Politização de mortes, uma tendência que veio pra ficar – Caso Paulo Gustavo

Daniel Miorim
daniel@universidadelibertaria.com

Daniel é sócio-fundador da Universidade Libertária. Institucionalista Moral Libertário. Totalmente individualista e acima de tudo libertário. Equipe da Fraternidade Libertária, Biblioteca Libertária e Anarcopop.

As redes sociais estão em polvorosa. Morreu nessa terça feira de COVID-19 o ator e humorista Paulo Gustavo, conhecido pela trilogia “Minha mãe é uma peça”. Para todos os lados, vemos dezenas de milhares de posts lamentando a morte do humorista. Mas, entre esses posts, também com enorme repercussão, há aqueles que querem encontrar uma indicação de que o seu lado político esteja correto, a entonação do fato particular da morte de Paulo como um fato político, com culpados, diretrizes para evitar a repetição do fato, bem como os passos para consolidar os projetos de poder que irão abolir o lado culpado.

Nesses posts, não é raro que muitas pessoas queiram deixar a morte do lado de fora dessa discussão e isso invariavelmente cria um atrito significativo em todos os posts, até mesmo sujando a imagem daqueles que o fazem. Então, por que as mortes ainda assim continuam a ser politizadas? Quais são as causas por trás disso? Como esse processo se dá na prática? E é reversível esse processo de politização das mortes?

Reunindo exemplos e entendendo a discussão

Vamos começar analisando os exemplos e entendendo o elemento gradativo que carrega essa discussão. A primeira coisa é entender o processo que cria a atmosfera na qual isso se torna um fato político relevante. Vamos analisar alguns perfis que decidiram se manifestar em primeira mão sobre o humorista:

O que há em comum em todas essas manifestações? Seja lá para qual lado, esse é um ato humano. Reconhecer a noção da morte e padecer-se pela família que fica e pela ausência daquele que foi é algo que humaniza, nos aproxima. A morte é união. A morte é aquele momento em que as distinções significativas que nos separam são simplesmente esquecidas. Na morte, somos um.
Como bem nos lembrou Ariano Suassuna: Cumpriu sua sentença, encontrou-se com o único mal irremediável, aquilo que é a marca do nosso estranho destino sobre a terra, aquele fato sem explicação que iguala tudo o que é vivo num só rebanho de condenados, porque tudo o que é vivo, morre.

Ariano Suassuna, Auto da Compadecida

Agora, se o lado oposto está humanizado, se diante de todos se apresenta abertamente como um de nós, como é que poderemos logo depois dizer que aquele sujeito é o demônio na terra? Como poderemos escolher a ele como a raiz final de todos os nossos problemas? Nada enfraquece mais o atrito do que esses sentimentos de empatia comum a todos, os sentimentos de cooperação e unidade. A política é o oposto disso. A política é conflito, é tiro, porrada e bomba, a política faz com que encontremos no outro um obstáculo para a consolidação das nossas visões sobre a nossa própria vida.

A politização da morte como ferramenta do discurso

Bem, agora que entendemos o que está acontecendo, vamos tentar entender outros elementos centrais. Como isso se dá? E por que o MBL não conseguiu capitalizar politicamente em cima disso, tendo seus membros excluído as postagens em questão sobre o acontecimento? Vamos aos tweets da esquerda e tentaremos entender a questão.

https://twitter.com/paulocoelho/status/1389755866723885062?s=20

Veja que a politização ocorre aqui. O evento não passa desapercebido. Mas, a situação atacada por essas figuras não carrega o nome do Bolsonaro. Não há nomes para responderem ao fenômeno. Não há quem possa nesse momento dizer que a esquerda estava culpando X ou Y pelo acontecimento. A culpa é estrutural, justamente porque o único tipo de reclamação que aceita uma morte desse tipo é a da culpa estrutural. Claro que, lá no fundo, sabemos que é do Bolsonaro que estão todos falando, a quem estão todos rivalizando aqui nas suas falas. Mas, no primeiro momento de luto, essas figuras não se expuseram ao debate direto, embora o farão nas próximas horas, como esses tweets já nos entregam:

Enquanto esse artigo está escrito, a tendência é que o processo de responsabilização aumente e a morte de Paulo Gustavo se some à narrativa. Afinal, passaram-se dois anos e ainda sabemos quem é Marielle e provavelmente saberemos por muito mais tempo. Agora, comparado à esquerda, a direita é até primitiva nisso tudo ainda.

Os dois apagaram o post. A razão pra isso é mais simples do que parece. Pegou mal. Muito mal. Ataques diretos a alguém nesse momento são mal vistos pelo público. Ataques estruturais passam batidos porque o fato do qual Paulo Gustavo é protagonista é um fato particular de um fato político maior, mas o oposto, um fato político de um fato particular é enxergue como um ato de enfrentamento, conflito, no momento de maior união.

A mesma coisa se desenrola com a direita bolsonarista, onde vários perfis postaram o fato de Paulo Gustavo ter feito blasfêmias contra Jesus como uma forma de associar o estado de saúde dele a uma responsabilidade do falecido, no pior momento possível para tal. Isso depois tem um custo significativo.

O que nós pensamos disso? Tem como reverter isso?

Que a família de Paulo Gustavo tenha o máximo de forças para lidar com isso. Lamentamos que a nossa vida tenha se tornado assim tão pública. Que a vida de todos possa ser objeto das discussões, de novos fatos políticos, como se não tivéssemos valores em nós mesmos, como seres humanos. A politização da morte é sem sombra de dúvidas um dos fenômenos mais nefastos da democracia e está tão fortemente atrelada a uma noção de União X Conflito que não parece ser o caso que possa ser revertida.

Sem o medo, sem a preocupação, o senso de urgência, a ansiedade, a democracia não funciona. Ela precisa disso. É seu combustível natural. E é por isso mesmo que ultrapassa até mesmo a janela dos tabus em direção a uma publicização da vida privada. Quanto a porque estamos fazendo esse post agora, algo que qualquer leitor atento poderia se perguntar, questionando-se o quão próximo é esse texto dos tweets acima, devemos dizer que gostaríamos de uma licença poética, o estamos fazendo justamente por gostarmos do Paulo Gustavo, já que poderíamos escolher qualquer outra situação para faze-lo. Usa-lo para ilustrar esse problema, com algo que durará muito mais que um tweet, é nossa franca homenagem.

Descanse em paz Dona Hermínia.


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