele lançou em 1920, estava realmente certo: claramente, o socialismo não pode calcular, ele não pode administrar um sistema econômico moderno complexo. Mas só recentemente ficou claro, por meio dos insights do Professor Salerno, exatamente por que Mises estava certo, e também como a mensagem de Mises foi sistematicamente distorcida, desde a década de 1930 até anos recentes, por F.A. Hayek e seus seguidores. Para Hayek e os hayekianos, obcecados com o alegado “problema do conhecimento”, têm sistematicamente interpretado erroneamente Mises como sustentando apenas que o Conselho de Planejamento Socialista, enfrentando a incerteza de uma economia dinâmica, carece do conhecimento que lhe permite planejar a produção e alocar os recursos de uma economia socialista. Em contraste, a economia de mercado, por meio de seus sinais de preço, transmite esse conhecimento necessário de e para os vários participantes da economia de mercado.

Mises, embora não contestasse a importância do conhecimento e de sua disseminação por meio do sistema de preços, estava, no entanto, defendendo um ponto totalmente diferente. A partir de 1920, raciocinou da seguinte forma: assuma o melhor para a Diretoria de Planejamento Social. Assuma que, por algum processo mágico, ela tenha sido capaz de descobrir e de conhecer absolutamente todas as escalas de valor dos consumidores, todos os métodos tecnológicos e compilar um inventário de todos os recursos. Suponha, então, diz Mises, que concedemos conhecimento total de todos esses dados à Diretoria de Planejamento Socialista. Ela ainda não será capaz de calcular, ainda não será capaz de descobrir os custos e preços, principalmente de terras e bens de capital, e, portanto, não será capaz de alocar recursos de forma racional. O verdadeiro problema da Diretoria de Planejamento, então, a principal coisa negada a essa Diretoria por ausência de um mercado, não é o conhecimento, mas o cálculo econômico.37

Assim, para Hayek, se a Diretoria de Planejamento pudesse, por mágica, saber, como as pessoas vêm a saber por meio do mercado, valores do consumidor, tecnologias e recursos, ela poderia planejar e alocar racionalmente os recursos de forma completa tão bem como o mercado. Como de costume para Hayek e os hayekianos, o argumento a favor do livre mercado e contra o estatismo repousa apenas em um argumento de ignorância. Mas, para Mises, o problema da Diretoria de Planejamento não é o conhecimento, mas a calculabilidade. Como Salerno coloca, o conhecimento transmitido pelos preços no presente (ou no “passado imediato”) se baseia em valores, técnicas e recursos do passado imediato. Mas o que interessa ao agente, especialmente ao empreendedor em comprometer recursos na produção e na venda futura, são os preços futuros e os custos futuros. O empreendedor, que compromete os recursos presentes, o faz porque apreça — antecipa e estima os preços futuros — e aloca os recursos de acordo. É, então, o empreendedor apreçador movido por sua busca por lucros e para evitar prejuízos, que pode calcular e apreçar porque existe um sistema de preços genuíno nos meios de produção, na terra e nos bens de capital, ou seja, um sistema de trocas de recursos de capital de propriedade privada. Apenas esse sistema de precificação permite o cálculo.

Salerno destaca que, para Mises, o conhecimento e o apreçamento no mercado são complementares, e têm naturezas e funções muito diferentes. O conhecimento é um processo individual, pelo qual cada empreendedor aprende o máximo que pode sobre a natureza amplamente qualitativa do mercado que enfrenta, os valores, produtos, técnicas, demandas, configurações do mercado e assim por diante. Esse processo necessariamente ocorre apenas na mente de cada indivíduo. Por outro lado, os preços fornecidos pelo mercado, especialmente os preços dos meios de produção, são um processo social, disponível a todos os participantes, por meio do qual o empreendedor é capaz de apreçar e estimar custos e preços futuros. Na economia de mercado, o conhecimento qualitativo pode ser transmutado, pelo sistema de preços livre, em cálculo econômico racional de preços e custos quantitativos, assim, possibilitando a ação empreendedorial no mercado. Como Salerno observa: “[a] competição adquire, portanto, a característica de um processo quintessencialmente social, não porque sua operação pressupõe a descoberta de conhecimento [como com Hayek-Kirzner], que é inescapavelmente uma função individual, mas porque, na ausência de preços monetários determinados competitivamente para os fatores de produção, a posse de literalmente todo o conhecimento do mundo não permitiria a um indivíduo alocar recursos produtivos, economicamente dentro da divisão social do trabalho”.38

Em suma, toda a ênfase hayekiana na ignorância e no “conhecimento” é mal colocada e mal concebida. O propósito da ação humana não é “saber”, mas empregar meios para atingir objetivos. Como Salerno resumiu perceptivelmente a posição de Mises:

 

O sistema de preços não é — e praxiologicamente não pode ser — um mecanismo para economizar e comunicar o conhecimento relevante para os planos de produção [a posição hayekiana]. Os preços realizados da história são um acessório do apreçamento, a operação mental na qual a faculdade do entendimento é usada para avaliar a estrutura quantitativa das relações de preços que correspondem a uma constelação antecipada de dados econômicos. Nem os preços futuros antecipados são ferramentas de conhecimento; eles são instrumentos de cálculo econômico. E o cálculo econômico não é o meio de adquirir conhecimento, mas o próprio pré-requisito da ação racional no contexto da divisão social do trabalho. Fornece aos indivíduos, qualquer que seja seu dom de conhecimento, a ferramenta indispensável para obter uma compreensão mental e uma comparação dos meios e fins da ação social.39

 

A própria declaração de Mises sobre as raízes de sua investigação sobre o problema socialista foi, até recentemente, negligenciado na história do debate do cálculo social. Em geral, tem-se presumido, compreensivelmente, que o artigo de Mises de 1920 surgiu apenas por curiosidade sobre a chegada do socialismo com o advento da Revolução Bolchevique.

Na verdade, o principal impulso para o estudo, como Mises revelou, foi o trabalho que ele fez em seu monumental Theory of Money and Credit (1912). No processo de realizar a façanha de integrar a teoria do dinheiro na teoria da utilidade marginal geral (deduzindo macro de micro, como seria colocado agora), Mises percebeu que, ao contrário dos austríacos anteriores, o mercado não imputa valores diretamente de preferências do consumidor aos fatores produtivos. As escalas de valores ou preferências, Mises percebeu, eram puramente ordinais, uma questão de escolher ou deixar de lado; enquanto os preços monetários de mercado eram quantitativos e cardinais. Apenas os preços monetários podem ser imputados e não os valores diretamente. Foi ruminando sobre as formas e os meios pelos quais o mercado transforma o qualitativo em quantitativo que Mises chegou a seu insight sobre as razões pelas quais o cálculo sob o socialismo seria “impossível”.40

Até a recente reabilitação e nova explicação da posição de Mises sobre o cálculo socialista pelo Professor Salerno, o ponto de vista de Mises tinha sido sistematicamente obscurecido pelos austríacos modernos, bem como por não austríacos no debate. Assim, a Professora Karen Vaughn, em um resumo hayekiano do debate sobre o cálculo no início dos anos 1980, nem mesmo menciona as profundas contribuições de Mises no Human Action. Em um artigo anterior, Vaughn fez ainda mais: ela realmente zombou que “a chamada refutação final de Mises no Human Action é na maior parte polêmica e encobre os problemas reais”.41

O Professor Israel Kirzner, por outro lado, toma uma visão diametralmente oposta: que a grandeza da posição de Mises no Human Action é que ela se junta a Hayek em assumir uma visão “dinâmica” do problema socialista, em oposição à visão “estática” no artigo clássico de 1920 de Mises. Na realidade, a posição de Mises era igualmente “dinâmica” ou “estática” do começo ao fim; ele simplesmente elaborou sua posição mais antiga no Human Action. Na verdade, como Salerno aponta, o Mises “posterior”, no Human Action, nega explicitamente que a chave para o problema de cálculo sob o socialismo é que “toda ação humana aponta para o futuro e o futuro é sempre incerto”. Essa é a maneira de Hayek-Kirzner conceber o problema, uma vez que, fora do equilíbrio estático e em um mundo dinâmico e instável, o conhecimento do futuro é sempre incerto. Mas não, diz Mises, o socialismo sofre de

 

um problema bem diferente. […] Não tratamos do problema de saber se o diretor [socialista] será ou não capaz de antecipar as condições futuras. O que temos em mente é que o diretor não pode calcular do ponto de vista de seus próprios juízos de valor presentes e sua própria antecipação presente das condições futuras, quaisquer que sejam. Se ele investir hoje na indústria de conservas, pode acontecer uma mudança no gosto dos consumidores […] um dia transformará seu investimento em um mau investimento. Mas como ele pode descobrir hoje como construir e equipar uma fábrica de conservas de forma mais econômica?

Algumas linhas ferroviárias construídas na virada do século não teriam sido construídas se o povo naquela época tivesse antecipado o avanço iminente do automobilismo e da aviação. Mas aqueles que na época construíam ferrovias sabiam qual das várias alternativas possíveis para a realização de seus planos teriam de escolher do ponto de vista de seus apreçamentos e antecipações e dos preços de mercado de sua época em que as valorações dos consumidores foram refletidas. É precisamente esse insight que faltará ao diretor [socialista]. Ele será como um marinheiro em alto mar não familiarizado com os métodos de navegação.42

 

Razão: Troca, Intenção e Design

No centro da constelação de diferenças cruciais entre os paradigmas misesiano e hayekiano estão suas respectivas atitudes em relação à razão humana. O homem, afirma Mises depois de Aristóteles, é o animal unicamente racional; a razão é o instrumento único e essencial do homem para descobrir quais são suas necessidades e preferências, e para descobrir e empregar os meios para alcançá-las. A ênfase de Mises na ação, no homem agente, portanto, necessariamente enfatiza a importância vital da razão humana. O homem misesiano age e, portanto, seleciona conscientemente seus objetivos e decide como persegui-los.

Todo o trabalho de Hayek, ao contrário, é dedicado a denegrir a razão humana. Como David Gordon apontou, Hayek praticamente assume que os seres humanos agem inconscientemente — é claro, uma contradição em termos — e, portanto, que eles não sabem, nem pensam, nem escolhem. Portanto, suas ações não requerem entendimento; daí a ênfase de Hayek de que o melhor que pode ser feito é confiar em uma adesão cega e inconsciente a regras evoluídas.43

Assim, a visão de Mises de por que os homens participam da forma básica de interação-troca de mercado, o que também implica a participação na divisão social do trabalho. Voltando ao pensamento dos escolásticos, começando pelo menos com o grande filósofo e cientista francês do século XIV Jean Buridan, Mises viu que um homem participa em uma troca porque vê que se beneficiará mais com o bem ou serviço recebido do que o bem ou serviço que ele tem que desistir. Aqui está a raiz do insight básico da utilidade subjetiva, ou austríaco: os homens se envolvem na troca porque, e somente porque, subjetivamente preferem o que receberão em troca ao que abrirão mão. Daí, também, a conclusão de Mises sobre como preservar e manter o grande oecumene, a poderosa rede, ou sistema, de trocas voluntárias e mutuamente benéficas que constituem a economia de livre mercado: a massa do público precisa aprender, precisa ser educada para entender, a grande importância de manter e preservar esse livre mercado da agressão e da interferência coercitiva. Eles precisam entender que, no preservar e expandir dessa rede de mercado, ou oecumene, depende o florescimento e a prosperidade da raça humana: ao passo que a interferência nessa rede só pode levar à miséria e ao empobrecimento mundial.44 É claro que Mises não acredita que os homens sempre ouvirão a razão ou seguirão seus ditames; é simplesmente que, na medida em que os homens agem, eles são capazes de seguir a razão, e seguir tal curso é literalmente a última melhor esperança para a humanidade.

Uma das características notáveis do personagem de Hayek foi sua desonestidade ao expressar qualquer desacordo com seu velho amigo e mentor. Assim, foi apenas cinco anos após a morte de Mises, na ocasião de escrever um Prefácio para a nova edição do Socialism de Mises, que Hayek foi capaz de expressar sua dura discordância com a visão racionalista de Mises sobre por que os homens trocam. Mises escrevera que ele “considera toda cooperação social [troca] como uma emanação de utilidade racionalmente reconhecida, na qual todo poder é baseado na opinião pública”. Mas agora, em seu Prefácio escrito após a morte de Mises, Hayek escreve: “Sempre me senti um pouco desconfortável com essa declaração de filosofia básica, mas só agora posso articular por que estava desconfortável com ela”. Hayek então adiciona condescendentemente:

 

O extremo racionalismo dessa passagem, o qual ele não pôde escapar como filho de seu tempo, e o qual talvez nunca tenha abandonado totalmente, agora me parece factualmente equivocado. Certamente não foi uma visão racional de seus benefícios gerais que levou à expansão da economia de mercado.45

 

Mas o ponto da passagem “extrema” de Mises é este: para cada troca particular, cada indivíduo apenas participa dela porque ele age conscientemente, e sua razão lhe diz que será melhor para ele fazer essa troca do que não fazê-la. Ele se beneficiará com o que recebe em relação ao que desiste, e se sairá melhor do que com qualquer outra troca alternativa. Tudo o que esse raciocínio implica é ação consciente. Quanto à economia de mercado em geral, a teoria do governo de Mises reflete a perspicácia de David Hume: que nenhum governo, por mais poderoso ou coercitivo que seja, pode, a longo prazo, governar apenas pela força; que, uma vez que a força, no longo prazo, está com a maioria dos governados, e não com a minoria da elite dominante, para manter seu governo, a elite dominante precisa persuadir a maioria a lhe dar seu apoio. Em outras palavras, a longo prazo, as idéias sustentadas pelo povo dominam, para o bem ou para o mal. As ideias superam a força bruta. Longe de ser um “racionalismo extremo” irreal, o notável colapso interno do regime comunista na União Soviética e na Europa Oriental deu um testemunho dramático da verdade da posição de Mises.46

Na passagem em que ele deprecia a posição de Mises, no entanto, Hayek apresenta nenhum contra-argumento próprio. Se as ideias “racionais” — no sentido de ideias sustentadas conscientemente, em vez de ideias necessariamente corretas — não explicam a adoção de uma economia de mercado, bem como o afastamento dela no século XX, o que no mundo explica? Hayek sugere que o homem “escolhe” a economia de mercado “apenas no sentido de que aprendeu a preferir algo que já funcionava”. Novamente, Hayek enfatiza o hábito ou costume cego. É claro que o hábito desempenha um papel, mas se isso fosse tudo, o que explica o afastamento da economia de mercado no século XX e, finalmente, o colapso interno do sistema político-econômico comunista? A ênfase de Hayek no hábito inconsciente ou seguimento de regras, portanto, deixa de fora partes críticas da resposta: como (a) como essas regras ou instituições são adotadas em primeiro lugar; e (b) como elas mudam, muitas vezes repentinamente? Recuar, como faz Hayek, na “evolução” como única resposta à primeira pergunta não apenas aplica mal o próprio conceito de evolução, que requer a existência de genes e mutações; também falha espetacularmente em explicar as mudanças repentinas nessas regras ou na aceitação delas pela sociedade. Mais flagrantemente, a suposição implícita de Hayek da inconsciência humana viola o fato básico que todos nós sabemos por nossa própria experiência como axiomático: que os seres humanos são de fato conscientes e que, portanto, agem e escolhem ao invés de se mover ou “serem movidos” de uma forma inconsciente, robótica ou desmotivada.47

Hayek apresenta três conceitos cruciais como formas de destacar sua confiança na cegueira e irracionalidade humanas: “ordem espontânea”; as “consequências não intencionadas da ação humana”; e o produto da “ação humana, mas não do design humano”.

Não precisamos nos deter na frase “ordem espontânea”, exceto para notar que a palavra “espontâneo”, mais uma vez, conota falta de pensamento, atividade que não é escolhida conscientemente, mas puramente reflexiva e tropística. Teria sido muito mais preciso usar um termo como “voluntário”, que pelo menos se concentraria em ações escolhidas voluntariamente, em vez de coagidas.

Os dois últimos conceitos, é claro, são simplesmente variantes um do outro. Todas as ações têm consequências; e Hayek está ansioso para enfatizar, a cada passo, a suposta importância das consequências não intencionadas em vez das intencionadas, mostrando assim a importância trivial da ação humana consciente. Os humanos podem agir em algum sentido, mas suas ações conscientes não são importantes, uma vez que não produzem os efeitos desejados, “planejados” ou pretendidos. A análise de Mises, ao contrário, repousa diretamente sobre o insight aristotélico da ação, em que se mostra intencional, o pensamento e a ação sempre sendo guiados em direção a um objeto. As pessoas agem o tempo todo, em um grande número de aspectos; presumimos que, na maioria, ou quase todo o tempo, as ações das pessoas trazem seus resultados intencionados. Do contrário, as pessoas não continuariam a repeti-los. A própria ênfase de Hayek no hábito ou costume, de fato, prova o ponto racionalista de Aristóteles-Mises: pois a repetição habitual significa que essas ações foram repetidamente bem-sucedidas em realizar os objetivos de uma pessoa. Assim, se alguém mora em Long Island e todas as manhãs pega um trem para a Penn Station e, em seguida, um ônibus para o trabalho, revertendo o processo à noite, seu sucesso em compreender as relações de causa e efeito e em trazer suas consequências intencionadas o leva a continuar repetindo essas atividades.

Além disso, uma vez que todas as ações humanas são direcionadas a um objetivo, são intencionais, se não sabemos absolutamente se uma pessoa intencionou ou não as consequências de suas ações, temos de presumir que sim, a menos que possa ser demonstrado o contrário. Obviamente, se um investidor empresarial ou especulador sofreu prejuízos, essas perdas não foram intencionadas, mas, fora de tais casos, a presunção precisa permanecer com a intenção.48

Talvez o melhor caso para enfatizar as consequências não intencionadas venha da análise do motivo da troca no livre mercado e foi melhor expresso na famosa citação de The Wealth of Nations:

 

Não é da benevolência do açougueiro, do cervejeiro ou do padeiro que esperamos nosso jantar, mas de sua consideração pelos seus próprios interesses. Nós nos dirigimos, não à sua humanidade, mas ao seu amor-próprio, e nunca lhes falamos de nossas próprias necessidades, mas de suas vantagens.49

 

Para traduzir essa passagem em nossas preocupações atuais: as ações do açougueiro e do padeiro resultam nas consequências intencionadas de gerar lucro, mas, mais importante para a sociedade, resultam nas consequências não intencionadas de beneficiar os consumidores, na verdade a sociedade como um todo, da maneira mais eficiente possível.

Esse é certamente um ponto importante e válido, até onde vai. Mas, podemos nos perguntar: por que a pressa em comemorar consequências não intencionadas? Não teria sido melhor se essas consequências pró-consumidor ou pró padrão de vida geral tivessem sido entendidas e intencionadas pelos agentes também? Em outras palavras: o açougueiro, o padeiro e assim por diante desejam e pretendem que as consequências de sua produção gerem um lucro satisfatório para eles. Mas suponha que sejam informados, por economistas e outros, de que suas ações também têm o efeito de ajudar o resto da sociedade e o padrão de vida geral? Eles não iriam então vir a pretender esse bem-estar geral também, mesmo admitindo que seu próprio interesse ainda seria seu objetivo principal? Eles não estariam propensos, no mínimo, a se sentir melhor e mais felizes com suas próprias atividades, sabendo agora que eles beneficiam o corpo de consumidores e também a eles próprios? Como esse conhecimento poderia machucar?

Pode-se contestar que o açougueiro e o padeiro podem se sentir melhor; mas, fora isso, o conhecimento das consequências não intencionadas não teria efeito algum sobre suas ações concretas no mercado. Mas, ao contrário, saber que estão ajudando o bem-estar geral pode afetar fortemente suas operações. Considere o seguinte caso: um empreendedor brilhante está engajado em atividades produtivas. Mas ele absorveu a posição cultural geral de que, ao maximizar seus lucros, está de alguma forma prejudicando seus semelhantes. Como resultado, para acalmar sua consciência, ele deliberadamente toma ações que irão diminuir seus lucros — não eliminá-los completamente, mas diminuí-los do que ele considera ser uma altura “extrema” ou mesmo “inescrupulosa”.

O empresário então lê Mises ou algum outro economista ou jornalista radicalmente de livre mercado. Ele aprende, para seu espanto e alívio, que quanto maior o valor de seus lucros, mais ele ajuda os consumidores, a sociedade como um todo e seus semelhantes. Felizmente, ele se livra da culpa que o atormentava e muda suas ações para se envolver em uma maximização de lucros feliz e que aprimora o bem-estar.

Certamente, esse não é um caso estranho e mostra por que é melhor lançar luz, substituir a ignorância pelo conhecimento e, assim, mostrar ao empreendedor todas as consequências previsíveis de suas ações. Suas ações agora serão ajustadas ao fato de que todas as suas consequências são conscientes e intencionais. Não só não há nada de errado com esse processo, mas a vida do empreendedor e da sociedade será melhorada. Apesar de Hayek ao contrário, o conhecimento continua a ser melhor do que a ignorância.50

E, finalmente, há outro ponto de vital importância, que remete ao argumento sobre como uma economia de troca, a economia de livre mercado, precisa ser estabelecida e sustentada. Pois espalhar o conhecimento das consequências felizes, embora não intencionadas, de suas ações pode não apenas alterar as ações de consequências não intencionadas; elas podem imbuir a massa do público, independentemente de sua ocupação, com uma apreciação dos enormes benefícios do trabalho da rede de livre mercado em toda a sociedade e das horrendas consequências da interferência do governo nessa teia da economia de livre mercado. Educar para fazer com que as consequências atualmente não intencionadas sejam intencionadas pode muito bem ser o único caminho possível para a salvação da humanidade. A verdade, o entendimento, a razão são certamente o caminho para salvar o livre mercado, não exortando à submissão cega a regras que podem nem mesmo ser apropriadas a uma economia de mercado.

Outro grave problema com a doutrina hayekiana é que o conceito de design de ordem espontânea não apenas exalta regras cegas e ação inconsciente na economia de mercado; também deixa o Estado fora de perigo. Pois essa ênfase significa que não apenas as ações de mercado com consequências benéficas, mas também as ações do Estado com consequências maléficas são igualmente inconscientes. Isso significa que as ações do Estado, em vez de serem o resultado de um lobby consciente e da busca de subsídios e de privilégios especiais, simplesmente cresceram “espontaneamente”, como Topsy. Ninguém é culpado pelas ações do Estado: sem motivos, sem objetivos, sem lobby, sem exploração egoísta dos contribuintes ou dos concorrentes. Assim como John R. Seeley, em sua apologética do Império Britânico, afirmou que não se expandiu conscientemente, mas apenas “em um ataque de ausência da mente”, assim a mentalidade hayekiana, aplicada à ação do Estado, remove a culpa ou mesmo o entendimento da análise do processo histórico.

Deixar o mal fora do gancho foi de fato a origem das consequências não intencionadas acalentadas de Hayek, ou o conceito de design de ação humana-não-humana. Hayek aponta que Adam Ferguson, sociólogo e velho amigo e colega de Adam Smith no Iluminismo escocês do século XVIII, cunhou o conceito “o resultado de uma ação humana, mas não a execução de qualquer design humano”.51 O que Hayek não nos diz, entretanto, é que Ferguson não empregou originalmente o conceito para analisar o mercado, ou a linguagem, ou qualquer processo social semelhante. Como um jovem ministro presbiteriano, Ferguson, junto com seu amigo, o reverendo Alexander Carlyle, estava se recuperando do choque do quase triunfo do levante jacobita católico de 1745, no qual os jacobitas conquistaram a Escócia e foram finalmente derrotados pelas tropas hanoverianas no norte da Inglaterra. Ferguson e os outros foram confrontados com este grave problema teológico: como Deus poderia permitir que os malignos católicos chegassem tão perto do triunfo? Eles concluíram que, embora os católicos, é claro, fossem conscientemente maus, perseguindo objetivos malignos, eles estavam inconscientemente sendo usados por Deus para seus próprios bons propósitos: a saber, sacudir a Igreja Presbiteriana da Escócia — a Igreja de Deus — de sua letargia, e para renovar sua devoção aos seus verdadeiros propósitos. Em suma, todos os eventos da história humana, mesmo que aparentemente motivados pelo mal, estão todos inconscientemente trabalhando em direção ao bem. Do mal aparente, o bem: esse é o plano Providencial de Deus. Essa doutrina verdadeiramente perigosa leva direto, é claro, à Teoria Whig da História: que tudo o que é, é certo; e o que era, estava certo. Tudo na história caminha para o bem, é progressivo; não pode haver mau ou caminho errado na história.52

Resumindo: Hayek retorna, com uma explosão, à teoria Whig da história e a um conservadorismo que justifica todas as instituições como “evoluídas”, como parte de algum padrão presumivelmente benéfico, embora Deus agora tenha saído de cena. Não apenas Hayek foi profundamente influenciado por Ferguson; o mesmo aconteceu com um jovem estudante de graduação em filosofia na Universidade de Tübingen, G.W.F. Hegel e seus colegas. Hegel sistematizou o insight de Ferguson em sua “dialética”, pela qual a história, por meio da astúcia da razão [em inglês, cunning of reason], move-se inexoravelmente de acordo com seu plano divino: sempre trazendo o bem e um estágio superior, do mal aparente e do conflito. Karl Marx, como um hegeliano de esquerda, iria ateizar essa dialética. Hayek está em uma companhia estranha, e não particularmente sábia.53, 54

Em seu contraste incisivo do “racionalismo social” de Mises com a ênfase irracionalista de Hayek na “ordem espontânea”, o Professor Salerno enfaticamente aponta que, na visão misesiana, o homem não pode contar com consequências espontâneas “não intencionadas” para uma mudança social bem-sucedida. Pelo contrário, se os homens falharem em entender racionalmente as consequências destrutivas da intervenção do Estado, ou seja, se falharem em entender a beneficência da economia de livre mercado, é provável que destruam o oecumene, destruam o capitalismo e devolvam a economia à pobreza e à barbárie. A divisão do trabalho e a prosperidade humana, então, necessariamente dependem da adoção pelo público da ideologia do laissez-faire. Se eles adotam o intervencionismo, por outro lado, o resultante “desajustamento social, que é inspirado por ideologias falaciosas, carrega em seu rastro a possibilidade de desintegração social e é mais provável quanto maior o grau em que as consequências das ações humanas são não intencionadas, ou, para usar o termo de Mises, “involuntárias”. Salerno continua, seguindo Mises, que “na medida em que as normas sociais, políticas e instituições são ‘não planejadas’, não são completa e corretamente pensadas com antecedência e explicadas em uma ideologia logicamente consistente, nessa medida faz a existência continuada da sociedade se tornar problemática”. Mas então, “se a desintegração social pode ocorrer ‘espontaneamente’, devido a uma ignorância das consequências mais remotas da ação social, o progresso social só pode ser assegurado pela adoção generalizada de uma ideologia da vida social que consciente e corretamente explica essas consequências. Essa ideologia é o liberalismo [laissez-faire]”.55

A ação ignorante e “espontânea”, então, é muito mais provável que seja como a destruição de uma ótima porcelana por uma criança ou um selvagem do que forneça uma economia de mercado benéfica e próspera. Contrastando diretamente Mises e Hayek, Salerno conclui que

 

a visão racionalista [misesiana] da evolução social, portanto, não é de uma melhoria plácida e automática assegurada por consequências “não intencionadas”, instituições “não planejadas”, conhecimento “tácito” e “seleção natural” de regras de conduta. O racionalismo social implica, em vez disso, que a história humana é o resultado de um conflito entre ideologias, que são conscientemente formuladas e adotadas por seres humanos racionais. Se uma época é caracterizada por progresso social, retrocesso social ou mesmo desintegração social depende de quais ideologias particulares se tornaram atuais e quais indivíduos atingiram “poder” ideológico definido como “o poder de influenciar as escolhas e a conduta de outras pessoas”.56

 

Parece que o caso mais plausível para a teoria espontânea, anti-design e anti-racional da vida social de Hayek é o advento e o desenvolvimento da linguagem. Certamente, a linguagem, pelo menos, cresceu como Topsy, e não foi criada racionalmente? Mas, em um ensaio instrutivo, David Gordon mostrou que pesquisas recentes têm plausivelmente ressuscitado a visão iluminista do século XVIII de Condillac, bem como de Thomas Reid e Lord Monboddo, que a linguagem foi criada conscientemente, por meio de gestos, e, acrescenta Gordon, esse gesto foi reforçado por jogos. Gordon também aponta que a visão iluminista foi tirada de circulação pelos românticos alemães, liderados por Johann Christian Herder, que estavam preocupados em estabelecer sua visão bizarra de que o alemão é a língua “mais elevada”, sustentando que só poderia ter surgido da alma alemã inefável, inconsciente e nobre.57, 58

Salerno também acrescenta o ponto importante tirado de Mises de que mesmo a linguagem contém um importante componente ideológico e, portanto, consciente. Salerno cita o Theory and History de Mises que a linguagem é “o precipitado das controvérsias ideológicas de um povo, de suas idéias sobre questões de puro conhecimento e religião, instituições legais, organizações políticas e atividades econômicas […] Ao aprender seu significado, a nova geração é iniciada no ambiente mental em que tem de viver e trabalhar. Esse significado das várias palavras está em fluxo contínuo em resposta às mudanças nas idéias e condições”. Algumas línguas inteiras, notavelmente o gaélico moderno e o hebraico secular, foram até criações e recriações deliberadas por vontade e determinação ideológica.59

É instrutivo contrastar as voltas e reviravoltas do erro e da falácia no conceito de consequências não intencionadas de Hayek, incluindo seu hino à ação ignorante e inconsciente, com a ênfase superficialmente semelhante, mas muito diferente, de Mises nas consequências remotas ou inobserváveis da ação humana. Pois, ao invés da confiança de Hayek na espontaneidade, ou glorificação da ação inconsciente e suas consequências não intencionadas, Mises estava urgentemente preocupado em fazer com que todos compreendessem e entendessem as consequências remotas e inobserváveis de suas ações, uma compreensão que eles só podem alcançar por meio da razão, nesse caso, por raciocínio praxeológico.

Assim, o economista misesiano Henry Hazlitt, em seu best-seller Economics in One Lesson, torna “A Falácia da Janela Quebrada”, de Frédéric Bastiat, a peça central de seu livro.60 Um garoto desagradável atira uma pedra e quebra uma janela. A reação imediata do senso comum é que os espectadores deplorem a ação do garoto e lamentem o fato de o lojista agora ter de pagar uma quantia considerável para consertar a janela. Mas então vem o proto-keynesiano, o profissional de falácias da janela quebrada, o sofisticado de segundo nível que zomba do rebanho comum. “Não, não, você não entende”, ele proclama: “a ação daquele garoto é muito boa para a economia, porque o lojista agora vai gastar dinheiro com o vidreiro para consertar a janela, dando emprego aos vidreiros e estimulando a economia. A visão do senso comum, como sempre, está errada”. Mas então o economista, o economista Mises-Hazlitt-Bastiat, entra em cena e refuta o profissional de falácias da janela quebrada. “Não, esse idiota só vê o dinheiro que o lojista gasta no vidraceiro. Mas o que ele não vê é muito mais importante: o dinheiro que o lojista teria gasto se não tivesse sofrido prejuízo em sua propriedade, seja em bens de consumo, seja na expansão de seus negócios. Esse estímulo inobservável é perdido. Então: o lojista está pior por causa da ação do garoto, e a economia e a sociedade sofrem”. O senso comum é defendido pelo economista de visão de terceiro nível. Como em tantas áreas da economia política, vemos uma aliança em nome da verdade do membro de senso comum do público com o economista genuíno, unindo-se contra os sofismas do pseudo-intelectual e pseudo-economista de segundo nível.

Macroeconomia Não-Misesiana: Dinheiro Genuíno ou Falsificação?

O professor Erich Streissler, em sua discussão sobre as contribuições de Menger e seus alunos, enfatizou corretamente que essas eram em grande parte na microeconomia. Mas então ele acrescentou que Menger “legou para sua escola um horror peculiar de conceitos macroconômicos”. Comentando sobre artigo de Streissler, o Professor Robert Hébert apropriadamente questionou Streissler, apontando em particular para Ludwig von Mises como o criador de uma forma peculiarmente austríaca de macroeconomia, construindo conceitos macro sobre micro fundações individualistas. Em particular, Mises integrou a teoria monetária e a teoria do valor do dinheiro na utilidade marginal micro, bem como na teoria da oferta e demanda.61 Hébert poderia ter acrescentado que Mises então se baseou nessa teoria monetária para forjar sua magistral teoria dos ciclos econômicos. Em seus primeiros anos, Hayek (ou primeiro Hayek), elaborou a teoria dos ciclos de Mises, em um trabalho que mais tarde lhe rendeu o Nobel.62 Certamente, não existem campos que agora seriam considerados mais “macro” do que a teoria monetária e a dos ciclos econômicos.63 E ainda, o segundo Hayek passou pouquíssimo tempo nessa área, e os hayekianos e os lachmannianos nenhum. Kirzner passa todo o seu tempo em micro e não dedica nenhum à área macro. O mesmo é verdade para todos os seguidores de Lachmann, que não se preocuparam tanto em refutar a teoria monetária ou dos ciclos econômicos de Mises, mas pararam de se referir a ela ou de lidar com ela.

Os únicos austríacos que lidaram com a teoria do dinheiro ou dos ciclos econômicos, de fato, foram misesianos: entre eles, nas décadas de 1920 e 1930, primeiro Hayek, Fritz Machlup, Gottfried Haberler e Lionel Robbins e, nos anos desde a Segunda Guerra Mundial, Hazlitt, Salerno, Hoppe, Walter Block e o presente autor. A “honra” dos conceitos macroeconômicos, na verdade, aplica-se apenas aos vários não-misesianos, que não possuem macro teoria de qualquer tipo.64

Há uma exceção infeliz a essa regra. Em 1976, depois que Hayek sucumbiu ao húbris ao ganhar o Prêmio Nobel, ele abriu a caixa de Pandora da fanfarronice ao oferecer um esquema bizarro para moedas-correntes privadas concorrentes.65 O único ponto comum com a visão de dinheiro de seu mestre Mises era estritamente político: ambos se opunham ao controle do Banco Central da oferta de dinheiro. Mas, além disso, Hayek violou a regra para a teoria monetária válida que ele próprio esboçou como primeiro Hayek: que precisa, como a teoria de Mises, ser deduzida de, e portanto integrada com, uma teoria micro geral sólida.66 Em vez disso, a doutrina de Hayek foi totalmente separada da teoria econômica geral e também da teoria monetária de Mises.

O esquema de Hayek de indivíduos ou bancos privados emitindo suas próprias moedas-correntes — um esquema que ele mesmo, em momentos mais sóbrios, teria descartado como absurdamente “construtivista” — não foi tanto adotado quanto servir de inspiração ou ponto de partida para outros esquemas de loucuras monetárias, que proliferaram desde então. Eles variam de moedas-correntes privadas a esquemas para bancos privados inflando livremente o crédito em cima das reservas moeda-corrente de ouro. Como essas propostas têm se multiplicado, no entanto, o ouro inevitavelmente caiu ou foi empurrado para fora de cena. Planos posteriores variam de bancos inflando notas ou depósitos em cima das notas do Federal Reserve, mesmo após o Fed ter sido abolido; ouro sendo uma mera sombra ajudando a sustentar o sistema; e, finalmente, esquemas em que os bancos compensam as notas uns dos outros indefinidamente, sem possibilidade do público pobre ser capaz de resgatar seu dinheiro do banco. Finalmente, o dinheiro padrão ou de “alto poder” desaparece completamente, e os bancos inflacionários apenas resgatam suas notas e depósitos nas notas igualmente falsas e nos depósitos de outros bancos inflacionários”.67,68

A loucura monetária é um fenômeno comum nos últimos dois séculos e, como pode atestar todo professor de dinheiro e de negócios bancários que recebeu cartas extensas e apaixonadas sobre o assunto escritas a giz de cera, ela sempre envolve esquemas para a expansão radical da oferta de dinheiro. A inflação monetária proposta pode ser governamental ou, se proposta por pessoas com tendências libertárias, pode ser privada. Economicamente, não faz diferença real, exceto que capacitar cada pessoa a imprimir o máximo de dinheiro possível traria um desastre hiperinflacionário ainda mais rápido.

A primeira grande falácia e afastamento da doutrina misesiana, cometida por muitos desses esquemas, não menos por Hayek, é ignorar o fundamental Teorema da Regressão, que Mises construiu como uma lei lógica sobre o insight histórico de Carl Menger. Para funcionar como um dinheiro, uma entidade precisa ter surgido no livre mercado a partir da troca, como uma mercadoria particularmente comerciável selecionada no mercado como um meio para virtualmente todas as trocas.69 Nada pode ser originalmente adotado como dinheiro por decreto do governo ou por algum tipo de contrato social; precisa originar-se como um fenômeno estritamente de mercado. Nada pode ser adotado como dinheiro, como meio de troca, a menos que tenha um poder de compra pré-existente como um bem não monetário. Mesmo se Hayek tivesse permissão para emitir suas propostas de bilhetes privados chamados ducados resgatáveis em nada além de outros ducados — o que eu acho que ele deveria legalmente ser permitido a fazer — ninguém aceitaria como dinheiro. Teria apenas um valor severamente limitado como curiosidade, mais um monumento à loucura do homem. Todos os novos planos de moeda-corrente, privadas ou públicas, cometem a mesma falácia grave.

O outro grupo de planos — que constrói esquemas de sistema bancário privado sobre moedas-correntes existentes — pelo menos não viola o Teorema da Regressão. Em vez disso, eles dão um passo além do que o Estado tem dado nos últimos séculos: constroem sobre o dinheiro em ouro pré-existente, eventualmente convertendo bilhetes de papel antes resgatáveis em ouro em seus próprios padrões fiduciários. Infelizmente, como o Teorema da Regressão deixa claro, uma vez que um bilhete de papel ganhou aceitação de mercado pegando carona no ouro como um bilhete resgatável, o governo pode usar seus poderes coercitivos para manter o papel em jogo indefinidamente como dinheiro fiduciário irresgatável. O segundo grupo de planos pseudo-austríacos propõe a construção de esquemas inflacionários de sistema bancário privado sobre a fiat-de-papel existente, eventualmente até mesmo se livrando do dinheiro-de-papel padrão.

À parte do Teorema da Regressão, ambos os conjuntos de esquemas instituiriam desastres em grande escala. Existem dois conjuntos de falácias cometidos por todas essas propostas. Com base nos insights dos ricardianos e da Currency School, bem como na teoria monetária continental desde os escolásticos, Mises demonstrou que, dada a existência de dinheiro na economia, toda oferta de dinheiro é ótima. Em suma, embora o valor, ou poder de compra, do dinheiro seja, como todos os outros bens ou serviços, determinado por sua oferta e demanda, há uma diferença crucial entre o dinheiro e todos os outros bens. Todos os outros bens e serviços, sejam bens de consumo ou de produção ou recursos, ajudam a aliviar a escassez natural; portanto, outras coisas sendo iguais, qualquer aumento nesses bens é um benefício social líquido, reduzindo a escassez natural. Mas isso não é verdade para o dinheiro, uma vez que a única função do dinheiro é facilitar a troca, fornecer um meio geral de troca e, consequentemente, uma unidade de cálculo econômico. Mas o dinheiro desempenha essa função de maneira ideal e completa, independentemente da oferta disponível. Um aumento na quantidade de dinheiro não pode aliviar a escassez e não pode fornecer um benefício social: poderia apenas diluir o poder de compra de cada unidade monetária. Um aumento na oferta só pode diluir a eficácia de troca de cada dólar ou franco ou o que quer que seja a unidade monetária.

Qualquer esquema para inflar a oferta de dinheiro, seja privado ou público, só pode redistribuir renda e riqueza, paralisar ou destruir a unidade de cálculo indispensável a uma economia moderna, enfraquecer os incentivos para poupar e geralmente paralisar e eventualmente destruir o sistema econômico.70 O eventual fim é a hiperinflação e o desastre econômico.

O segundo problema básico é político-econômico. Qualquer economia de livre mercado precisa necessariamente se apoiar na devoção à santidade da propriedade privada. É óbvio que o roubo ou a fraude desenfreados só podem prejudicar gravemente os direitos de propriedade e a economia próspera e livre que deles emerge. Para uma sociedade livre sobreviver e florescer, os direitos de propriedade precisam ser defendidos. A maior parte dessa defesa precisa ocorrer pela incorporação do valor supremo dos direitos de propriedade aos sistemas de valores da ampla massa do público. Isso só pode ser realizado e sustentado quando a opinião e os grupos de moldagem de valores e instituições na sociedade: notadamente, intelectuais, acadêmicos, mídia e igrejas — sustentam e promovem esse sistema de valores. Quando eles sistematicamente falham em fazê-lo, como vimos com muita clareza neste século, todos nós enfrentamos sérios problemas. A linha de frente da defesa contra o que geralmente deveria ser uma minoria de violadores de propriedade são as instituições específicas da lei, polícia e tribunais. Independentemente de como essas instituições são constituídas e financiadas, sua função de defesa ou proteção é extremamente importante.

Os libertários, em seu zelo pela privatização das funções governamentais, tendem a esquecer uma verdade vital: que algumas funções do governo, como o Internal Revenue Service ou o fornecimento de campos de concentração para dissidentes, merecem ser abolidas em vez de privatizadas. Dito de outra forma: não devemos esquecer que o governo não é a única organização que pode e comete crimes. Pessoas e organizações privadas, e não apenas governos, podem e cometem roubos, agressões, sequestros e assassinatos. Não devemos esquecer que nem toda ação privada merece nossa bênção acrítica. A relevância dessa verdade aparentemente evidente é que entre os crimes cometidos por pessoas privadas estão fraude, peculato e muitas formas de furto. Uma dessas formas é a contrafação, ou falsificação, em que o roubo é cometido pelo contrafador ou falsificador que corrompe o mercado ao fazer de conta com uma falsificação como a coisa verdadeira.

A falsificação de obras de arte despoja os compradores e proprietários da arte, bem como o pintor ou seus bens e os proprietários do artigo genuíno. Mas a falsificação de dinheiro causa estragos mais gerais. Em uma sociedade onde o ouro é a única forma de dinheiro, uma pessoa pode adquirir ouro apenas de três maneiras: (a) vendendo um bem ou serviço em troca de uma parte do estoque de ouro existente; (b) receber ouro como um presente de caridade ou herança; e (c) extração de ouro novo do solo. Todas essas são formas produtivas de obter ouro, seja por meio de troca, nova produção de ouro ou alguém recebendo um presente ou herança concedida por outra pessoa. Mas a falsificação, por exemplo, vestir um metal comum para parecer ouro, despoja não apenas o vendedor em particular, mas toda a economia de mercado. O falsificador, enquanto seu crime não for detectado, é capaz de extrair renda e riqueza não adquiridas dos produtores sem seu conhecimento, de explorar os produtores em seu benefício e de diminuir o poder de compra da unidade de ouro para todos na sociedade. Mas, pelo menos, há esperança, quando a falsificação é ilegal, de que ela será descoberta e erradicada e os culpados detidos e parados.

Mas quando o governo ou sua criatura, o Banco Central, se torna o falsificador legalizado, a falsificação não só é totalmente detectada, mas também é afiançado pela opinião pública, muitas vezes guiada e moldada pelos próprios falsificadores, como sábia política econômica. Então, não há como vigiar os vigias, e o falsificador fica solto para atacar a sociedade e inflacionar à vontade. O resultado será um processo contínuo e até acelerado da inflação monetária e, portanto, dos preços.

Esse é aproximadamente o curso da história monetária moderna, particularmente no século XX — uma história de estatismo e taxas voláteis de degradação da unidade monetária corrente pelos falsificadores legalizados. O resultado é uma verdadeira e cada vez mais caótica Era da Inflação. O que é preciso desesperadamente é abolir a falsificação. Essa foi a proposta decorrente do insight de Mises sobre os efeitos inevitavelmente destrutivos do papel-moeda e do banco de reservas fracionárias. Em vez disso, o que nossos economistas pseudo-austríacos propõem não é abolir a falsificação, mas privatizá-la — abrir o processo de falsificação à “livre” competição privada.

Uma das citações favoritas de Mises sobre dinheiro e serviços bancários foi de Thomas Tooke: “O livre comércio no setor bancário é equivalente ao livre comércio na fraude”. Tooke e Mises, é claro, estavam se referindo ao sistema bancário de reserva fracionária, no qual os bancos se comprometem a resgatar recibos sob demanda com dinheiro inexistente em seus cofres. Essas notas ou depósitos bancários são tão falsificados quanto recibos de depósito para grãos inexistentes, recibos falsos que parecem genuínos recibos de depósito para grãos, que foram emprestados por silos até as últimas décadas — até, isto é, a prática da emissão de reserva fracionária de recibos em grãos, for proibida e reprimida.

Os campeões da livre concorrência na falsificação replicam que esse é simplesmente o mercado em ação, que o mercado registra uma “demanda” por crédito mais expandido e que os banqueiros privados, esses empreendedores kirznerianos, estão simplesmente “perspicazes” a essas demandas do mercado. Bem, é claro que sempre há uma “demanda” por fraude e peculato no “mercado”, e sempre haverá muitos vigaristas “perspicazes” que estão ansiosos e dispostos a fornecer uma oferta desses itens. Mas se definirmos o “mercado” não simplesmente como uma oferta de bens e serviços desejados, mas como uma oferta de tais bens dentro de um framework de direitos de propriedade invioláveis, veremos um quadro muito diferente. Parafraseando William Graham Sumner, quando A oferta para B um bem ou serviço, essa é uma transação de mercado genuína e irrepreensível. A está ofertando o que B demanda. Mas quando A e B se juntam para enganar C, D e E, isso é um cavalo de uma cor muito diferente, e certamente não é uma transação de mercado no mesmo sentido voluntário.

Seguindo uma sugestão perspicaz do Dr. David Gordon, vamos examinar um tipo ligeiramente diferente de banco de reservas fracionárias. Em vez de emitir depósitos ou notas que funcionam como recibos de armazém falsificados para espécie, vamos supor que esses bancos realmente imprimam notas de dólar feitas para parecer o artigo genuíno, repletas de assinaturas forjadas pelo Tesoureiro dos Estados Unidos. Os bancos imprimem essas notas e as emprestam a juros. Se eles forem criticados pelo que todos admitiriam ser contrafação e falsificação, por que esses bancos não podem responder da seguinte forma: “Bem, veja, temos reservas de espécie genuínas e não falsificadas de 10% em nossos cofres. Contanto que as pessoas estejam dispostas a confiar em nós e aceitar essas notas como equivalentes à espécie genuína, o que há de errado nisso? Estamos apenas envolvidos em uma transação de mercado, nem mais nem menos do que qualquer outro banco de reserva fracionária”. E o que há de errado na afirmação de que não pode ser aplicada a nenhum caso de banco de reservas fracionárias? Se a falsificação per se é deplorável e tem de ser banida, então os mesmos padrões precisam ser aplicados ao seu substituto, banco de reserva fracionária, que é atualmente legal e que correria desenfreado no paraíso do “free banking” de nossos pseudo-austríacos não-misesianos. Por outro lado, esses free bankers precisam então estar dispostos a aceitar a legalidade de cada pessoa e cada banco emitindo contrafações ou falsificações descaradas e simplesmente imprimindo notas de dólar de papel, o que não seria ilegal se alguma “reserva” ou outra em notas genuínas fosse realmente mantida. E se os free bankers precisam estar dispostos a aceitar a falsificação “gratuita” de notas de dólar, então também precisam estar dispostos a endossar suas consequências imediatas na inflação descontrolada.

A política monetária é evidentemente um campo estranho, pois é uma área em que ninguém, desde os escritores de cartas a lápis até F.A. Hayek, parece ter medo de se envolver em voos da fantasia utópica, ou o que Hayek normalmente ridicularizaria como “construtivismo”. Então, eu poderia muito bem fazer o mesmo, com a importante diferença de que minha proposta está dentro dos limites estritos de direitos de propriedade, de dinheiro-mercadoria de mercado genuíno e da teoria monetária de Mises.

Ludwig von Mises viu que, uma vez que várias mercadorias comerciáveis são escolhidas no mercado para serem meios de troca e, em seguida, para serem meios de troca gerais denominados “dinheiro”, há uma tendência inexorável de mercado para que um dinheiro-mercadoria ganhe em cada sociedade. Em todas as sociedades onde estavam disponíveis, o ouro e a prata logo se tornaram as únicas mercadorias que sobreviveram como dinheiro, com a prata relativamente mais abundante usada como moedas para transações menores e as moedas de ouro relativamente raras para transações maiores. Em cada sociedade e país, moedas de ouro e de prata circulavam em várias unidades de peso determinadas pelo mercado; geralmente, a unidade de conta, a unidade usada para calcular contas de negócios, lucros ou ativos, bem como a renda das pessoas, era o peso do ouro ou da prata, conforme denominado na língua de cada país. À medida que os países proliferavam e se descobriam, as moedas de ouro e de prata dos vários países tendiam a ser trocadas de acordo com seu conteúdo de metais preciosos, por exemplo, se o dólar dos EUA fosse definido como 1/20 de uma onça de ouro e o franco francês como 1/100 de uma onça de ouro, então a “taxa de troca” de dólares para francos seria naturalmente a razão de seus respectivos pesos: cinco francos para um dólar. As proporções de ouro e de prata, por outro lado, tenderiam a ser definidas no mercado na proporção atual do poder de compra do ouro e da prata, conforme determinado pelas ofertas e demandas dos dois metais.

Ao longo dos séculos, no entanto, os governos interferiram e paralisaram o processo natural em direção ao dinheiro metálico internacional. Os governos tomaram o posto de comando da economia nacionalizando a função de cunhagem de moedas e, em seguida, facilitaram sua própria degradação dos padrões de peso das moedas, mudando a ênfase da unidade de peso do ouro ou da prata para o tale, ou o próprio nome. Ao mudar a unidade monetária de, digamos, o dólar como 1/20 de uma onça de ouro para o próprio dólar, o governo poderia degradar repetidamente, ou aliviar, os pesos de ouro da moeda-corrente. A “libra esterlina” inglesa, como seu nome indica, costumava valer, na verdade costumava ser definida como, o peso de uma libra de prata; agora foi degradado para aproximadamente meia onça de prata. Quase tão destrutiva e facilitadora dos processos de aviltamento, foi a insistência da maioria dos governos em fixar a taxa de troca, ou seja, o preço da prata e do ouro, ou seja, instituindo o “bimetalismo”. Essa razão bimetálica fixa, geralmente definida inicialmente pela razão determinada pelos preços do mercado mundial, inevitavelmente se afastou mais fortemente com o passar do tempo. A Lei de Gresham entrou em vigor e causou escassez repentina do metal artificialmente subvalorizado, juntamente com influxos e excedentes do metal artificialmente sobrevalorizado. Em um mercado verdadeiramente livre, o governo não fixaria as taxas de troca, mas permitiria que países e sociedades em todo o mercado selecionassem meios de troca e unidades de conta: isso é o que se chama de “padrões paralelos” de ouro, de prata e de possivelmente outros metais, e o que também foi chamado de “metalismo livre”.71

Um verdadeiro livre mercado de dinheiro, então, permitiria ao mercado selecionar quaisquer metais que desejasse como meio de troca e unidades de conta, sem que o governo tentasse fixar as taxas de troca entre eles.72

Mas seria de se esperar que o livre mercado mundial, a poderosa rede de troca voluntária que Mises chamou de oecumene, se irrestrito e com sua cabeça, move-se eventualmente em direção a um metal monetário.73 E, quer se trate de um ou de dois metais, as unidades monetárias correntes acabariam por transcender os nomes independentes ou quase independentes dados pelos estados, para formar uma unidade mundial de unidades simples de peso. O mundo inteiro, poderíamos esperar, à medida que a interferência do Estado no mercado oecumene desaparece, falará e calculará não mais em “dólares” ou “francos” ou “marcos”, mas apenas em onças de ouro ou gramas de ouro. Esse tipo de mundo era, de fato, o sonho alcançável de muitos economistas e estadistas do século XIX, o século clássico do padrão-ouro. Em uma série de conferências monetárias internacionais, que contrastaram com as do século XX por não buscar mais controle monetário governamental global, mas uma maior expressão de um livre mercado unificado, houve tentativas de atingir esse objetivo. A ideia era primeiro ajustar ligeiramente as taxas de trocas existentes para torná-las múltiplas umas das outras, facilitando a eliminação de nomes e um uso crescente de unidades explícitas de peso do ouro em todos os países. Infelizmente, o debatido problema da prata obstruiu qualquer acordo, até que, é claro, a Primeira Guerra Mundial varreu qualquer busca por um genuíno dinheiro metálico internacional.74

Desde a Primeira Guerra Mundial, infelizmente, a busca pela cooperação inter bancos centrais, pela coordenação monetária internacional, tem sido uma busca por uma forma de internacionalismo monetário diametralmente oposto ao impulso do século XIX. Em vez de uma busca por um dinheiro mundial não controlado e desimpedido por qualquer Estado, vemos repetidas tentativas de alcançar uma forma de inflação de papel coordenada por um governo mundial. O sonho keynesiano final está se aproximando cada vez mais: estabelecer um governo econômico mundial com um Banco Mundial de Reserva emitindo um novo papel-moeda mundial a ser chamado de bancor à maneira de Keynes, de unita à maneira de Harry Dexter White, de phoenix à maneira do Economista de Londres, ou o que quer que seja. Então, todas as nações do mundo acreditam que podem inflacionar juntas, mantendo as taxas de trocas fixas e também evitando o tipo de crise de reserva monetária que derrubou o falso padrão “ouro” administrado pelos britânicos no final dos anos 1920, bem como o falso Sistema de Bretton Woods manchado de “ouro” após a Segunda Guerra Mundial. Então, não haverá nada para impedir o andamento suave da inflação mundial — até, é claro, o mercado tirar de jogo o papel-moeda mundial em depreciação e o mundo passar pelo terrível holocausto de uma inflação galopante mundial.

Mas vamos voltar desse cenário terrível para o meu projetado e esperado livre mercado mundial, a oecumene interconectada e próspera. Podemos projetar o que acontecerá a esse mercado se ele puder evoluir sem distorção ou interferência governamental. Podemos projetar, então, uma futura economia mundial livre, usando apenas dinheiro metálico, com o mundo inteiro usando uma unidade de peso de ouro como dinheiro, tanto como meio de troca quanto como unidade de conta. Todos os cálculos ocorrerão em termos de onças ou gramas de ouro, que não podem constituir o estoque mundial de dinheiro. É possível que a prata continuará a ser um dinheiro metálico para transações de menor denominação, mas podemos imaginar que a busca do mercado por eficiência acabará levando a um dinheiro metálico. O dinheiro será então totalmente privado, sem intrusão do governo, pois o ouro será extraído e cunhado por empresas privadas. (Não há razão para supor que apenas o governo está qualificado para cunhar moedas. Na verdade, considerando seu histórico de degradação contínua, o governo quase não está qualificado para cunhar moedas.)

Um “livre mercado” também significa nenhuma interferência do governo na economia. Significa que os indivíduos e empresas privadas são livres para ganhar dinheiro e lucros, e também para perder. Não pode haver liberdade genuína de escolher sem uma liberdade corolária de perder. Nenhuma empresa pode ser considerada “grande demais para falir”. E assim, um livre mercado de dinheiro significa necessariamente a abolição do banco central e do chamado “seguro” de depósito. Os bancos precisam estar livres para falir.

De fato, um “livre mercado” implica necessariamente total respeito e proteção da propriedade privada. Mas isso significa que os direitos de propriedade privada precisam sempre ser preservados. Isso implica não apenas na repressão ao assalto e ao assassinato, mas também a todas as formas de roubo e fraude, incluindo a falsificação. A contrafação precisa ser processada integralmente pela lei e, mais do que isso, precisa ser desprezada e condenada pela opinião pública. Como defensor de um banco de reserva 100%, de garantia total em ouro para todas as notas e depósitos bancários, reconheço que seria difícil para o governo policiar os bancos, pois os bancos são notavelmente engenhosos em descobrir maneiras de contornar as regulamentações governamentais. O sistema bancário cem por cento precisa ser imposto, não por regulamentos administrativos, mas pelo sistema legal. Embora os bisbilhoteiros investigativos possam localizar recibos de depósito falsificados, seria muito mais simples e eficaz reprimir imediata e totalmente qualquer falha de um banco no pagamento integral sob demanda. Em primeiro lugar, como os jacksonianos queriam, mas nunca conseguiram passar pelo Congresso dominado pelos Whig no final dos anos 1830, ao primeiro sinal de tal falta de pagamento, o banco precisa ser declarado insolvente e seus ativos liquidados. Mas, em segundo lugar, esses banqueiros de reservas fracionárias precisam ser tratados não como meros empreendedores que tomaram decisões comerciais infelizes, mas como falsificadores e estelionatários que deveriam ser reprimidos pela plena majestade da lei. O reembolso forçado a todas as vítimas, acrescido de penas de prisão substanciais, deve servir de dissuasão, bem como de punir essa atividade criminosa.

Eu imagino o mundo de livre mercado do futuro, então, como um mundo de dinheiro mundial puramente metálico. Aumentos de dinheiro bancário não serão tolerados e serão tratados como falsificação e invasão de direitos de propriedade que realmente são. A oferta de dinheiro, então, crescerá apenas lentamente, concomitante com o crescimento lento do estoque de ouro mundial. O flagelo da inflação será finalmente retirado do mundo; os preços cairão, e quanto mais produtiva for a economia e quanto maior for o aumento na oferta de bens, mais os preços cairão, o custo de vida diminuirá e maior será o aumento do padrão de vida para todos. E sem o sistema bancário de reservas fracionárias, não haverá mais booms e busts, não haverá mais terríveis maus investimentos, distorções e choques de euforia e angústia causados pelos ciclos econômicos. O investimento será limitado a poupanças voluntárias e, portanto, não haverá surtos periódicos de investimentos inadequados que terão de ser liquidados pela recessão. A oecumene mundial será finalmente garantida pelo dinheiro necessário para a liberdade: um dinheiro metálico, produzido pelo mercado e cujo valor é decidido totalmente pelo mercado e não pelo governo.

Os consumidores e a economia ficarão incomensuravelmente mais livres e sólidos, e os únicos que perderão com o desenvolvimento dessa oecumene de mercado são os grupos de interesses especiais que se beneficiam da inflação controlada pelo governo e por bancos e que constituem as elites do poder dominante em nossa economia cada vez mais dominada pelo estado.

Epílogo: O Ressurgimento Austríaco Moderno

A breve história da Professora Karen Vaughn do “ressurgimento” austríaco moderno como uma observadora participante é, em primeiro lugar, um relato estritamente tendencioso do ponto de vista hayekiano/lachmanniano. O tratamento de Vaughn é mais uma variante da teoria Whig da história do pensamento, desta vez de uma perspectiva lachmanniana. Sendo caracteristicamente Whig, a história de Vaughn tem de ser ajustada ao molde procustiano de primeiros embaraços, melhorias e, a cada passo do caminho, para a frente e para cima a dentro da luz, começa então, na América pós-Segunda Guerra Mundial, com Mises como o portador admitido da tradição austríaca; a ser melhorada e substituída por Hayek; e, finalmente, ser coroada pela marcha ascendente da niilista lachmannia, de buscas criativas de O’Driscoll e Rizzo e, finalmente, até mesmo o destrucionismo “estreito” de Lachmann superado por vislumbres de uma nova teoria grande e nobre, enfatizando a “evolução biológica” e culminando no trabalho de vários jovens alunos de graduação do Professor Don Lavoie. Em particular, os dois trabalhos citados por Vaughn como abrindo caminho em direção a um grande novo paradigma austríaco consistem em dois artigos publicados no pequeno periódico de Lavoie e agora extinto, Market Process.

A professora Vaughn omite alguns fatos significativos de seu relato deslumbrante. Uma delas é que ela mesma fazia parte do conselho do Centro para o Estudo do Processo de Mercado de Lavoie e, portanto, estava engajada em uma certa quantidade de súplicas especiais.

Em qualquer caso: como nossa neo-austríaca característicamente Whig se saiu em sua tentativa de capturar o processo histórico, sua forma de austrianismo institucionalista? Em suma, quão bem ela previu o futuro austríaco a curto prazo? A resposta é: não muito bem. O artigo da Professora Vaughn foi escrito para uma conferência sobre a tradição austríaca em economia realizada na primavera de 1989. Em menos de quatro anos que se passaram desde então, todo o mundo austríaco mudou dramaticamente. Bem, é um mundo em movimento rápido lá fora, se não exatamente o “caleídico” percebido por Ludwig Lachmann. Desde que seu artigo foi escrito, a Sociedade Lachmanniana de Economia Interpretativa, fundada pelo Professor Lavoie, veio e se foi, o periódico Market Process desapareceu e o Centro para o Estudo do Processo de Mercado praticamente deixou a economia. Minha própria previsão, ouso dizer mais fundamentada do que a da Professora Vaughn, é que, com o falecimento do Professor Lachmann e, mais particularmente, a perda de interesse em economia por sua fonte de financiamento, a lachmannia e as variantes de lavoieanas desaparecerão rapidamente de cena. Não sendo um historiador Whig, esse desenvolvimento não me perturba nem um pouco.75

Voltemos à história do ressurgimento austríaco da Professora Vaughn. Para elogiar os desenvolvimentos posteriores, ela é forçada a menosprezar os anteriores, particularmente a luta nobre de Ludwig von Mises e ainda mais aqueles de nós que continuaram nos caminhos misesianos mais antigos e, portanto, supostamente desacreditados. Parte de sua forma de mitologia Whig é que Hayek precisa ser pintado como muito superior a Mises. Então, temos Mises relutantemente saudado por ter preservado sozinho a Escola Austríaca nos Estados Unidos nas décadas de 1940, 50 e 60. Ela deprecia Mises como um estranho à academia, por não ser capaz de garantir uma posição oficial de ensino por causa de suas “visões anti estatistas francas” e por causa de seu infeliz “estilo enfático”. Ela é forçada a admitir que, enquanto Hayek, quem ela afirma ser “no final das contas […] mais importante na formação do ressurgimento austríaco”, na verdade emigrou para os Estados Unidos na década de 1940 e, embora Hayek lecionasse na mesma época na Universidade de Chicago, era inexplicavelmente “seu colega mais velho, Mises, o responsável por trazer a economia austríaca para a América“.76

O que ela deixa de mencionar, já que isso corrigiria sua depreciação de Mises, é que Hayek também, apesar de seu estilo definitivamente não enfático, não conseguiu encontrar um cargo acadêmico oficial nos Estados Unidos, e que seu salário também foi financiado pelo William Volker Fund, a mesma organização que financiou o cargo de professor de Mises porque “sabia da luta anti estatista [de Mises] que durou toda a vida”. O Fundo Volker financiou a posição de professor de Hayek pelo mesmo motivo.

Além disso, a razão pela qual Hayek não ajudou a desencadear um ressurgimento austríaco nos Estados Unidos, apesar de seus anos como professor em Chicago, é que Hayek não era o tipo de professor que despertava ou inspirava o interesse dos alunos. Hayek foi impedido de lecionar economia na Universidade de Chicago pelo departamento de economia e, por isso, teve que lecionar no Comitê de Pensamento Social, um charmoso departamento de graduação interdisciplinar, mas cujos PhDs, estando fora das linhas de departamentos ortodoxos, não foram exatamente projetados para carreirismo acadêmico. Mas mais importante do que isso: Hayek não tinha personalidade como professor para inspirar alunos ou discípulos. Diferente de Mises, que era infalivelmente charmoso e dedicado a estimular a produtividade entre seus alunos, Hayek era frio e indiferente, respondendo apenas a perguntas específicas feitas a ele por seus alunos de doutorado, e nunca os engajando em conversas ou discussões. Consequentemente, Hayek não ajudou a desencadear um ressurgimento austríaco. Além disso, como Vaughn admite brevemente, Hayek ainda não havia criado seus estudos “evolucionários” e outros estudos filosóficos. Sua primeira alegada obra-prima, The Constitution of Liberty, publicada em 1960, era filosofia política em vez de economia, e era uma filosofia política que não tinha peso propriamente dito, sendo geralmente demolida por críticos austríacos como seu aluno Ronald Hamowy.

Finalmente, Hayek aposentou-se da Universidade de Chicago em 1961, e como Chicago se recusou a pagar-lhe uma pensão por nunca ter pago um salário, Hayek foi forçado a deixar os Estados Unidos e ir para a Alemanha, onde pôde sacar um salário na Universidade de Freiburg. De 1961 em diante, Hayek não residiu mais nos Estados Unidos, e este fato importante, curiosamente omitido do relato de Vaughn, desempenhou um papel importante em Hayek não ser central para o ressurgimento austríaco que Vaughn data da Conferência de South Royalton em 1974.77 Como Vaughn observa, o fato de Hayek ter recebido o prêmio Nobel por coincidência mais tarde, no outono de 1974, despertou claramente um interesse geral e contínuo e o estudo de Hayek e de toda a tradição austríaca.

A precisão histórica me obriga a aceitar o tratamento comparativo da Professora Vaughn do Professor Kirzner e eu, sem dúvida os dois estudantes americanos mais produtivos de Mises, ambos os quais publicaram importantes obras austríacas antes do ano de South Royalton de 1974. Eu, ela diz, era “o fiel intérprete de Mises para a margem libertária radical […] jovens, muitos deles radicais do livre mercado que descobriram o trabalho de Mises e que ouviram o folclore austríaco aos joelhos de Murray Rothbard”.78 Portanto, aqui estou, no relato da Professora Vaughn, um pregador do folclore misesiano para jovens libertários do livre mercado. Nesse ínterim, enquanto eu distribuía folclore misesiano para jovens deslumbrados, o que o Professor Kirzner estava fazendo? Ele, “contra todas as probabilidades, tentou continuar o trabalho de Mises no contexto da comunidade acadêmica mainstream”.79

Existem duas falhas fundamentais no relato histórico de Vaughn, embora possa ser conveniente para seu próprio folclore caracteristicamente Whig de Subindo de Mises para Lachmann e Lavoie. Uma é que eu também era um acadêmico. Na época de South Royalton, eu era professor de economia no Instituto Politécnico de Brooklyn; talvez, jovem deslumbrada como ela pode ter sido na época, ela não percebeu que eu não era um folclorista em tempo integral. O segundo trata do papel do Professor Kirzner. Embora Kirzner seja um estudioso distinto e contribuidor para a tradição austríaca, apesar dele também ter se desviado de Mises nos últimos anos, ele dificilmente era, naquele ponto, um lutador heróico pelo austrianismo contra seus inimigos acadêmicos. De fato, Israel Kirzner manteve um perfil austríaco muito baixo na Universidade de Nova York. Eu mesmo fiz amizade com alguém que recebeu um PhD com Kirzner no final dos anos 1960, e ele não tinha ideia do que era economia austríaca ou que seu mentor de doutorado estava relacionado a ela.

Vaughn menciona que o Institute for Humane Studies patrocinou a conferência acadêmica austríaca de uma semana em South Royalton, bem como duas outras nos próximos dois anos, uma na University of Hartford, que ela não mencionou, e outra no Castelo Windsor, Inglaterra; volumes importantes de documentos surgiram das conferências de South Royalton e no Castelo Windsor.

Mas então Vaughn não levanta a questão: o que no mundo aconteceu com essas conferências anuais de alto nível acadêmico, que tanto fizeram para promover a disciplina da Escola Austríaca e o interesse pela economia austríaca? O que aconteceu é que essas conferências desapareceram, já que a fonte principalmente de financiamento, a quem me refiro como O Doador, mudou seu foco de interesse. A mudança foi se afastando do radicalismo e da consistência misesiana, tanto na economia austríaca, notadamente na praxiologia, quanto na economia política, na forma de laissez-faire consistente. No final da década de 1970, O Doador decidiu que o que Vaughn se refere como as “visões anti estatistas francas” e “estilo enfático” de Mises eram muito sinceros e intransigentes para serem palatáveis para os Poderes Constituídos ou respeitáveis para outras fontes de financiamento, o governo federal ou os líderes da academia. Por todas essas razões, O Doador, seguido pelos ávidos recebedores de sua generosidade, decidiu criar think tanks moderados para políticas públicas e diluir a economia austríaca para se tornar respeitável e não ameaçadora para a academia. Na academia, ele assim encorajou várias iniciativas: para marxistas, hermenêuticos e desconstrucionistas, na verdade, para qualquer um e todos rejeitados pela devoção intransigente de Ludwig von Mises à verdade e à liberdade. Consequentemente, não haverá mais conferências acadêmicas austríacas, mas apenas bolsas e programas que promoviam visões não- ou anti-misesianas em nome da economia austríaca.

Se a professora Vaughn estivesse realmente interessada em narrar uma batalha pela verdade austríaca “contra todas as probabilidades”, ela ponderaria a tremenda conquista de Llewellyn H. Rockwell, Jr., ao fundar o Ludwig von Mises Institute dez anos atrás. Pois Lew Rockwell fundou o Instituto sem doação, sem promessas, sem Big Daddy. Tudo o que ele teve foi o vislumbre de uma ideia para toda a vida: fundar um instituto dedicado a Ludwig von Mises e promover o paradigma misesiano na economia austríaca. De fato, Big Daddy, o Doador citado, estava furioso com o plano de Rockwell de fundar o Mises Institute e teve a ousadia absoluta de “ordenar” que ele não o fizesse. Quando Lew foi em frente apesar dessa ordem, O Doador arquitetou um boicote determinado, tanto do Instituto quanto do estabelecimento posterior do único periódico acadêmico austríaco, The Review of Austrian Economics.

Há boas notícias para relatar nesta Conferência do Décimo Aniversário do Mises Institute. Em primeiro lugar, esta conferência acadêmica em economia austríaca dá continuidade à tradição do Castelo Windsor; esperemos que seja a primeira de muitas. Em segundo lugar, O Doador perdeu o interesse pela economia austríaca e pela ideologia. A conferência de verão incrivelmente bem-sucedida do Mises Institute, sua “Mises University”, é praticamente a única conferência de verão instrucional remanescente em economia austríaca. E à medida que desenvolvemos misesianos cada vez mais notáveis, o paradigma misesiano não apenas reviveu como resultado do sucesso do Mises Institute: agora é praticamente o único paradigma que resta no campo. Em vez da história tipicamente Whig de uma linha reta para a frente e para cima de Mises até os alunos de Lavoie, o que temos é uma história de três fases, uma história em zigue-zague de paradigmas e ideologias conflitantes. A primeira fase foi O Ressurgimento, começando no verão e no outono de 1974 com a conferência austríaca de South Royalton e a entrega do Prêmio Nobel a Hayek; mas essa fase de expansão terminou em algum momento no final dos anos 1970, após o Castelo Windsor, e foi sucedida pela Fase II, um declínio e degeneração da economia austríaca longe do paradigma misesiano e em várias variantes e desvios falaciosos. Mas então, com o início do Mises Institute na década de 1980, a Fase III, o Renascimento, se desenvolveu, culminando nos recentes sucessos do Mises Institute, a retirada do campo pel’O Doador e a subsequente restauração triunfal do paradigma misesiano. A diferença em relação ao final dos anos 1970 é que o paradigma misesiano está agora estabelecido em um nível mais alto do que há duas décadas; não apenas há muito mais misesianos mais jovens, e provavelmente haverá ainda mais nos próximos anos; não apenas a “geração média” de anti-misesianos renegados está desaparecendo, mas é claro que os misesianos aprenderam mais nessas duas décadas, sempre aprimorando e afiando nosso conhecimento misesiano no curso das lutas contra esses desvios e falácias.

E assim, a verdadeira boa notícia desta Conferência do Décimo Aniversário do Mises Institute é que estou aqui, e a própria conferência testemunha, para proclamar a vitória, para anunciar, finalmente, o triunfo do paradigma misesiano na casa austríaca que o próprio Mises criou. O grande Ludwig von Mises não poderia pedir tributo maior.

1 Este paper foi realizado na Conferência de Acadêmicos do Décimo Aniversário do Ludwig von Mises Institute, em 9 de outubro de 1992.

2 Para meus propósitos, estou ignorando o alegado largo abismo entre os primeiros positivistas com seu critério de “verificabilidade” e os popperianos e sua ênfase na “falseabilidade”. Para aqueles muito longe do campo empirista lógica, essa disputa tem mais a aparência de uma briga de família do que de uma divisão fundamental na epistemologia. O único ponto de interesse aqui é que os popperianos são mais niilistas e, portanto, ainda menos satisfatórios do que os positivistas originais, que pelo menos são permitidos de “verificar”, em vez de meramente “não falsear”.

Para uma discussão brilhante e incisiva e demolição da disputa empirista lógica em vários níveis, veja David Gordon, The Philosophical Origins of Austrian Economics (Auburn, Ala.: Ludwig von Mises Institute, 1993).

3 N. do T.: Aqui, Rothbard usa uma expressão americana, “bread-and-butter”, que significa o exercício do qual se retira o “ganha pão”, uma atividade que é “básica” ou essencial para adquirir o sustento, por assim dizer; um trabalho “feijão com arroz”. Ademais, as aspas são da tradução por se tratar de uma expressão metafórica.

4 Na verdade, a recessão inflacionária surgira primeiramente durante o boom inflacionário de 1933-37, que aconteceu dentro de uma profunda depressão. Mas desde que as origens dessa depressão, em 1929-33, foram aparentemente não inflacionárias, esse episódio foi considerado anômalo e irrelevante para ciclos futuros. Além disso, os preços começaram a subir, mas apenas ligeiramente, durante a recessão de 1957-1958, um prenúncio esquecido, mas importante, do que estava por vir. Durante 1966, houve uma recessão novamente sem a queda usual de preços, mas isso foi desconsiderado porque o episódio de 1966 não foi profundo o suficiente para atender aos critérios abertamente venerados do National Bureau para uma recessão. Assim, o choque de 1973-74 veio como um raio do nada para a profissão.

5 Podemos até dizer sobre os ciclos econômicos como o grande Etienne Gilson disse sobre a lei natural: “a lei natural sempre enterra seus inimigos”.

6 Nobéis anteriores foram concedidos a: os econometristas keynesianos Ragnar Frisch e Jan Tinbergen, Paul Samuelson, os estatísticos da renda nacional Simon Kuznets, Kenneth Arrow e John R. Hicks, e o planejador de input-output Wassily W. Leontief.

7 Alguns de nós nutrem a suspeita de que não é coincidência que Hayek recebeu o prêmio precisamente em 1974, o ano após a morte de seu grande mentor, o fundador da teoria austríaca dos ciclos econômicos, Ludwig von Mises. A profissão sueca de economia pode ter se libertado parcialmente em 1974, mas certamente não o suficiente para conceder o prêmio a um “extremista” ideológico e metodológico tão consistente e intransigente quanto Ludwig von Mises.

8 Karen I. Vaughn, “The Mengerian Roots of the Austrian Revival”, em Carl Menger and His Legacy in Economics, Bruce J. Caldwell, ed., Suplemento Anual ao Vol. 22 de History of Political Economy (Durham, N.C.: Duke University Press, 1990): 395–405.

9 Vaughn, “Mengerian Roots,” p. 401n. Também veja ibid., p. 397n. Curiosamente, Vaughn fala repetidamente do volume de O’Driscoll-Rizzo “recebendo tantas críticas” dos austríacos, sem citar o principal, na verdade o único, lugar em que tais críticas apareceram: a crítica devastadora do Professor Charles W. Baird, “The Economics of Time and Ignorance: A Review”, Review of Austrian Economics 1 (1987): 189-206.

The Economics of Time and Ignorance foi uma tentativa, felizmente curta, de substituir o paradigma misesiano pelo irracionalismo bergsoniano; sua rápida extinção foi assegurada por sua demolição pelo Professor Baird. Enquanto escrevia essa obra, Professor Rizzo, o líder filosófico da dupla, estava se afastando visivelmente do paradigma misesiano. Em um volume centenário de Mises editado por Israel Kirzner, Rizzo primeiro flertou com a filosofia da ciência então em voga de Imre Lakatos como um substituto para a praxiologia; em um pós-escrito escrito apenas seis meses após o texto, Rizzo anunciou outra mudança radical de opinião ainda mais distante de Mises. O resultado final em 1985 foi o beco sem saída bergsoniano. Veja Mario J. Rizzo, “Mises and Lakatos: A Reformulation of Austrian Methodology”, em Method, Process and Austrian Economics, Israel M. Kirzner, ed. (Lexington, Mass.: Lexington Books, 1982), pp. 53-73.

10 Veja, por exemplo, as demolições da felizmente breve “tendência hermenêutica” na economia austríaca, por David Gordon, Hermeneutics vs. Austrian Economics (Auburn, Ala.: Ludwig von Mises Institute, 1986); Hans-Hermann Hoppe, “In Defense of Extreme Rationalism: Thoughts on Donald McCloskey’s The Rhetoric of Economics”, Review of Austrian Economics 3 (1989): 179-214; e Murray N. Rothbard, “The Hermeneutical Invasion of Philosophy and Economics”, Review of Austrian Economics 3 (1989): 45-59; incluído neste volume como capítulo 8.

11 Para uma discussão incisiva sobre as Metodologias Velha e Nova, por um dos principais anunciadores da Nova, veja Bruce J. Caldwell, “The Trend of Methodological Thinking”, Ricerche Economiche 43 (Janeiro/Junho de 1989): 8-20.

12 Murray N. Rothbard, Man, Economy, and State: A Treatise on Economic Principles, 2 vols. (1962; Los Angeles: Nash, 1970); Rothbard, Power and Market: Government and the Economy (1970; Kansas City: Sheed Andrews and McMeel, 1977); e Rothbard, Toward a Reconstruction of Utility and Welfare Economics (1956; New York: Center for Libertarian Studies, 1977); incluido neste volume como capítulo 17.

13 Veja, entre outros, Hans-Hermann Hoppe, Praxeology and Economic Science (Auburn, Ala.: Ludwig von Mises Institute, 1988); Hoppe, A Theory of Socialism and Capitalism: Economics, Politics, and Ethics (Boston: Kluwer, 1988); Hoppe, The Economics and Ethics of Private Property (Boston: Kluwer, 1993); Joseph T. Salerno, “Postscript: Why Socialist Economy is ‘Impossible’”, em Ludwig von Mises, Economic Calculation in the Socialist Commonwealth (1920; Auburn, Ala.: Ludwig von Mises Institute, 1990), pp. 51–71; Salerno, “Ludwig von Mises as Social Rationalist”, Review of Austrian Economics 4 (1990): 26–54; Salerno, “Commentary: The Concept of Coordination in Austrian Macroeconomics”, em Austrian Economics, Richard Ebeling, ed. (Hillsdale, Mich.: Hillsdale College Press, 1991), pp. 325–43; Barry Smith, “Austrian Economics and Austrian Philosophy”, Austrian Economics: Historical and Philosophical Background, W. Grassl and Barry Smith, eds. (New York: New York University Press, 1986), pp. 1–36; e Gordon, Philosophical Origins of Austrian Economics.

14 A dedução também é auxiliada por alguns axiomas subsidiários: tais como o fato básico de que seres humanos requerem lazer.

15 Para uma afirmação da praxiologia e da construção de um edifício da teoria econômica de acordo com o método praxiológico, veja a obra monumental de Ludwig von Mises, Human Action (1949, 3rd rev. ed.; Chicago: Henry Regnery, 1963). Também Rothbard, Man, Economy, and State.

16 Acho útil considerar as curvas de oferta e de demanda do mercado como interações de uma linha vertical de um estoque existente de coisas, bens ou recursos, sendo avaliadas por uma curva de demanda decrescente composta de agregados de escalas de preferência ou valor ordinal individual, marcadas, é claro, pela diminuição da utilidade de cada unidade à medida que a oferta de um bem aumenta. A interseção da linha vertical de oferta (ou estoque) com a curva de demanda decrescente determina o preço de equilíbrio do mercado diário.

17 Mais estritamente, os teóricos das expectativas racionais reivindicam que o mercado tem conhecimento absoluto das “distribuições de probabilidade” de todos eventos futuros, quaisquer erros sendo puramente aleatórios. Mas isso só agrava o problema, uma vez que o conceito de “distribuição de probabilidade” só pode ser usado para eventos que são homogêneos, aleatórios [independentes de caminho] e infinitamente replicáveis. Mas os eventos no mundo da ação humana são quase exatamente opostos: eles são quase todos heterogêneos, não aleatórios [dependentes de caminho] e dificilmente replicáveis. Além disso, mesmo no evento altamente improvável de que essas condições se aplicassem mesmo, as probabilidades de classe não poderiam ser usadas para explicar ou prever eventos, que é o que enfrentamos na vida humana. Veja Mises, Human Action, pp. 106-15; e Richard von Mises, Probability, Statistics, and Truth (1928, 2ª ed.; New York: Macmillan, 1957).

18 Mises incorporou em sua praxiologia a útil distinção knightiana entre risco segurável (como loterias, jogos de azar na roleta) e incerteza não segurável (porque é heterogênea, não aleatória e não replicável), que o empresário suporta e pela qual ele ganha lucros ou sofre prejuízos. Veja Mises, Human Action, pp. 28-94. Veja também o ensaio negligenciado de Mises, “Profit and Loss”, Ludwig von Mises, Planning for Freedom and Other Essays and Addresses (South Holland, Ill.: Libertarian Press, 1952), pp. 108-30.

19 Quando pressionado, Lachmann, felizmente para o Homem Lachmanniano, concedeu que essa total ignorância não se aplica às leis do mundo físico; o Homem Lachmanniano tem sorte de poder confiar, inter alia, na lei da gravidade. São apenas leis e padrões na esfera humana que não podem existir para ele.

20 A ressalva com deliberada ambiguidade de Lachmann, cognoscível “a princípio”, mal é suficiente para salvar sua visão ingenuamente otimista de nosso conhecimento do passado. Em princípio, como podemos descobrir por que Lênin viu algo na concatenação russa de eventos que nenhum dos outros bolcheviques, mesmo com visões de mundo muito semelhantes, pôde ver? No fundo, a singularidade individual, seja a singularidade do empreendedor, do inventor, do previsor de eventos ou do criador, não pode ser “explicada” à moda determinista.

21 Veja Ludwig von Mises, Theory and History (1957; Auburn, Ala.: Ludwig von Mises Institute, 1985).

22 Ludwig M. Lachmann foi um estudante de Hayek na London School of Economics na década de 1930 e seus escritos eram geralmente misesianos até a metade da década de 1970, quando ele se converteu ao niilismo de seu antigo amigo e colega estudante de Hayek, o inglês G.L.S. Shackle. Assim, veja a crítica apreciativa de Lachmann ao Human Action de Mises, “The Science of Human Action”, Economica 18 (Novembro de 1951): 412-27. A conquista extraordinária de Lachmann foi seu misesiano Capital and Its Structures (London: London School of Economics, 1956) que, presumivelmente por essa razão, nunca é citado pelos lachmannianos modernos. A data divisora de águas para anunciar sua conversão ao shacklenianismo foi Ludwig M. Lachmann, “From Mises to Shackle: An Essay on Austrian Economics and the Kaleidic Society”, Journal of Economic Literature 14 (Março de 1976): 54-62.

23 Um evento divertido, mas instrutivo, ocorreu por ocasião da conferência dos austríacos americanos no Castelo de Windsor, no verão de 1976. Sob os bons ofícios do professor Stephen C. Littlechild, da Universidade de Birmingham, uma espécie de conferência de cúpula foi organizada para que alguns dos misesianos americanos pudessem conhecer a Escola Subjetivista Inglesa, como os shacklenianos se autodenominam. Os eminentes subjetivistas na reunião incluíam o doyen dessa escola, o próprio Shackle, bem como Terence W. Hutchison, Jack Wiseman e Brian Loasby. A certa altura, os subjetivistas lamentaram não poder oferecer um programa de cursos de graduação em economia como alternativa ao paradigma neoclássico, uma vez que tudo o que haviam produzido foram alguns ensaios críticos, mas nenhum corpo substancial de teoria econômica. Eu respondi com alguma surpresa que havia de fato uma grande quantidade de literatura austríaca sistemática disponível, incluindo obras de Mises, o antigo Hayek e meu próprio trabalho, além de volumes de Böhm-Bawerk e Frank A. Fetter, entre outros. Os olhares vazios de incompreensão nos rostos dos distintos subjetivistas foram uma revelação da enorme extensão do abismo inerente entre os subjetivistas shacklenianos e os misesianos.

24 Uma vez que não pode haver nada na vida social correspondente ao gene biológico, o uso do termo “evolução” por Hayek e outros para descrever a mudança histórica serve simplesmente para revestir o manto da pseudociência sobre tal mudança e contrabandear uma informação não reconhecida e um julgamento de valor sem apoio (apoiado apenas pela alegada benevolência e necessidade do processo “evolucionário”) para santificar tais regras.

25 N. do T.: Em inglês, alertness, seria uma condição de “estar alerta”, optamos, assim, pelo termo “perspicácia”, mas estritamente nesse sentido.

26 Para uma crítica da perspicácia kirzneriana, veja Murray. N. Rothbard, “The End of Socialism and The Calculation Debate Revisited”, Review of Austrian Economics 5, nº 2 (1991): 67; incluído neste volume como capítulo 45. Também veja Rothbard, “Professor Hébert on Entrepreneurship”, Journal of Libertarian Studies 7 (Outono de 1985): 281-85. O último artigo foi um comentário sobre um ensaio pelo Professor Robert Hébert, ambos escritos para uma conferência tricentenária sobre Cantillon em Agosto de 1980. A discussão de Hébert sobre a visão de Kirzner do empreendedorismo está em Robert F. Hérbert, “Was Richard Cantillon an Austrian Economist?”, ibid., pp. 272-75. Para um comentário adicional sobre Kirzner e sobre meu ensaio, veja Robert F. Hébert e Arthur N. Link, The Entrepreneur Mainstream Views and Radical Critiques (New York: Praeger, 1982), pp. 95-99;

27 Veja abaixo, a seção sobre Conhecimento e Cálculo Socialista.

28 As críticas hilárias e perceptivas de Alexander Gray ao argumento de Ricardo contra a intervenção do governo se aplicam a fortiori aos lachmannianos de livre mercado:

Esse é o esquema de distribuição ricardiano; em lugar da velha harmonia de interesses, ele colocou a dissensão e o antagonismo no centro das coisas. […] O otimismo sincero de Adam Smith se foi, transmutado em um pessimismo que não será confortado. No entanto, Ricardo permanece inabalavelmente não intervencionista. […] Em um mundo de escuridão ricardiana, pode-se perguntar por que não deveria haver interferência. Um otimista cantando que Deus está em Seu Céu e que tudo está bem com o interesse próprio esclarecido tem o direito de pregar a bandeira do laissez-faire no mastro, mas um pessimista que apenas anseia por dias ruins e piores não deve, a princípio, opor-se à intervenção, a menos que seu pessimismo seja tão profundo que leve à convicção de que, por pior que sejam todas as doenças, todos os remédios para todas as doenças são ainda piores. (Alexander Gray, The Development of Economic Doctrine [1931; London: Longman, 1980], pp. 171-72)

29 Em sua discussão simpática da praxiologia, Patrick J. O’Sullivan afirma que Mises, como um apriorista, acreditava que, uma vez que o axioma fundamental da ação é a priori para a experiência, as leis deduzidas são simplesmente verdadeiras, enquanto Hayek e Robbins, acreditando que os axiomas são derivados empiricamente, acreditavam que as leis tinham de ser aplicadas conscientemente a estados empíricos de coisas onde as condições se mantêm. Mas a necessidade de aplicabilidade é mantida por Mises, assim como pelos outros, e essa necessidade não está relacionada ao status filosófico dos axiomas fundamentais. Assim, embora as leis básicas da ação humana só possam ser aplicadas àqueles mundos empíricos onde existem seres humanos, as leis deduzidas mais estritamente, como as leis da teoria monetária, só podem ser aplicadas às sociedades empíricas onde o dinheiro está em uso. Veja Patrick J. O’Sullivan, em Ricerche Economiche 43 (Janeiro/Junho de 1989).

30 Mises, Human Action, pp. 236-37.

31 O Professor Hans-Hermann Hoppe esclareceu esse ponto em sua aula sobre teoria monetário na conferência do Ludwig von Mises Institute sobre o Federal Reserve em Jekyll Island, em Maio de 1992.

32 O uso de “processo de mercado” como um mantra foi demonstrado pelo Professor Don Lavoie, um ex-misesiano que se tornou um lachmaniano e até mesmo um “hermeneuta”, baseado na filosofia continental da moda de Heidegger e seu aluno Gadamer. Lavoie estabeleceu um Centro para o Estudo de Processos de Mercado (CSMP) na George Mason University e, em 1983, o Centro estabeleceu um periódico, Market Process. A principal obra de Ludwig Lachmann como Lachmanniano foi seu volume, The Market as an Economic Process (Oxford: Basil Blackwell, 1986). Mais tarde, Lavoie organizou uma Sociedade para Economia Interpretativa, que conseguiu realizar uma reunião antes de fechar. Não deve ser surpresa que o Professor Lachmann fez o discurso principal naquela reunião.

A Professora Vaughn concluiu seu artigo de 1990 sobre o renascimento austríaco saudando a abordagem de processo de mercado lavoieana como a onda do futuro austríaco, uma visão que possivelmente reflete sua posição como membro do conselho do Centro. Infelizmente para sua previsão, o CSMP menos a Professora Vaughn, agora se transformou em um centro muito diferente dedicado a um certo tipo de esquema gerencial não relacionado à economia, muito menos ao austrianismo ou suas preocupações. Vaughn, “Mengerian Roots”, pp. 403-04.

33Kirzner, também, sucumbiu, nomeando sua última coleção de ensaios, The Meaning of Market Process (New York: Routledge, 1992).

34 Para uma exposição da ação no mercado como sempre equilibrando a partir da própria natureza e lógica da ação e para uma crítica dos empiristas nessa questão, veja Geroge A. Selgin, Praxeology and Understanding: An Analysis of the Controversy in Austrian Economics (Auburn, Ala.: Ludwig von Mises Institute, 1990).

35 Salerno “Commentary: Concept of Coordination”, pp. 325-45.

36 Para uma discussão brilhante da consideração de preço e de salário e o contraste com as pressuposições keynesianas, veja William H. Hutt, The Keynesian Episode: A Reassessment (Indianapolis, Ind.: Liberty Press, 1979), pp. 135-77, esp. 137-40, 150ff. Veja também o anterior W.H. Hutt, Keynesianismo—Retrospect and Prospect (Chicago: Henry Regnery, 1963), pp. 53-81, esp. 54ff.

37 Para uma pesquisa e uma discussão dos argumentos no debate do cálculo socialista, veja Rothbard, “The End of Socialism and the Calculation Debate Revisited”, pp. 51-76.

38 Salerno, “Postscript: Why a Socialist Economy is ‘Impossible’’, em Ludwig von Mises, Economic Calculation in a Socialist Commonwealth (Auburn, Ala.: Ludwig von Mises Institute, 1990), pp. 60-61, Veja também Rothbard, “The End of Socialism and the Calculation Debate Revisited”, pp. 55-71.

39 Joseph T. Salerno, “Ludwig von Mises as Social Rationalist”, Review of Austrian Economics 4 (1990): 44. Veja também ibid., pp. 26-54. Esses dois artigos profundos e sutis por Salerno são indispensáveis para toda a discussão Mises vs. Hayek.

40Mises diz em sua autobiografia:

Eles [os socialistas] falharam em perceber o primeiríssimo desafio: como pode a ação econômica que sempre consiste em preferir e vender à parte, isto é, fazer valorações desiguais, ser transformada em valorações iguais, pelo uso de equações? Assim, os defensores do socialismo vieram com a recomendação absurda de substituir o cálculo monetário na economia de mercado, retratando uma imagem da qual a ação humana é eliminada, pelas equações da cataláxia matemática. (Ludwig von Mises, Notes and Recollections [Spring Mills, Penn.: Libertarian Press, 1978], p. 112)

Veja também a discussão em Murray N. Rothbard, Scholar, Creator, Hero (Auburn, Ala.: Ludwig von Mises Institute, 1988), pp. 35-38, e especialmente, Rothbard, “The End of Socialism and the Calculation Debate Revisited”, pp. 64-65. Veja também Mises, Human Action, pp. 327-30, p. 696; Salerno, “Mises as Social Rationalist”, pp. 39-40, e Salerno, “Why a Socialist Economy is ‘Impossible”’, pp. 60-61.

41 O Dr. David Goron apontou para mim que, assim como Mises mostrou, pelo seus teorema da regressão, que o dinheiro apenas pode surgir no mercado a partir de um bem não monetário sob escambo, então o dinheiro no mercado é necessário para transformar valores subjetivos ordinalmente ranqueados em preços monetários que são indispensáveis para imputações de produtividade e para o cálculo econômico pelos empreendedores.

42 Mises, Human Action, p. 700. Veja também Rothbard, “The End of Socialism and the Socialist Calculation Debate Revisited”, pp. 67-68; e Israel M. Kirzner, “The Economic Calculation Debate: Lessons for Austrians”, Review of Austrian Economics 2 (1988): 1-18. O erro de Kirzner parece ser vinculado a sua visão não-misesiana do empreendedor: não como um apreçador de preços e de custos, mas como alguém que é perspicaz ao conhecimento incerto do futuro.

43 Veja, em particular, David Gordon, “The Origins of Language: A Review”, Review of Austrian Economics 2 (1989): 245-51.

44 Sobre Mises sobre o papel indispensável da razão na troca, e o contraste com Hayek, veja o artigo esclarecedor por Salerno, “Ludwig von Mises as Social Rationalist”, pp. 26-54.

45 Ludwig von Mises, Socialism: An Economic and Sociological Analysis (1936; Indianapolis, Ind.: Liberty Fund, 1981), p. 418; F.A. Hayek, “Foreword”, em Socialism, p. xxiii. Veja também Peter G. Klein, “Introduction”, The Fortunes of Liberalism: The Collected Works of F.A. Hayek (Chicago: University of Chicago Press, 1992), vol 4, pp. 12-13; Hayek, Fortunes of Liberalism, p. 142.

A desonestidade de Hayek enquanto Mises estava vivo pode ser vista em seu artigo de 1937, “Economics and Knowledge”, que marcou sua passagem de uma metodologia misesiana para uma popperiana (a de seu velho amigo vienense Karl Popper); aparentemente, o artigo pretendia ser um ataque indireto a Mises por sua abordagem supostamente walrasiana-neoclássica, e pretendia sutilmente mudar Mises para uma abordagem empirista e popperiana. Tão oblíquo era o artigo, no entanto, que o próprio Mises o interpretou erroneamente como um ataque misesiano aos neoclássicos, e historiadores e estudiosos atuais da Escola Austríaca estão divididos sobre o que o artigo de Hayek realmente quis dizer. É interessante notar que o que Hayek realmente quis dizer sobre muitas coisas é praticamente um pequeno negócio para estudantes de doutorado, ao passo que é raro que as pessoas tenham que se perguntar o que Mises “realmente quis dizer”. Veja Klein, “Introduction”, pp. 10-41.

46 Tem havido um consenso geral de que a reivindicação de Mises da “impossibilidade” do socialismo foi justificada, com painéis em reuniões econômicas anuais dedicadas ao tema ‘Mises estava Certo”. Veja, entre outros, Stephen Boehm, “The Austrian Tradition: Schumpeter and Mises”, em Neoclassical Economic Theory, 1870 to 1930, K. Hennings e W. Samuels, eds. (Boston: Kluwer Academic Publishers, 1990), p. 231. Não houve reconhecimento, no entanto, do colapso comunista justificando a posição de Mises sobre o domínio a longo prazo das ideias do público no governo.

47 Como reconciliar a posição “anti-racionalista” dominante de Hayek com outra linhagem de seu pensamento: o poder das idéias a longo prazo para efetuar mudanças sociais e seu apelo por uma estratégia de “gotejamento” de conversão de estudiosos e filósofos de renome às visões liberais clássicas, que por sua vez acabarão por converter professores menores, que por sua vez converterão intelectuais gerais, jornalistas e “negociantes de ideias de segunda mão”? Veja, em particular, “The Intellectuals and Socialism” de Hayek, primeiramente publicado na University of Chicago Law Review 16 (Primavera, 1949), e reimpresso em Hayek, Studies in Philosophy, Politics, and Economics (Chicago: University of Chicago Press, 1967), pp. 178-94.

Existem, ao que parece, três maneiras possíveis de explicar essa anomalia. Primeiro, que é característico da inconsistência e confusão intelectual de Hayek. Segundo, que ainda reflete o primeiro Hayek mais racionalista, uma vez que foi escrito na década de 1940, e antes do desenvolvimento de sua posição “evolucionária”. E terceiro, que Hayek vê o único papel das idéias como uma elite intelectual minoritária sendo capaz de se erguer acima do torpor geral e da inconsciência — mas que o melhor que a elite pode fazer é instar a todos, incluindo a si mesma, a seguir cegamente as regras evoluídas.

48 Devido ao código do imposto de renda, as perdas podem muito bem ter sido intencionadas, a fim de reduzir o nível de renda tributável de alguém. Mas, nesse caso, uma investigação detalhada dos fatos derrubaria a presunção de senso comum de que as perdas não seriam intencionais desde o início.

49 Adam Smith, An Inquiry into the Nature and Causes of the Wealth of Nations, Campbell and A. Skinner, eds. (Indianapolis, Ind.: Liberty Classics, 1981), vol. 1, pp. 26-27. Deve-se notar que Smith também era anti-racionalista, embora por razões bastante diferentes. Smith estava preocupado em purgar a teoria econômica de todas as considerações de utilidade subjetiva, então ele teve de descartar o benefício mútuo como a razão para a troca. Na verdade, em contraste com o insight de Mises de que a divisão do trabalho (a base da troca) decorre da diversidade e desigualdade de talentos e interesses entre os homens, Smith sustentou que todas as pessoas e crianças são originalmente quase totalmente iguais, e que a divisão existente de trabalho e de ocupação, quer queira quer não, os empurra para a especialização e diferenças de interesse. Como diz Smith: “o gênio muito diferente que parece distinguir homens de diferentes profissões […] não é […] tanto a causa quanto o efeito da divisão do trabalho”.

Se, para Smith, a diversidade e a desigualdade de talento não são a causa raiz da divisão do trabalho, mas o efeito, o que no mundo é a causa raiz? Smith, como muitos cientistas sociais que não sabem a causa de um fenômeno humano, recai em algum tipo de “instinto” embutido: ou, como ele disse, “uma certa propensão na natureza humana” que não tem consideração por utilidade, mas é, em vez disso, “uma propensão para transportar, permutar e trocar uma coisa por outra”, ibid., pp. 25, 28. Ou, como Smith colocou de forma um tanto absurda: “sem disposição para transportar, permutar e trocar, todo homem precisa ter adquirido para si mesmo todas as necessidades e conveniências de vida que desejava”, ibid., p. 29.

50 Há outro ponto: para qualquer açougueiro ou padeiro em particular, o observador externo — o economista externo ou cientista social — não sabe realmente se ele foi esclarecido por misesianos ou outros escritores do livre mercado, ou não. O observador pode ter suas suspeitas, mas as suspeitas não são conhecimento. Ironicamente, para Hayek ou Hayekianos assumirem sem evidência que todos os açougueiros, padeiros e assim por diante são ignorantes da teoria do livre mercado é arrogantemente alegar conhecimento que eles não têm e, de fato, em última análise, não podem ter. Talvez sejam os hayekianos, não os misesianos, que sofrem de arrogância.

51 F.A. Hayek, “The Results of Human Action but not of Human Design”, em Studies in Philosophy, Politics, and Economics, p. 96.

52 Veja a obra esclarecedora de Richard B. Sher, Church and University in the Scottish Enlightenment (Princeton, N.T.: Princeton University Press, 1985), pp. 40-44.

53 Sobre Hegel e Marx, veja Murray N. Rothbard, “Karl Marx: Communist as Religious Eschatologist”, Review of Austrian Economics 4 (1990): 132-38.

54 O elogio de Hayek à common law como espontânea e não planejada ignora o fato de que os juízes individuais estavam conscientemente descobrindo, elaborando e aplicando princípios jurídicos fundamentais. Razão e design eram, portanto, dominantes na common law. O fato de que essa razão e essas leis não foram impostas por um Estado soberano, mas elaboradas a partir de princípios jurídicos de longa data, não é relevante para a alegação de Hayek.

55 Joseph T. Salerno, “Ludwig von Mises as Social Rationalist”, Review of Austrian Economics 4 (1990): 50-51.

56 Ibid., p. 52.

57 David Gordon, “The Origins of Language: A Review”, pp. 245-51. Gordon particularmente discute dois trabalhos recentes: G.A. Wells, The Origins of Language (Peru, Ill.: Open Court, 1987), e J.N. Hattiangadi, How is Language Possible? (Peru, Ill.: Open Court, 1987). Veja também Hans Aarsleff, From Locke to Saussure (Minneapolis: University of Minnesota Press, 1982), para uma visão crítica dos românticos alemães sobre a linguagem.

58 Em adição, a Escola de Erlangen de filosofia enfatizou a origem da matemática e da física na apreensão consciente de, por exemplo, comprimento, ou números, em objetos do mundo real. Veja Paul Lorenzen, Constructive Philosophy (Amherst: University of Massachusetts Press, 1987).

Similar à questão da linguagem é a estranha visão de que a poesia ou música popular não foi criada conscientemente por indivíduos, mas cresceu inconscientemente a partir da sabedoria do povo. Veja H.L. Mencken, “Folk-Literature, a Review of Lousie Pound, Poetic Origins and the Ballad,” em A Mencken Chrestomathy (New York: Alfred A. Knopf, 1949), pp. 471-72. Mencken escreve: “A canção folclórica alemã, a mais bela do mundo costumava ser creditada a um misterioso talento nativo no campesinato alemão, mas investigações científicas revelam que algumas das canções consideradas especialmente características da alma popular foram na verdade escritas pelo diretor de música da Universidade de Tübingen, Professor Dr. Friedrich Silcher”, ibid., p. 472. Veja também Ludwig von Mises, Theory and History, pp. 188-89.

59 Ibid., pp. 227-32; Salerno, “Mises as Social Rationalist”, p. 53.

60 Henry Hazlitt, Economics in One Lesson (New York: Harper and Bros., 1946).

61 Erich Streissler, “Menger, Böhm-Bawerk, and Wieser: The Origins of the Austrian School”, em Neoclassical Economic Theory, 1870 to 1930, K. Hennings e W. Samuels, eds. (Boston: Kluwer Academic Publishers, 1990), p. 170; Robert E. Hébert, “Commentary”, ibid., pp. 190-200.

62 Em particular, F.A. Hayek, Monetary Theory and the Trade Cycle (1933; New York: Augustus M. Kelley, 1966), uma tradução de um livro publicado em Viena em 1929; e Prices and Production (London: Routledge and Kegan Paul, 1935).

63 Pode-se facilmente argumentar que a excelente teoria da estrutura de capital de Böhm-Bawerk era “macro”, bem como “micro”.

64 Em seus comentário não publicado sobre meu artigo em “Austrian Definitions of the Supply of Money” na conferência austríaca no Castelo Windsor em setembro de 1976, de fato, Israel Kirzner assumiu a linha niilista de que era impossível definir a oferta de dinheiro, uma vez que era um conceito agregativo. É, ao contrário, um agregado feliz de unidades homogêneas, seja de dólares, seja de onças de ouro. Murray N. Rothbard, “Austrian Definitions of the Supply of Money”, em New Directions in Austrian Economics, Louis Spadaro, ed. (Kansas City: Sheed Andrews and McMeel, 1978), pp. 143-56; incluído neste volume como o capítulo 39.

65 F.A. Hayek, Denationalization of Money: The Argumento Refined (1976, 3ª ed; London: Institute of Economic Affairs, 1990).

66 Assim, o primeiro Hayek escreveu: para “[a] teoria do ciclo econômico […] como para qualquer outra teoria, existem apenas dois critérios de correção. Primeiro, precisa ser deduzida com lógica irrepreensível das noções fundamentais do sistema teórico; e segundo, precisa explicar por um método puramente dedutivo esses fenômenos com todas as suas peculiaridades que observamos nos ciclos reais”. F.A. Hayek, Monetary Theory and the Trade Cycle, pp. 32-33.

67 Entre os culpados estão Lawrence White, George Selgin, Kevin Dowd, David Glasner, F. Capie, Leland Yeager, Robert Greenfield e Richard Timberlake. Até Milton Friedman defendeu ultimamente o bimetalismo, assim, repudiando implicitamente a correta análise monetarista desse sistema. Para críticas de algumas dessas ofertas, veja Murray N. Rothbard, “The Myth of Free Banking in Scotland”, Review of Austrian Economics 2 (1988): 229-45; incluído neste volume como o capítulo 46; Rothbard, “The Case for a Genuine Gold Dollar”, em The Gold Standard: Perspectives in the Austrian School, Llewellyn H. Rockwell, Jr., ed. (1985; Auburn, Ala.: Ludwig von Mises Institute, 1992), pp. 1-17; incluído neste volume como o capítulo 41; e Rothbard, “Aurophobia: or, Free Banking on What Standard?”, Review of Austrian Economics 6, nº 1 (1992): 97-108; incluído neste volume como o capítulo 47.

68 Esta seria uma versão “libertária” da condição que o Professor Paul Cantor, em seu estimulante artigo, aponta: “Isso é o que significava ter uma moeda-corrente lastreada em ouro — um papel/nota bancária era resgatável em termos de uma mercadoria real, ou seja, ouro, algo que tinha valor independente. Mas na era moderna do dinheiro fiduciário, uma nota bancária representa apenas outra nota bancária. Uma nota de dólar pode simplesmente ser trocada por outra nota de dólar, mas tal transação não tem mais sentido, uma vez que nenhuma mercadoria real respalda a moeda-corrente. No sistema de dinheiro-de-papel moderno, o dinheiro não representa nada fora de si mesmo; o dinheiro apenas representa a si mesmo”. Paul A. Cantor, “Hyperinflation and Hyperreality: Thomas Mann in Light of Austrian Economics”, Review of Austrian Economics 7, nº 1 (1994): 3-29. O banqueiro aposentado John Exter gosta de se referir aos instrumentos de dinheiro fiduciário como “Eu Lhe Devo nadas”.

69 Para uma apreciação bem-vinda da conquista de Mises, veja Hébert, “Commentary”, pp. 191-195.

70 Se o dinheiro consiste de um metal precioso, digamos ouro, então enquanto um aumento na oferta de ouro não tem efeito monetário benéfico na sociedade, isso de fato confere um benefício ao diminuir a escassez de ouro para usos não monetários, como jóias ou odontologia.

71 Sobre padrões paralelos, veja Mises, Theory of Money and Credit (New Haven, Conn.: Yale University Press, 1951), pp. 179ff. Sobre como funcionavam na Europa medieval e do ínicio da era moderna e como o bimetalismo interferiu, e forneceu ocasiões para o aviltamento, veja Luigi Einaudi, “The Theory of Imaginary Money from Charlemagne to the French Revolution”, em Enterprise and Secular Change, F.C. Lane e J.C. Riemersma, eds. (Homewood, Ill.: Irwin, 1953), pp. 229-61. Sobre “metalismo livre”, veja dois trabalhos por William Brough, Open Mints and Free Banking (New York: Putnam, 1898), e The Natural Law of Money (New York: Putnam, 1894).

72 Comparando o retorno à moeda de ouro na Europa depois de meio milênio em meados do século XIII, em Florença e em Gênova, o Professor Lopez, um genovês orgulhoso, escreve:

Florença, como a maioria dos estados medievais, fez do bimetalismo e do trimetalismo [cobre] a base de sua política monetária. […] Génova, pelo contrário, em conformidade com o princípio de restringir ao máximo a intervenção do Estado, não tentou impor uma relação fixa entre moedas de metais diferentes […] basicamente, a cunhagem de ouro de Gênova não pretendia integrar as cunhagens de prata e de barra, mas formar um sistema independente. (Robert Sabatino Lopez, “Back to Gold, 1252”, Economic History Review [Abril de 1956]: 224.

73 Sobre Mises e a oecumene, Joseph T. Salerno, “Ludwig von Mises as Social Rationalist”, pp. 26-54, esp. 27-36. Salerno escreve sobre a oecumene misesiana,

Como fruto final e pleno da evolução social impulsionada pelo princípio ontológico cósmico da divisão do trabalho, a “oecumene” abrange toda a humanidade cooperando em processos de produção hiperespecializados. Em qualquer ponto da história, a oecumene em evolução é o resultado “racional e intencionado” de um processo intersubjetivo, cujo propósito é a melhoria da escassez. Ela existe não como uma coisa em si mesma, mas como um complexo de relações sociais que emerge de uma orientação comum das ações humanas individuais, ou seja, usar a divisão social do trabalho como meio para atingir os objetivos individuais. Como tais relações emanam da vontade, elas precisam ser afirmadas e recriadas diariamente no pensamento e na ação humana.

74 Veja o relato detalhado neste trabalho muito negligenciado, Henry B. Russel, International Monetary Conferences (New York: Harper, 1898). Veja também Frederick A.P. Barnard, The Metric System of Weights and Measures (New York: Columbia College, 1872), que trata o problema da unificação internacional de unidades monetárias em um apèndice como um subconjunto do problema de unificar todos as medidas métricas.

75 Em sua última discussão de economia austríaca, Vaughn, enquanto discretamente e necessariamente abandonando o projeto lavoieano e largando todas as referências a ele, ainda está procurando por alguma mistura de “evolução” e institucionalismo como a saída para a economia austríaca. Keren I. Vaughn, “The Problem of Order in Austrian Economics: Kirzner vs. Lachmann”, Review of Political Economy 4, nº 3 (1992): 251-74

76 Vaughn, “Mengerian Roots”, p. 396.

77 Vaughn atribui a alegada negligência de Hayek na conferência de South Royalton ao fato de que eu “não pensei muito sobre a política ou economia de Hayek”. Bem verdadeiro, exceto que eu não tive controle sobre os artigos dos outros dois principais participantes: Israel Kirzner e Ludwig M. Lachmann. Vaughn, “Mengerian Roots”, p. 402n.

78 Ibid., p. 399.

79 Ibid.

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