De Mises a Shackle: Um Ensaio sobre Economia Austríaca e a Sociedade Caleidoscópica

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De Mises a Shackle: Um Ensaio sobre Economia Austríaca e a Sociedade Caleidoscópica

Ludwig M. Lachmann

 

Traduzido por Gabriel França de Almeida

[Retirado de From Mises to Shackle: An Essay on Austrian Economics and the Kaleidic Society. American Economic Association. Journal of Economic Literature, Vol. 14, No. 1 (Mar., 1976), pgs. 54-62]

(Nota do Editor: profundo agradecimento a Gabriel França por nos ter disponibilizado a tradução deste artigo.)

I

Uma tarefa delicada encara o historiador do pensamento sempre que uma doutrina estabelecida, que, na linguagem habitual corrente, é chamada de paradigma ou, mais recentemente, um “programa de pesquisa”, é desafiada. Ele precisa traçar a genealogia dos desafiadores. Para esse fim, ele deve coletar fios cobertos pelas areias do tempo, desempoleirá-los e tentar conectá-los com uma nova meada de pensamento

Sua tarefa é ainda mais difícil, mas também mais urgente e mais recompensadora, desde que a história do pensamento é quase invariavelmente escrita do ponto de vista da ortodoxia reinante. Para Schumpeter, o sistema walrasiano é a realização suprema, por isso todo economista anterior é um antecessor ou pertence a uma tribo perdida. De tal perspectiva, a maior parte das correntes não-ortodoxas de pensamento aparecem como becos sem saída, se são sequer mencionadas. Pela mesma razão, os desafiadores devem ser vistos como iconoclastas “sem raíz”. Não obstante, o historiador não pode descansar ou alegar ter completado sua tarefa até que ele tenha desenterrado ao menos algumas das raízes históricas dos desafiantes dos seus dias.

O Epistemics and Economics do professor Shackle é o caso em questão [10, 1972]. Seu ousado desafio à ortodoxia neoclássica, com o determinismo emprestado das ciências naturais e com a branda suposição de um mundo suficientemente tranquilo e repousante para nos prover com um conjunto de “dados” supostamente constantes, está fadado a ter repercussões de longo alcance. Apesar de a ortodoxia neoclássica ser o alvo principal de seu ataque, o subtítulo do seu A Critique of Economic Doctrines (nós podemos notar o plural) indica um escopo mais abrangente. Algumas doutrinas econômicas do nosso tempo, nós podemos presumir, requerem críticas mais incisivas que outras. No que segue, nós tentamos mostrar que o corpo de pensamento econômico que passou a ser conhecido como “austríaco”, e em particular a parte que acha expressão no trabalho seminal de Ludwig von Mises [8, 1949], não é apenas menos vulnerável ao ataque de Shackle do que o corpo principal da atual ortodoxia, mas que, em uma medida impressionante, Mises e Shackle compartilham uma perspectiva comum sobre os fundamentos da nossa disciplina. Sob a luz dessa circunstância, nós então examinaremos a posição da economia austríaca com relação à sociedade caleidoscópica de Shackle, uma sociedade na qual mais cedo ou mais tarde uma mudança inesperada irá perturbar os padrões, uma sociedade “intercalando seus momentos ou intervalos de ordem, segurança e beleza com desintegração repentina e cascata em um novo padrão” [10, Shackle, 1972, p. 76]

II

Shackle atacou a cidadela neoclássica apenas onde ela é mais vulnerável. As pressuposições feitas pela teoria do equilíbrio geral sobre a natureza e o escopo do conhecimento possuído pelos atores econômicos nunca foram estabelecidas com muita precisão. Toda ação econômica é sempre, claro, preocupada com o futuro, o futuro mais ou menos distante. Mas o futuro é, para todos nós, incognoscível, apesar de não inimaginável. Shackle defende fortemente que a nossa ignorância do futuro invalida qualquer teoria que atribui conhecimento do futuro para atores econômicos empenhados em prover para ele. Para defender uma teoria contra essa crítica, nós evidentemente temos que saber exatamente que pressuposições são feitas sobre conhecimento. Com o modelo neoclássico moderno, esse movimento é qualquer coisa menos fácil.

Nos é dito frequentemente que conhecimento tem que ser incluído entre os “dados” de equilíbrio junto com gostos e recursos, de forma que mudanças no conhecimento implicam em mudanças nos preços e quantidades produzidas. Mas “dados” devem ser mensuráveis e conhecimento não é. Como nós determinamos qual mudança de conhecimento seria requerida apenas para contrabalancear alguma dada mudança nos gostos ou recursos de tal forma a manter um vetor existente de preços?

Além disso, como gostos e recursos podem ter alguma relevância econômica sem serem conhecidos? O dado independente “conhecimento” evidentemente não pode se referir a eles. Talvez nós devamos tomá-lo como referência apenas ao conhecimento tecnológico, conhecimento sobre como transformar insumo em produto, sobre “coeficientes de produção” praticáveis na terminologia de Walras. Sendo assim, o que nós temos que assumir sobre conhecimento de mercado, o conhecimento de gostos e recursos sem os quais ninguém pode operar em um mercado? Nós assumimos que todos os atores do mercado conhecem todos os gostos e recursos em todos os mercados nos quais eles, de fato ou potencialmente, operam ou podem operar? Mas, se sim, o equilíbrio deve ser atingido de uma vez em todos os mercados. Se nós fizermos essa pressuposição, não pode haver desequilíbrio, nenhuma negociação a “preços falsos”. O leiloeiro walrasiano se tornaria supérfluo. Se, por outro lado, nós não fizermos isso, como limitamos a medida do conhecimento de cada ator a cada ponto do tempo, e como lidamos com o fluxo de conhecimento entre atores ao longo do tempo?

Talvez apenas um outro aspecto desse dilema que nunca, diante do nosso conhecimento, foi deixado claro é se um “estado de conhecimento” significa um estado no qual todos compartilham o conhecimento que todos os outros têm, ou se isso apenas denota um “padrão de conhecimento” existente que permite diferenças no conhecimento entre indivíduos. Se é o primeiro caso, nos deveria ser dito como isso se daria e como, num mundo de mudanças, isso poderia ser mantido. Se é o segundo caso, e conhecimento como um dado significa apenas um padrão existente de conhecimento, evidentemente um dia não pode se passar sem alguma mudança nesse padrão interindividual de conhecimento. Como parece estar amplamente acordado que alguma constância nos dados é necessária para a teoria do equilíbrio geral ter grande relevância, mudanças diárias no padrão de conhecimento, praticamente inevitáveis num mundo de mudanças, devem ser fatais para ela. Qualquer que seja a pressuposição sobre conhecimento que nós podemos atribuir, equilíbrio geral não parece resistir bem a um inquérito crítico sobre si.

Na economia austríaca moderna, por contraste, nós encontramos o problema do conhecimento como um assunto de preocupação fundamental. Em 1937, professor Hayek dividiu o assunto da economia entre a lógica pura da escolha e a investigação sobre disseminação do conhecimento.[1] Em 1946, criticando a maior parte das teorias modernas das formas de mercado, ele pontuou que a competição é um processo, não um estado, e que reflete as mudanças contínuas no padrão de conhecimento.[2] No Ação Humana de Mises, o processo de mercado mantido em movimento pelo fluxo de eventos é um tema principal [8, 1949].

Conhecimento novo pode se originar “exogenamente”, por progresso técnico, ou descoberta de novos recursos ou mercados por mentes alertas. Alguns dos conhecimentos novos, entretanto, são gerados “endogenamente”, dentro do mercado, todos os dias por mentes igualmente alertas observando e explorando mudanças lucrativas no padrão dos preços relativos. Conhecimento velho pode inesperadamente se tornar obsoleto de formas similares.

O mundo da economia de mercado é, portanto, um mundo caleidoscópico, um mundo de mudanças constantes no qual o fluxo incessante de notícias diariamente interfere na escolha humana e na tomada de decisões. Nós devemos traçar algumas consequências desse insight importante nos trabalhos de Mises e professor Shackle. Mas nós dificilmente podemos esperar achar mais congruências entre o os pensamentos de tais mentes altamente individuais do que a natureza caleidoscópica do nosso mundo permite. Pode ser valioso para nós perguntarmos em que medida, e em relação ao quê, Shackle nos seus últimos trabalhos “progrediu” para além da base comum que ele compartilha com Mises.

III

Pode soar precipitado dizer que, nos trabalhos de Mises sobre praxeologia, nos capítulos iniciais de Ação Humana, em que ele reúne e examina os elementos da lógica da ação bem-sucedida para servir como base para uma metodologia das ciências sociais, a economia austríaca alcançou um nível de autoconsciência metodológica que nunca tinha desfrutado anteriormente. Mas aqueles que serão mais relutantes a concordar com essa afirmação são propensos a ser idênticos àqueles que objetam vigorosamente ao princípio do apriorismo que Mises expõe nas mesmas páginas, e pode haver vários austríacos entre eles. Tais objeções, com certeza, são em grande parte devidas a um mal-entendido, uma confusão entre forma do pensamento e seu conteúdo empírico, que Mises tentou clarificar (e.g., [8, 1949, pp. 38, 66]). Mas, qualquer que seja nossa atitude sobre essa controvérsia particular, nos parece que muita coisa há a ser dita sobre nossa afirmação sobre autoconsciência metodológica.

Antes de Mises, austríacos, em grande parte, tiveram pouco interesse em metodologia. Carl Menger, em 1883, na verdade, publicou seu Untersuchungen [7, 1883]. Entretanto, o que ele defendeu nele contra os ataques da escola histórica alemã foi o método ricardiano ao invés de qualquer tipo de subjetivismo. Além disso, essa defesa ocorreu em 1883, antes da era de Poincaré e Mach. Quando, em 1908, Schumpeter aplicou a metodologia positivista de Mach para economia, a maioria dos austríacos sentiram choque e repulsa, mas eles não tinham a base metodológica firme a partir da qual eles o poderiam ter atacado (ver Schumpeter [9, 1908]).

Mises tirou sua inspiração de uma fonte diferente, a filosofia neo-kantiana que dominou a Alemanha acadêmica nas primeiras décadas deste século. Max Weber dificilmente pode ser chamado de economista austríaco, mas ele fez uma contribuição de fundamental significado para o que nas mãos de Mises se tornou a metodologia austríaca. Em 1909, Weber escreveu: “A teoria racional da formação de preços não apenas não tem nada a ver com os conceitos de psicologia experimental, mas não tem nada a ver com psicologia de tipo algum, a qual deseja ser uma ‘ciência’ que vai além da experiência do dia a dia (…) A teoria da utilidade marginal, e toda teoria subjetiva do valor, não são psicologicamente, mas, se quiser um termo metodológico, ‘pragmaticamente’ fundamentadas, i.e, elas envolvem o uso das categorias ‘fins’ e ‘meios’”.[3] Aqui, então, nós temos a origem da praxeologia misesiana, a “lógica pura da escolha” hayekiana. Como Mises colocou, “se Weber tivesse conhecido o termo ‘praxeologia’, ele provavelmente o teria preferido” [8, 1949, p. 126, fn. 5].

Em todas as visões essenciais sobre a natureza da ação humana, a característica do mundo na qual ela se situa e os métodos apropriados para o seu estudo, que nós encontramos nos trabalhos de Mises e Shackle, são virtualmente idênticos. Ação é pensamento. Para Mises, “economia não é sobre coisas e objetos materiais tangíveis; é sobre os homens, seus significados e ações. Bens, mercadorias e riqueza, e todas as outras noções de conduta, não são elementos da natureza; eles são elementos do significado e conduta humana” [8, 1949, p. 92]. Para Shackle, “economia, preocupada com pensamentos e apenas secundariamente com coisas, os objetos daqueles pensamentos, deve ser tão prótea quanto o próprio pensamento” [10, 1972, p. 246]. Ações são guiadas por planos, i.e, por pensamento, e toda ação tem que ser interpretada como uma manifestação externa de tais planos, os quais devem ser coerentes para ter alguma chance de sucesso. Na verdade, todos os fenômenos econômicos são inteligíveis apenas como resultado de uma ação planejada.

Para ambos os nossos autores, o mundo no qual pensadores e atores têm que se mover é um de mudança incessante. Shackle descreve isso como um mundo caleidoscópico. Para Mises, “não há nenhuma estabilidade no curso dos eventos humanos e consequentemente nenhuma segurança” [8, 1949, p. 113]. Ele pontua que a nossa consistência de planos não implica em constância de ações observáveis em um mundo de mudança. “Constância e racionalidade são noções inteiramente diferentes (…) Apenas em um sentido a ação pode ser constante: ao preferir o mais valorado ao menos valorado. Se as valorações mudam, a ação também deve mudar” [8, 1949, p. 103].

Em cada plano, meios e fins são fixados pela escolha. Em um mundo de mudanças, os planos têm que ser revisados, mas tais revisões são sempre questões de escolha de fins e meios. Ambos os nossos autores, portanto, tratam a escolha como o tipo “puro” de ação e rejeitam o determinismo junto com as outras parafernálias do positivismo. Duas das afirmações de Shackle tornam isso bem claro. “Se o mundo é determinista, então parece inútil falar de escolha” [10, 1972, p. 122], mas “escolha é sempre entre pensamentos, pois é sempre muito tarde para escolher entre fatos” [10, 1972, p. 280]. De acordo com Mises, “o fato de o homem se ver diante de alternativas, tendo que escolher – e efetivamente escolhe —, se deve ao fato de ele viver em um mundo quantitativo, e não em um mundo onde não existe o conceito de quantidade” [8, 1949, pp. 126-27].

Ambos os nossos autores enfatizam que a noção matemática de tempo como um continuum, uma dimensão na qual os eventos se situam, não encaixam nos requerimentos de uma ciência da ação humana. De acordo com Mises, “O tempo como nós o medimos por vários dispositivos mecânicos é sempre passado, e tempo como os filósofos usam esse conceito é sempre passado ou futuro. O presente é, a partir desses aspectos, nada além de uma linha limitadora ideal que separa o passado do futuro. Mas, a partir do aspecto praxeológico, há entre o passado e o futuro um presente real extenso. Ação é como tal no presente real porque ela utiliza o instante e, portanto, incorpora sua realidade” [8, 1949, p. 100]. Ele faz uma citação a Henri Bergson. “O que eu chamo de meu presente é na realidade minha atitude diante do futuro imediato, ou seja, minha ação iminente”.[4]

Shackle evita enfatizar a filiação bergsoniana do seu pensamento, mas faz o mesmo argumento. “Nós não podemos ter experiência de atualidade em dois ‘momentos’ distintos. O momento de atualidade, o momento em ser, ‘o presente’, é solitário. O tempo estendido, além ‘do momento’, aparece, nesse sentido, como sendo uma invenção, um produto do pensamento” [10, 1972, p. 245].

Ambos os autores enfaticamente rejeitam o cálculo de probabilidade como uma ferramenta para lidar com a conduta humana em um mundo de incerteza. Shackle devota seu capítulo 34 (“linguagens para expectativas”) para esse assunto. Ele resume sua visão no início da seção 34.40: “Probabilidade se preocupa com um grupo de eventos, não com escolhas críticas isoladas” [10, 1972, p. 400]. Mises faz o mesmo argumento pela distinção entre probabilidade de classe e de caso. “Probabilidade de caso não tem nada em comum com probabilidade de classe além da incompletude do nosso conhecimento. Em respeito a todas as outras coisas as duas são inteiramente diferentes (…) Probabilidade de caso é uma característica peculiar do nosso tratamento com os problemas da ação humana. Aqui, qualquer referência à frequência é inapropriada, já que nossas proposições sempre lidam com eventos únicos os quais como tais – i.e, com relação ao problema em questão – não são membros de classe alguma (…) Probabilidade de caso não está aberta a nenhum tipo de avaliação numérica” [8, 1949, pp. 110-13]. Para resumir, então, nas suas ênfases na natureza espontânea, e, portanto, imprevisível da ação humana, nas suas rejeições de noções mecanicistas de tempo e probabilidade, nossos dois autores estão completamente de acordo. Eles também concordam que uma ciência da ação humana requer uma metodologia sui generis.

IV

Ninguém ficaria surpreso ao encontrar diferenças junto com as similaridades entre duas mentes tão originais. Com tal identidade surpreendente de perspectiva e abordagem metodológica, entretanto, como nós já encontramos, qualquer diferença nas conclusões se deve a diferenças no que Schumpeter chamou de “visão”, na interpretação e avaliação dos fatos do mundo ao nosso redor. No argumento teórico, isso é refletido na forma de “pressuposições subsidiárias”, as quais têm que ser elucidadas e ponderadas para o grau de percepção do mundo social que elas nos dão. Uma vez que nós temos isso, nós podemos dizer que, quanto mais compreensiva a visão, se isso nos dá uma percepção mais profunda do mundo e não apenas abrange mais fatos, mais ela avançou a nossa compreensão do fenômeno em questão.

É nesse sentido que nós agora temos que nos perguntar o quão longe pode ser dito que Shackle ampliou o escopo da investigação para além da base comum com a praxeologia que nós descrevemos acima. Em quais sentidos, então, seu trabalho difere dos de Hayek e Mises? A esse respeito, três aspectos chamam particularmente a nossa atenção.

Em primeiro lugar, Shackle estendeu o escopo do subjetivismo de gostos para expectativas. É um fato curioso que, por volta de 1930 (no Tratado Sobre a Moeda de Keynes), expectativas fizeram sua aparição no pensamento econômico do mundo anglo-saxão, os austríacos falharam em agarrar com as duas mãos essa oportunidade de ouro para ampliar as bases da sua abordagem e, em geral, trataram o assunto de forma muito cautelosa. Professor Hayek, de fato, lidou com expectativas em 1933 na sua palestra em Copenhagen sobre “Expectativas de Preços, Distúrbios Monetários e Maus Investimentos” [3, 1939] e em “Economia e Conhecimento” [4, 1948], mas não com as causas e consequências das suas divergências. Na verdade, as expectativas aqui eram tratadas como de interesse analítico apenas na medida em que elas convergiam.[5] Elas eram, no geral, tratadas como um modo de previsão, uma consequência bastante infeliz, mas inevitável do conhecimento imperfeito. Mises dificilmente sequer menciona expectativas, apesar de empreendedores e especuladores aparecerem frequentemente nas suas páginas. Portanto, de 1939 em diante, Shackle teve que lidar com expectativas mais ou menos sozinho sem muito benefício ou suporte do lado austríaco.[6]

Em segundo lugar, há um sentido no qual a ênfase de Shackle na ação sem conhecimento coloca um desafio ainda mais forte para os austríacos do que para a teoria de equilíbrio neoclássica. Nos trabalhos de Hayek, I. M. Kirzner [5, 1973] e Mises, o mercado como um processo, não um estado de repouso, é de fundamental importância. Sua principal função econômica aqui é coordenar o conhecimento existente disperso por várias partes do sistema econômico e disseminar o conhecimento de mercado assim ganho. Ninguém pode lucrativamente explorar o seu conhecimento sem transmitir dicas para os outros. Mas o processo de mercado pode difundir expectativas da mesma forma que difunde conhecimento onde ele existe? Isso não é de forma alguma óbvio. A disseminação de conhecimento superior é decorrente do fato de que os homens podem o julgar pelo seu sucesso. Mas o quão bem-sucedida é uma expectativa nós podemos saber apenas quando é muito tarde para os outros a adotarem. Além disso, numa sociedade caleidoscópica na qual sempre há alguma esperança de que conhecimento melhor estará disponível amanhã se nós apenas esperarmos, e ninguém pode nos dizer o quão cedo o conhecimento bem-sucedido de hoje irá se tornar obsoleto, a difusão do conhecimento pode ser segurada e o processo de mercado, portanto, impedido. O processo de mercado pode “digerir” expectativas? Se pode, qual é o seu modus operandi? Se não pode, a imagem da economia de mercado como nos é apresentada nos escritos austríacos está comprometida, ou ao menos se mostrou incompleta? Para responder essas perguntas nós temos, antes de tudo, que perguntar o que são expectativas e como elas se encaixam na perspectiva da praxeologia.

O futuro é incognoscível, apesar de não inimaginável. Conhecimento futuro não pode ser tido agora, mas ele pode lançar suas sombras adiante. Em cada mente, no entanto, a sombra assume uma forma diferente, por isso a divergência de expectativas. A formação de expectativas é um ato da nossa mente através do qual nós tentamos capturar um vislumbre do desconhecido. Cada um de nós captura um vislumbre diferente. Quanto mais amplo o âmbito da divergência, maior a possibilidade da expectativa de alguém se tornar correta.

Nesse sentido, conhecimento novo, paradoxalmente, pode ter um impacto econômico antes de estar realmente “aqui”. Expectativas divergentes não são nada além das imagens individuais, bastante turvas, nas quais o conhecimento novo está refletido, antes da sua real chegada, em milhares de espelhos diferentes de várias formas. Da mesma forma, conhecimento existente pode se tornar problemático mesmo sem nada melhor existindo no momento. Uma expectativa que irá ser suplantada em breve por um conhecimento superior pode ser suficiente para parar sua difusão. Em tais casos, pode parecer, o processo de mercado irá parar por falta de conhecimento digestível sem nada realmente digestível tomando seu lugar. Expectativas devem, então, ser fatais para o processo de mercado?

O mercado, é claro, não pode difundir “expectativas superiores” no mesmo sentido que difunde conhecimento superior pois ex ante não pode existir nenhum critério de sucesso. Não pode fazer altistas e baixistas mudarem suas expectativas, mas, não obstante, pode coordená-las. Coordenar expectativas altistas e baixistas, como Keynes mostrou, é a função econômica do mercado de ações e do mercado de ativos no geral. Isso é alcançado porque, em tais mercados, o preço irá se mover até que o mercado inteiro esteja dividido entre partes iguais de altistas e baixistas. Nesse sentido, expectativas divergentes são moldadas em um padrão coerente e uma medida de coordenação é efetuada. Esse é um tópico que Shackle tornou muito seu, o qual tem implicações na economia austríaca que nós temos que examinar agora.

Expectativas divergentes dão origem a um terceiro aspecto do modelo de Shackle que não tem contrapartida no trabalho de Mises e, portanto, convida a nossa atenção. Estudando a relevância das expectativas para o processo de mercado, nós aprendemos que elas cumprem diferentes papéis em diferentes mercados e essas diferenças no seu modus operandi terá que ser explorada. A relação do terceiro aspecto com o segundo é, portanto, uma instância particular de um tipo geral de problema. Em um mercado ordinário de produtos, nos quais um fluxo de produtos é vendido, a maioria dos participantes são produtores ou consumidores. Flutuações de tamanho limitado podem se originar em cada lado. Quando nós adicionamos comerciantes de ações, o âmbito de flutuações possíveis aumenta já que esses comerciantes podem ser compradores hoje e vendedores amanhã ou vice-versa. Mas, em um mercado de ativos no qual o estoque inteiro está sempre potencialmente à venda e no qual todos podem facilmente escolher ou mudar de lado, nós encontramos um elemento de volatilidade que é ausente do mercado de produtos. Tais mercados de ativos são inerentemente “inquietos” e preços de equilíbrio estabelecidos nele não refletem nada além do balanço diário de expectativas. No mercado de algodão, por exemplo, é provável que expectativas sobre o preço provável em julho de 1976 tenderão a convergir quando essa data se aproximar. Mas isso não pode acontecer no mercado de ações, desde que o que está sendo transacionado são títulos para correntes permanentes de renda (em princípio), os quais não têm “data” para se “aproximar”. Tudo que nós temos é uma sucessão de equilíbrios diários de mercado determinados por um balanço de expectativas inclinando-se de um dia para o outro na medida em que o fluxo das notícias transforma altistas em baixistas ou vice-versa. Não há aqui questão de uma tendência gradual em direção ao equilíbrio de longo prazo. Não é surpreendente que essa concepção de uma sequência de equilíbrios diários de mercado nos mercados de ativos incorreu no desdém dos pensadores neoclássicos proeminentes. “Uma teoria truncada do equilíbrio temporário no qual mercados para bens futuros são substituídos por alguma forma de expectativas, elas mesmas funções de preços e quantidades correntes, foi de fato desenvolvida, apesar de o seu conteúdo empírico ser necessariamente escasso, se a formação de expectativas é deixada sem análise. Mas o verdadeiro espírito neoclássico está sendo negado em tal modelo” [1, Arrow, 1974, p. 7].

Pode parecer que a falha do verdadeiro espírito neoclássico em achar um reflexo adequado na lista dos preços de fechamento de Wall Street causa pouca preocupação para os austríacos, a maioria dos quais, de Menger em diante, têm sido céticos sobre o modelo de equilíbrio geral desde os dias da escola de Lausanne. Nós podemos até ser inclinados a retrucar: pior para o espírito neoclássico! Mas o problema, “mercados de ativos inquietos versus equilíbrio de longo prazo”, é um que nós não podemos ignorar, em parte devido ao papel proeminente que o mercado de ativos tem na economia de mercado como um todo e em parte porque nem todos os austríacos desprezaram o modelo neoclássico. Nos mercados de ativos voláteis, novos ganhos e perdas de capital são gerados todos os dias que mudam a distribuição de recursos. É difícil ver como o sistema pode alcançar o equilíbrio de longo prazo enquanto essas mudanças estão ocorrendo.

Professor Hayek e Mises ambos expuseram o processo de mercado, mas não ignoraram o equilíbrio como um estágio final. O primeiro, que teve seus trabalhos iniciais claramente sob a influência do modelo de equilíbrio geral, em um momento parecia atribuir uma forte tendência rumo ao equilíbrio geral como um fenômeno real da economia de mercado. Mises, chamando os austríacos de economistas “lógicos” e os neoclássicos de “matemáticos”, escreveu: “Ambos os economistas matemáticos e lógicos afirmam que a ação humana visa em última análise ao estabelecimento de tais estados de equilíbrio e o alcançariam se todas as outras mudanças nos dados cessassem” [8, 1949, p. 352].

É essa visão do processo de mercado como ao menos potencialmente terminando em um estado de equilíbrio geral de longo prazo que agora parece requerer revisão.

V

Em uma sociedade caleidoscópica, as forças equilibradoras operando vagarosamente, especialmente onde a maior parte do equipamento de capital é durável e específico, são sempre sobrepostas por uma mudança inesperada antes que elas façam o seu trabalho, e os resultados da sua operação interrompem antes que ela possa dar frutos. Mercados inquietos de ativos, redistribuindo riqueza todos os dias através da geração de ganhos e perdas de capital, são apenas uma instância, apesar de em uma economia de mercado ser uma das importantes forças de mudança que frustram as forças equilibradoras. O equilíbrio do sistema econômico como um todo nunca vai, portanto, ser alcançado.[7] Mercados marshallianos para bens individuais podem, por um tempo, encontrar seus respectivos equilíbrios. O sistema econômico nunca encontra. O que emerge das nossas reflexões é uma imagem do mercado como um tipo particular de processo, um processo contínuo sem começo ou fim, impulsionado pela interação entre as forças de equilíbrio e as forças de mudança. A teoria de equilíbrio geral apenas conhece interações entre as primeiras.

Para Shackle, teoria de equilíbrio de longo prazo é obviamente uma expressão da visão do mundo vitoriano, uma visão de um mundo moldado principalmente pelas forças do vagaroso, mas ordenado progresso. Os austríacos mais antigos, vitorianos não-anglo-saxões como Menger e Böhm-Bawerk, certamente compartilhavam essa visão de mundo, apesar de não na expressão encontrada no modelo walrasiano. A teoria do capital de Böhm-Bawerk incorpora uma visão de um mundo de progresso constante através do acúmulo de capital sem progresso técnico ou maus-investimentos. Um dos interesses de Menger era o crescente âmbito de variedade de produtos no progresso econômico.

A sociedade caleidoscópica não é, portanto, o habitat natural da economia austríaca, mas o solo estrangeiro pode se provar nutritivo. Um modelo no qual os planos individuais, cada um consistente em si mesmo, nunca têm tempo para se tornarem consistentes uns com os outros antes que uma nova mudança sobrevenha tem seu uso para elucidar algumas características marcantes do nosso mundo. Pode até acontecer de a economia austríaca se destacar na nossa sociedade, na qual as aparentemente irreconciliáveis naturezas das forças econômicas e políticas, em geral, acham sua expressão na nossa inflação permanente e na qual “decisões de políticas públicas” são geralmente um eufemismo para uma sequência incoerente de expedientes desesperados. É possível que um bastião do subjetivismo estendido, melhorado pela inclusão de expectativas divergentes, irá nos oferecer um excelente ponto de vantagem a partir do qual observamos os acontecimentos de tal sociedade numa perspectiva desapaixonada, uma perspectiva superior àquilo que nós tínhamos antes.

Referências Bibliográficas

  1. ARROW, KENNETH J. “Limited Knowledge and Economic Analysis,” Amer. Econ. Rev., March 1974, 54(1), pp. 1-10.
  2. BERGSON, HENRI. Matière et mémoire. Seventh Edition. Paris, 1911.
  3. HAYEK, F. A. Profits, interest and investment. London: Routledge and Sons, 1939.
  4. _____ Individualism and economic order. Chicago: University of Chicago Press, 1948; London: Routledge and Kegan Paul, 1949.
  1. KIRZNER, I. M. Competition and entrepreneurship. Chicago: University of Chicago Press, 1973.
  2. LACHMANN, L. M. “The Role of Expectations in Economics as a Social Science” Economica, N.S., Feb. 1943, 10, pp. 12-23.
  3. MENGER, CARL. Untersuchungen über die Methode der Socialwissenschaften und der Politischen Oekonomie insbesondere. Leipzig: Verlag von Duncker and Humblot, 1883. Traduzido para o inglês como Problems of economics and sociology, by FRANK J. NOCK. Edited by Louis SCHNEIDER. Urbana: University of Illinois Press, 1963.
  4. VON MISES, LUDWIG. Human action: A treatise on economics. New Haven: Yale University Press, 1949.
  5. SCHUMPETER, JOSEPH A. Das Wesen und der Hauptinhalt der theoretischen Nationalökonomie, Leipzig: 1908.
  6. SHACKLE, L. S. Epistemics and economics: A critique of economic doctrines. Cambridge: Cambridge University Press, 1972.
  7. WEBER, MAX. Gesammelte Aufsädtze zur Wissenschaftslehre. Tübingen: J. C. B. Mohr [1922] 1929

Notas

[1] Em “Economia e Conhecimento”, reimpresso em Hayek [4, 1948, pp. 33-56].

[2] Em “The Meaning of Competition”, reimpresso em Hayek [4, 1948, pp. 92-106].

[3] Nossa tradução. Reimpresso do ensaio de Max Weber de 1909, “Die Grenznutzlehre und das psychophysische Grundgesetz“, pode ser encontrado em uma coleção dos seus escritos, [11, 1929, p. 372]

[4] Nossa tradução. Mises cita o texto francês Matière et mémoire [2, 1911, pp. 205]

[5] Para a perspectiva da teoria de equilíbrio geral que Hayek adotou na década de 1930, sua convergência, e a natureza dos processos econômicos o promovendo ou impedindo, isso deve ser de interesse primário. A divergência de expectativas aparece nessa perspectiva principalmente como um obstáculo para o equilíbrio, se não como um reflexo de uma visão temporariamente distorcida do mundo

[6] Ver, entretanto, Lachmann [6, 1943].

[7] Como Shackle incisivamente coloca: “Mas se o equilíbrio racional é uma ilusão, basicamente em desacordo com a condição humana, o Esquema das Coisas, se negligencia o fato e o sentido do tempo, essa prescrição do Cálculo Racional é ela mesma uma ilusão” [10, 1972, pp. 228].

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